{"id":769,"date":"2010-03-03T14:59:00","date_gmt":"2010-03-03T14:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=769"},"modified":"2010-03-03T14:59:00","modified_gmt":"2010-03-03T14:59:00","slug":"as-discussoes-da-bioetica-tem-a-ver-com-cada-um-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-discussoes-da-bioetica-tem-a-ver-com-cada-um-de-nos\/","title":{"rendered":"&#8220;As discuss\u00f5es da bio\u00e9tica t\u00eam a ver com cada um de n\u00f3s&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e9dico pediatra, com 81 anos, Jorge Biscaia foi um dos pioneiros da bio\u00e9tica em Portugal, tendo criado, em 1988 o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica. Antigo professor de Pediatria na Universidade de Coimbra, foi director dos Servi\u00e7os de Neonatologia da Maternidade Bissaya Barreto, onde fundou e desenvolveu a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Recebeu em 2008 a Gr\u00e3-Cruz da Ordem de Sant\u2019Iago da Espada. De passagem por Aveiro, para participar na primeira reuni\u00e3o do grupo local de Bio\u00e9tica, falou com o Correio do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Antes, as pessoas sabiam como nasciam e como morriam. Hoje, estamos mais confusos quanto ao princ\u00edpio e fim da vida.<\/p>\n<p>JORGE BISCAIA &#8211; Sim, e para isso \u00e9 que existe a bio\u00e9tica, que quer p\u00f4r a tecnologia ao servi\u00e7o das pessoas, respeitando as pessoas. A bio\u00e9tica quer levar as pessoas a pensar em normas \u00e9ticas para a sua vida e a morte. \u00c9 evidente que antes n\u00e3o se punha o problema de como nasciam. Era tudo o mais natural poss\u00edvel. Mas o nascimento foi evoluindo com a t\u00e9cnica. Apareceu a fecunda\u00e7\u00e3o \u201cin vitro\u201d intra casal. Mas depois come\u00e7aram os desmandos, surgindo, por exemplo, as \u201cm\u00e3es hospedeiras\u201d, com material gen\u00e9tico de outras pessoas. Ora, durante a vida intra-uterina n\u00e3o se d\u00e1 somente o sangue e a respira\u00e7\u00e3o. O feto recebe as emo\u00e7\u00f5es da m\u00e3e, as doen\u00e7as, as ang\u00fastias e alegrias\u2026 A vida intra-uterina n\u00e3o \u00e9: abre-se a porta, entra o h\u00f3spede e fecha-se a porta. H\u00e1 sempre um envolvimento. H\u00e1 interac\u00e7\u00e3o. H\u00e1 perguntas e respostas entre o corpo da m\u00e3e e o do filho desde o primeiro momento. Mas h\u00e1 outros desmandos. Por exemplo, um casal homossexual que quer ter filhos. Pode adoptar filhos de outra mulher, mas \u00e9 evidente que a crian\u00e7a tem direitos. O filho n\u00e3o \u00e9 \u201ccavalo mandado\u201d dos pais. Tem o direito a poder escolher o caminho futuro. Se os pais s\u00e3o iguais, n\u00e3o pode escolher.<\/p>\n<p>Quer dizer que \u00e9 contra a adop\u00e7\u00e3o por casais homossexuais?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada contra que eles tenham rela\u00e7\u00f5es homossexuais. Defendo \u00e9 que o filho tem o direito a ter um pai e uma m\u00e3e. A crian\u00e7a tem direito a ser educada por uma personalidade de homem e de mulher, de pai e de m\u00e3e. \u00c9 o seu caminho de liberdade. O filho n\u00e3o \u00e9 o que os pais querem que seja. Os pais d\u00e3o as bases da rela\u00e7\u00e3o, mas o filho \u00e9 livre.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o apenas alguns problemas do in\u00edcio da vida. E quanto ao fim? Diz-se que a sociedade portuguesa \u00e9 permissiva quanto \u00e0 eutan\u00e1sia\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. As sondagens iludem. Se perguntam: \u201cD\u00e1-se a eutan\u00e1sia para evitar o sofrimento?\u201d A maioria diz que sim. Mas 99 por cento dos casos de dor s\u00e3o resolvidos com um bom tratamento da dor. Mesmo nessa l\u00f3gica, n\u00e3o seria necess\u00e1ria a eutan\u00e1sia. Quem diz sim n\u00e3o est\u00e1 ao corrente da medicina. O problema da pessoa que est\u00e1 a morrer n\u00e3o \u00e9 o da dor. \u00c9 o do sofrimento, estar sozinho, pensar que n\u00e3o tem futuro, pensar que \u00e9 um peso para os filhos. A solu\u00e7\u00e3o para isso, al\u00e9m do afecto da fam\u00edlia, passa por uma equipa de cuidados paliativos.<\/p>\n<p>O acompanhamento e o afecto s\u00e3o ant\u00eddotos para a eutan\u00e1sia?<\/p>\n<p>O que faz mais falta \u00e9 um projecto de vida, mesmo na hora da morte, que pode ser dado por uma conversa, por um amigo, por uma m\u00e3o que toca. Todos morremos. Todos sabemos que estamos num caminho para a morte. Esse caminho pode ser acompanhado ou n\u00e3o. Pode ser um caminho de plenitude, de encontro de carinho, de reflex\u00e3o pessoal sobre a vida. O sofrimento \u00e9 provocado n\u00e3o s\u00f3 pela dor f\u00edsica, que existe, mas pode ser controlada, como tamb\u00e9m por sentir-se in\u00fatil, n\u00e3o saber o que vai acontecer ao filhos\u2026 A dor \u00e9 um falso problema.<\/p>\n<p>A sociedade tem hoje mais medo de enfrentar a morte do que ontem?<\/p>\n<p>Antes, n\u00e3o havia diagn\u00f3sticos precoces como agora. Agora, sabe-se das doen\u00e7as que levam \u00e0 morte. Isso \u00e9 bom, mas tanto pode dar para preparar a morte, como para tem\u00ea-la.<\/p>\n<p>O factor religioso n\u00e3o influencia, n\u00e3o d\u00e1 tranquilidade no final da vida?<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil o fim da vida para quem um sentido espiritual do que para quem n\u00e3o tem. Mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha incertezas. E tem de ser ajudado na mesma. V\u00eaem-se muitos casos de vidas transformadas no final gra\u00e7as \u00e0 amizade, por vezes at\u00e9 a amizade de m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Essa amizade dos m\u00e9dicos e de outro pessoal de sa\u00fade n\u00e3o devia existir sempre que algu\u00e9m est\u00e1 doente?<\/p>\n<p>Sempre. Mas o que acontece \u00e9 que hoje a medicina \u00e9 muito t\u00e9cnica. Muito tecnol\u00f3gica. Faz-se uma radiografia, uma ecografia, uma TAC. \u00c9 tudo muito t\u00e9cnico. Ouve-se pouco o doente. O m\u00e9dico j\u00e1 n\u00e3o toca no doente. Tinha um professor de pediatria que dizia que as m\u00e3es t\u00eam sempre raz\u00e3o, que \u00e9 preciso ouvi-las. Ouvir \u00e9 olhar olhos nos olhos e deixar falar, at\u00e9 para ir ao encontro da sua ang\u00fastia. No caso da m\u00e3e, o que ela pensou, ou viu na televis\u00e3o, o que lhe disseram.<\/p>\n<p>\u00c9 um pediatra dos mais conhecidos do pa\u00eds. Com mais de 50 anos na pediatria, viu muita coisa mudar.<\/p>\n<p>Passei de uma pediatria n\u00e3o tecnol\u00f3gica para uma pediatria tecnol\u00f3gica. Desenvolvi algumas coisas que achei importantes, como a unidade neonatalogia. Criei uma unidade de interven\u00e7\u00e3o precoce, sobre a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho. \u201cApanh\u00e1mos\u201d com aquelas que ningu\u00e9m queria, m\u00e3es violadas, m\u00e3es solteiras, m\u00e3es que tinham algum problema, e procur\u00e1mos criar a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho, que \u00e9 a mais importante. \u00c9 fundamental uma rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho perfeita. N\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es. Somos mais determinados pela m\u00e3e. O pai d\u00e1 parte da gen\u00e9tica, mas a m\u00e3e d\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o profunda muito antes de o homem poder fazer qualquer coisa. Se ele a trata mal, ela transmite isso ao filho. Se a acaricia e a trata bem, o filho recebe essas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aprendi muito ao longo destes cinquenta anos. Comecei num tempo em que n\u00e3o havia antibi\u00f3ticos. A pediatria e a sa\u00fade mudaram imenso. Quando fui a Fran\u00e7a, em 1959, tinha vergonha de dizer a nossa mortalidade infantil. Hoje temos uma das mais baixas.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 bom ser crian\u00e7a em Portugal?<\/p>\n<p>\u00c9 melhor na quest\u00e3o da sa\u00fade. H\u00e1 menos doen\u00e7as em crian\u00e7a e isso \u00e9 melhor para toda a vida. Mas est\u00e1-se pior na rela\u00e7\u00e3o dos pais com os filhos, penso eu. Os pais separam-se, desentendem-se. As crian\u00e7as sofrem imenso com isso. Por vezes consideram-se culpadas da situa\u00e7\u00e3o. Depois, os pais entram em competi\u00e7\u00e3o para conquistar o filho\u2026<\/p>\n<p>A crian\u00e7a \u00e9 a maior v\u00edtima da destrui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia?<\/p>\n<p>Desde a vida intra-uterina! A partir de certa altura, as emo\u00e7\u00f5es da m\u00e3e come\u00e7am a ficar no subconsciente dos filhos. Se o pai se ausenta de casa, a m\u00e3e sofre, o filho sofre. Se a m\u00e3e \u00e9 amea\u00e7ada de despedimento no tra-balho, o filho por nascer sofre.<\/p>\n<p>Se quisermos ter adultos saud\u00e1veis e felizes\u2026<\/p>\n<p>\u2026temos de melhorar a fam\u00edlia e a vida infantil. Temos de ter uma fam\u00edlia que seja uma rela\u00e7\u00e3o de amor. A crian\u00e7a capta isso pelo subconsciente. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00fade e bem-estar mental sem amor. Dou-lhe um exemplo. Uma fam\u00edlia queixava-se do desenvolvimento da fala do seu filho. E eu perguntei se passavam muito tempo com ele. N\u00e3o passavam. Ent\u00e3o, quem \u00e9 que cuidava do filho? Era uma senhora b\u00falgara. O filho n\u00e3o falava portugu\u00eas, mas falava b\u00falgaro. O meu conselho foi s\u00f3: tenha tempo para ele, fale com ele!<\/p>\n<p>Est\u00e1 a ser criado do Grupo de Bio\u00e9tica de Aveiro. \u00c9 importante que existam estes grupos?<\/p>\n<p> A bio\u00e9tica \u00e9 um discernimento sobre a vida que n\u00e3o deve ser feito apenas por m\u00e9dicos, juristas ou te\u00f3logos. Chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que deve ser pluridisciplinar. \u00c9 dif\u00edcil que todos os cidad\u00e3os participem nas discuss\u00f5es de bio\u00e9tica, mas seria bom que caminh\u00e1ssemos nesse sentido, porque todos nascemos e todos morremos. Isto tem a ver com cada um de n\u00f3s. As discuss\u00f5es sobre a vida n\u00e3o devem ser feitas nos gabinetes, mas resultar de consensos, ou pelo menos receber a contribui\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo de pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9dico pediatra, com 81 anos, Jorge Biscaia foi um dos pioneiros da bio\u00e9tica em Portugal, tendo criado, em 1988 o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica. Antigo professor de Pediatria na Universidade de Coimbra, foi director dos Servi\u00e7os de Neonatologia da Maternidade Bissaya Barreto, onde fundou e desenvolveu a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Recebeu em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-769","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=769"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}