{"id":7555,"date":"2006-07-05T16:28:00","date_gmt":"2006-07-05T16:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7555"},"modified":"2006-07-05T16:28:00","modified_gmt":"2006-07-05T16:28:00","slug":"precisamos-oh-sim-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/precisamos-oh-sim-de-educacao\/","title":{"rendered":"Precisamos &#8211; oh, sim &#8211; de educa\u00e7\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<p>Em muitos ouvidos, zumbe, ainda, a letra de uma can\u00e7\u00e3o de um c\u00e9lebre grupo musical que fez escola em muitos meios educativos: \u00abWe don\u2019t need \u2013 no \u2013 education!\u00bb (N\u00e3o precisamos \u2013 oh, n\u00e3o \u2013 de educa\u00e7\u00e3o!). Este foi, durante d\u00e9cadas, em Portugal, um mote que pareceu servir as condutas pol\u00edticas, no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o, e as decis\u00f5es e posturas, no pr\u00f3prio contexto de sala de aula. Por \u00abeduca\u00e7\u00e3o\u00bb entendia-se, aqui, \u00abqualquer tipo de orienta\u00e7\u00e3o vinda de fora\u00bb. A verdade est\u00e1 dentro de n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o que busc\u00e1-la e faz\u00ea-la brilhar.<\/p>\n<p>Como dizia, recentemente, um articulista de um dos jornais de leitura nacional, \u00e9 sintom\u00e1tico desta atitude que, na proposta de novo estatuto da carreira docente, n\u00e3o conste uma \u00fanica vez a refer\u00eancia \u00e0 palavra \u00abensinar\u00bb. O professor, neste quadro, tem apenas um mero papel de suscitador de aprendizagem, um exclusivo facilitador do aprender, que poder\u00e1, em \u00faltima inst\u00e2ncia, redundar num passivo papel, privado de possibilidade de propor formula\u00e7\u00f5es verdadeiras e denunciar proposi\u00e7\u00f5es falsas, pois toda a verdade est\u00e1 entregue ao aluno e reduzida \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que exagerado nos seus tra\u00e7os, este diagn\u00f3stico pode tocar num dos pontos cruciais do sistema educativo portugu\u00eas. Contudo, importa deixar clara uma nota que damos como pressuposta de todas as nossas considera\u00e7\u00f5es: o sistema educativo \u00e9 o espelho de toda a cultura da sociedade de que ele \u00e9 parte integrante. Quando, j\u00e1 num outro momento, discut\u00edamos o problema da autoridade, refer\u00edamos que esta n\u00e3o \u00e9 o mero exerc\u00edcio de poder (pode ter-se poder e estar destitu\u00eddo de autoridade, se os outros no-la retirarem!), mas sim o resultado de toda uma conjuga\u00e7\u00e3o de factores de autoriza\u00e7\u00e3o, de promo\u00e7\u00e3o do reconhecimento de que o que dizemos \u00e9 cred\u00edvel. E isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque toda a sociedade se envolve. Um professor, neste contexto, n\u00e3o est\u00e1, de modo nenhum, s\u00f3. A sua autoridade depende do papel de \u00abautoriza\u00e7\u00e3o\u00bb que a pr\u00f3pria fam\u00edlia desempenha. Quando a fam\u00edlia \u00abdesautoriza\u00bb o professor, este perde a autoridade sobre os educandos, restando-lhe exercer poder.<\/p>\n<p>Ora, o que se tem processado, em rela\u00e7\u00e3o ao sistema educativo portugu\u00eas, \u00e9 uma progressiva desautoriza\u00e7\u00e3o dos intervenientes, restando posi\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e de poder. A fam\u00edlia est\u00e1 desautorizada; os educadores s\u00e3o desautorizados; a pr\u00f3pria imagem do esfor\u00e7o e do trabalho \u00e9 denegrida por inten\u00e7\u00f5es algo an\u00e1rquicas, interessadas em dividir para reinar. <\/p>\n<p>O modelo que defendo prop\u00f5e a legitima\u00e7\u00e3o dos que exercem os pap\u00e9is, exige que estes sejam desempenhados em respeito para com a sua ess\u00eancia: se os pais n\u00e3o forem pais, mas apenas bons amigos dos filhos, quem ser\u00e1 pai e m\u00e3e? Se os professores n\u00e3o forem mais do que elementos passivos, equiparados ao papel de um computador que faz o que o seu utilizador permite, quem far\u00e1 progredir o saber cient\u00edfico, \u00e9tico, l\u00f3gico dos alunos? Por fim, se se perder, em definitivo, a consci\u00eancia de que as no\u00e7\u00f5es de verdade e de erro, de bem e de mal, continuam a ter vig\u00eancia e a ser insubstitu\u00edveis para um crescimento humano, afinal, o que ser\u00e1 educar?<\/p>\n<p>Todas as quest\u00f5es (umas mais relevantes, outras de mera divers\u00e3o) que t\u00eam vindo \u00e0 tona da \u00e1gua dos regatos medi\u00e1ticos, a prop\u00f3sito da discuss\u00e3o sobre o estatuto da carreira docente e outros temas afins, dever\u00e3o ser, no nosso entender, inter-pretadas \u00e0 luz destas interpela\u00e7\u00f5es, que aqui deixamos. Para onde se quer ir? Que inten\u00e7\u00f5es assistem \u00e0 mudan\u00e7a? Que lugar dever\u00e1 ter o esfor\u00e7o e a interven\u00e7\u00e3o de cada um (aluno, professor, fam\u00edlia, comunidade educativa)? <\/p>\n<p>E, por fim, uma constata\u00e7\u00e3o: se o professor for reduzido ao papel de mero facilitador, sumindo, cada vez mais, o seu efectivo papel activo em todo o processo, com que legitimidade poder\u00e1 pedir-se-lhe conta do sucesso dos alunos? Este \u00e9 um dos sofismas em que t\u00eam ca\u00eddo muitas das discuss\u00f5es sobre estas mat\u00e9rias. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em muitos ouvidos, zumbe, ainda, a letra de uma can\u00e7\u00e3o de um c\u00e9lebre grupo musical que fez escola em muitos meios educativos: \u00abWe don\u2019t need \u2013 no \u2013 education!\u00bb (N\u00e3o precisamos \u2013 oh, n\u00e3o \u2013 de educa\u00e7\u00e3o!). 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