{"id":7644,"date":"2006-07-12T12:28:00","date_gmt":"2006-07-12T12:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7644"},"modified":"2006-07-12T12:28:00","modified_gmt":"2006-07-12T12:28:00","slug":"a-familia-espaco-de-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-familia-espaco-de-resistencia\/","title":{"rendered":"A fam\u00edlia, espa\u00e7o de resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A fam\u00edlia tem sido objecto da aten\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria nos documentos pontificais da Doutrina Social da Igreja (DSI): \u201cLugar primeiro da humaniza\u00e7\u00e3o da pessoa e da sociedade\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Christifideles Laici, 1989), \u201cC\u00e9lula primeira e vital da sociedade\u201d (Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, 1965), \u201cSantu\u00e1rio da vida, sede da cultura da vida\u201d (Centesimus Annus), \u201cIgreja dom\u00e9stica chamada a anunciar, celebrar e servir o Evangelho da vida\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Evangelium Vitae, 1995), A escola do mais rico humanismo (Gaudium et Spes), \u201cA primeira escola das virtudes sociais\u201d (Vaticano II, Gravissimum educationis, 1965), \u201cUma comunidade de amor e de solidariedade\u201d (Santa S\u00e9, Carta dos Direitos da Fam\u00edlia, 1983).<\/p>\n<p>De entre todas as sociedades humanas, a fam\u00edlia \u00e9 a \u00fanica natural. N\u00e3o foi inventada cientificamente, n\u00e3o resulta de qualquer legado jur\u00eddico, n\u00e3o foi imposta por qualquer acto administrativo, n\u00e3o germinou fruto de uma qualquer ideologia.<\/p>\n<p>Apesar da desconsidera\u00e7\u00e3o a que, n\u00e3o raro, \u00e9 sujeita, a institui\u00e7\u00e3o familiar continuar\u00e1 a ser a primeira e mais decisiva infra-estrutura moral e referencial na conjuga\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de valores e de saberes.<\/p>\n<p>Desconsidera\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas das autoridades pol\u00edticas e de outras institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m por parte de fam\u00edlias que tendem a demitir-se dos seus pap\u00e9is vencidos pela pressa, pela ang\u00fastia, pela indiferen\u00e7a, pela acomoda\u00e7\u00e3o, pela resigna\u00e7\u00e3o. Quantos \u201cfilhos \u00f3rf\u00e3os de pais vivos\u201d (Jo\u00e3o Paulo II), quantos filhos de pais a tempo cada mais parcial, quantos av\u00f3s de netos distantes n\u00e3o sofrem a aus\u00eancia da fam\u00edlia? Quantas refei\u00e7\u00f5es se transformam em salas de espect\u00e1culo televisivo ou mesmo em almo\u00e7os ou jantares de neg\u00f3cios ou de relat\u00f3rios executivos?<\/p>\n<p>Mas a ideia de fam\u00edlia est\u00e1 sempre presente no nosso quotidiano como refer\u00eancia e valor. Assim \u00e9 que dizermos que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada melhor do que um bom conselho de fam\u00edlia\u201d, que suspiramos por um \u201cm\u00e9dico de fam\u00edlia\u201d, que temos uma rela\u00e7\u00e3o afectuo-sa com a express\u00e3o \u201cabono de fam\u00edlia\u201d, que sempre desejamos ser um \u201cbom pai de fam\u00edlia\u201d, que nos orgulhamos enquanto amigos de algu\u00e9m de dizer que quase \u201cfazemos parte da sua fam\u00edlia\u201d, que segredamos para \u201cficar em fam\u00edlia\u201d, que gostamos de um qualquer restaurante pelo seu \u201cambiente familiar\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um dia em que a fam\u00edlia n\u00e3o seja objecto de proclama\u00e7\u00e3o pelo mundo fora. Ali\u00e1s, o mesmo acontece com a paz. No entanto, \u00e9 da crise da primeira e da aus\u00eancia da segunda que a actualidade se alimenta freneticamente.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 fam\u00edlias em crise, os novos paladinos da \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d familiar logo concluem silogisticamente pela crise da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pelo mesmo racioc\u00ednio, havendo desemprego, menosprezamos o valor do emprego? Havendo doen\u00e7as, desvalorizamos o benef\u00edcio da sa\u00fade? Havendo fumadores, devemos dar menos valor ao benef\u00edcio de n\u00e3o fumar?<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o. Havendo muitas fam\u00edlias em dificuldade, ningu\u00e9m, de boa f\u00e9, pode, todavia, p\u00f4r em causa a fam\u00edlia como a express\u00e3o antropol\u00f3gica mais solidarista de transmiss\u00e3o da vida, de partilha geracional, de desenvolvimento da personalidade, de mais informal e eficaz institui\u00e7\u00e3o de protec\u00e7\u00e3o social e de afectos, de escola de trabalho.<\/p>\n<p>Mas temos que reconhecer que as vulnerabilidades por que passa a fam\u00edlia s\u00e3o a principal causa de problemas na sociedade e, em certa medida, de empobrecimento c\u00edvico, espiritual, afectivo e educativo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 uma unidade feita da diversidade de idades, onde cada um vale mais pelo que \u00e9 do que pelo que tem.<\/p>\n<p>Por isso, a fam\u00edlia pode e deve ser a primeira inst\u00e2ncia de resist\u00eancia contra a ren\u00fancia a valores superiores, sem os quais apenas se pode construir uma qualquer ilus\u00e3o fugaz.<\/p>\n<p>Bem se sabe que \u00e9 preciso haver abertura intelectual para perceber as mudan\u00e7as no mundo que nos envolve. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos descartar a profundidade e extens\u00e3o da experi\u00eancia acumulada de gera\u00e7\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento verdadeiramente humano e qualidade de vida humanizada sem qualidade da fam\u00edlia. Nem \u00e9 poss\u00edvel e dese-j\u00e1vel construir e desenvolver um \u201cEstado de bem-estar\u201d radicado num certo \u201cmal-estar das fam\u00edlias\u201d. <\/p>\n<p>A fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado s\u00e3o para a fam\u00edlia\u201d (Conselho Pontif\u00edcio Justi\u00e7a e Paz, 2004).<\/p>\n<p>Em mat\u00e9ria familiar, tenho todo o respeito pelas normas, mas acredito mais nos valores. Valorizo os recursos, mas elejo o exemplo. Admiro o \u00eaxito individual, mas sou mais sens\u00edvel ao sucesso familiar.   <\/p>\n<p>\u201cO futuro da humanidade passa pela fam\u00edlia!\u201d (Familiaris Consortio).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fam\u00edlia tem sido objecto da aten\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria nos documentos pontificais da Doutrina Social da Igreja (DSI): \u201cLugar primeiro da humaniza\u00e7\u00e3o da pessoa e da sociedade\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Christifideles Laici, 1989), \u201cC\u00e9lula primeira e vital da sociedade\u201d (Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, 1965), \u201cSantu\u00e1rio da vida, sede da cultura da vida\u201d (Centesimus Annus), \u201cIgreja dom\u00e9stica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-7644","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7644\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}