{"id":7743,"date":"2006-08-30T17:07:00","date_gmt":"2006-08-30T17:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7743"},"modified":"2006-08-30T17:07:00","modified_gmt":"2006-08-30T17:07:00","slug":"a-morte-do-irmao-roger-porque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-morte-do-irmao-roger-porque\/","title":{"rendered":"A morte do irm\u00e3o Roger: porqu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p>Em muitas mensagens que recebemos no ano passado, a morte do irm\u00e3o Roger foi comparada \u00e0 de Martin Luther King, \u00e0 do arcebispo \u00d3scar Romero ou \u00e0 de Gandhi. Contudo, n\u00e3o podemos negar que tamb\u00e9m h\u00e1 uma diferen\u00e7a. Eles encontravam-se num combate de origem pol\u00edtica, ideol\u00f3gica, e foram assassinados por advers\u00e1rios, que n\u00e3o podiam suportar a sua opini\u00e3o e a sua influ\u00eancia. <\/p>\n<p>Muitos dir\u00e3o que \u00e9 in\u00fatil procurar uma explica\u00e7\u00e3o para o assassinato do irm\u00e3o Roger. O mal faz malograr sempre qualquer explica\u00e7\u00e3o. Um justo do Antigo Testamento dizia que era odiado \u00absem raz\u00e3o\u00bb, e S\u00e3o Jo\u00e3o p\u00f4s esta afirma\u00e7\u00e3o na boca de Jesus: \u00abOdiaram-me sem raz\u00e3o\u00bb. <\/p>\n<p>No entanto, tendo vivido pr\u00f3ximo do irm\u00e3o Roger, marcou-me sempre um aspecto da sua personalidade e pergunto-me se isso n\u00e3o explica o fato de ter sido ele o visado. O irm\u00e3o Roger era um inocente. N\u00e3o no sentido de n\u00e3o ter tido falhas. O inocente \u00e9 algu\u00e9m para quem as coisas t\u00eam uma evid\u00eancia e uma instantaneidade que n\u00e3o t\u00eam para os outros. Para o inocente, a verdade \u00e9 evidente; n\u00e3o depende de argumenta\u00e7\u00f5es. Ele como que a \u00abv\u00ea\u00bb e tem dificuldade em perceber que outras pessoas t\u00eam um acesso mais laborioso a ela. O que diz parece-lhe simples e claro e admira-se que haja pessoas para quem n\u00e3o seja assim. Compreendemos facilmente que frequentemente se encontra desarmado ou se sente vulner\u00e1vel. Por\u00e9m, em geral, a sua inoc\u00eancia n\u00e3o tem nada de ing\u00e9nuo. Para ele, o real n\u00e3o tem a mesma opacidade que para os outros. Ele \u00abv\u00ea atrav\u00e9s\u00bb.<\/p>\n<p>Tomo como exemplo a unidade dos crist\u00e3os. Para o irm\u00e3o Roger, era evidente que, se essa unidade \u00e9 desejada por Cristo, deve poder ser vivida sem demoras. Os argumentos que se lhe opunham deviam parecer-lhe artificiais. Para ele, a unidade dos crist\u00e3os era, antes de tudo, uma quest\u00e3o de reconcilia\u00e7\u00e3o. E, no fundo, ele tinha raz\u00e3o, pois n\u00f3s perguntamo-nos demasiado pouco se estamos dispostos a pagar o pre\u00e7o dessa unidade. Ser\u00e1 que uma reconcilia\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sintamos na pr\u00f3pria pele ainda merece esse nome? <\/p>\n<p>Havia quem dissesse que o irm\u00e3o Roger n\u00e3o tinha um pensamento teol\u00f3gico. Mas ser\u00e1 que ele n\u00e3o via mais claro do que aqueles que afirmavam isso? H\u00e1 s\u00e9culos que os crist\u00e3os t\u00eam necessidade de justificar as suas divis\u00f5es. Tornaram artificialmente maiores as oposi\u00e7\u00f5es. Sem perceber, entraram num processo de rivalidade e n\u00e3o compreenderam a evid\u00eancia deste fen\u00f3meno. N\u00e3o \u00abviram atrav\u00e9s\u00bb. A unidade parecia-lhes imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>O irm\u00e3o Roger era um homem realista. Tinha em conta o que permanece irrealiz\u00e1vel, sobretudo do ponto de vista institucional. Mas n\u00e3o podia parar a\u00ed. Essa inoc\u00eancia dava-lhe uma for\u00e7a de persuas\u00e3o muito especial, uma esp\u00e9cie de mansid\u00e3o que nunca se dava por vencida. At\u00e9 ao fim, viu a unidade dos crist\u00e3os como uma quest\u00e3o de reconcilia\u00e7\u00e3o. E a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um passo que todo o crist\u00e3o pode dar. Se efectivamente todos dessem esse passo, a unidade estaria prestes a ser semeada. <\/p>\n<p>Havia outra \u00e1rea onde esta caracter\u00edstica do irm\u00e3o Roger se fazia sentir e onde se via talvez ainda melhor a sua personalidade, com tudo o que ela tinha de radical: tudo o que podia fazer surgir uma d\u00favida a respeito do amor de Deus era-lhe insuport\u00e1vel. Aqui tocamos nessa compreens\u00e3o muito imediata das coisas de Deus. N\u00e3o significa que ele se recusasse a reflectir, mas ressentia em si mesmo de forma muito forte que uma certa linguagem que pretende ser justa \u2013 por exemplo sobre o amor de Deus \u2013 na realidade ofusca o que pessoas menos advertidas esperam desse amor. <\/p>\n<p>Se o irm\u00e3o Roger insistiu muito sobre a bondade profunda do ser humano, isso deve ser visto na mesma perspectiva. Ele n\u00e3o tinha ilus\u00f5es sobre o mal. Por natureza, era tendencialmente vulner\u00e1vel. Mas tinha a certeza de que, se Deus ama e perdoa, ent\u00e3o recusa recordar o mal. Todo o verdadeiro perd\u00e3o desperta o que h\u00e1 de mais profundo no cora\u00e7\u00e3o humano, esse fundo que \u00e9 feito para a bondade. <\/p>\n<p>Paul Ricoeur foi tocado por esta insist\u00eancia na bondade. Disse-nos um dia em Taiz\u00e9 que via a\u00ed o sentido da religi\u00e3o: \u00abLibertar o fundo de bondade dos homens, ir procur\u00e1-lo onde estiver completamente enterrado\u00bb. No passado, houve uma certa pr\u00e9dica crist\u00e3 que insistia continuamente na natureza humana essencialmente m\u00e1. Fazia isso para salientar a gratuidade pura do perd\u00e3o. Mas afastou muita gente da f\u00e9; mesmo se ouviam falar do amor, tinham a impress\u00e3o de que esse amor mantinha reservas e de que o perd\u00e3o anunciado n\u00e3o era total. <\/p>\n<p>O que h\u00e1 de mais precioso na heran\u00e7a que o irm\u00e3o Roger nos deixou encontra-se talvez nisso: esse sentido do amor e do perd\u00e3o, duas realidades que tinham para ele uma evid\u00eancia e que ele compreendia com uma instantaneidade que muitas vezes nos escapava. Nessa \u00e1rea, ele era verdadeiramente inocente, sempre simples, desarmado, lendo no cora\u00e7\u00e3o dos outros, capaz de uma confian\u00e7a extrema. O seu bonito olhar traduzia isso. Se ele se sentia t\u00e3o bem quando estava rodeado por crian\u00e7as, era porque elas vivem as coisas com a mesma instantaneidade; n\u00e3o podem proteger-se e n\u00e3o podem acreditar no que \u00e9 complicado; o seu cora\u00e7\u00e3o vai direito ao que as toca. <\/p>\n<p>A d\u00favida nunca esteve ausente para o irm\u00e3o Roger. Era por isso que ele gostava das palavras: \u00abN\u00e3o deixe que as minhas trevas me falem!\u00bb Porque as trevas eram insinua\u00e7\u00f5es da d\u00favida. Mas esta d\u00favida n\u00e3o atingia a evid\u00eancia com que ele ressentia o amor de Deus. Essa d\u00favida at\u00e9 talvez exigisse uma linguagem que n\u00e3o deixasse subsistir nenhuma ambiguidade. A evid\u00eancia de que falo n\u00e3o se situava a um n\u00edvel intelectual, mas era mais profunda, ao n\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o. E, como tudo o que n\u00e3o pode ser protegido por uma argumenta\u00e7\u00e3o forte ou certezas bem constru\u00eddas, essa evid\u00eancia era necessariamente fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Nos Evangelhos, a simplicidade de Jesus incomodava. Alguns ouvintes de Jesus sentiram-se postos em causa. Era como se o pensamento dos seus cora\u00e7\u00f5es fosse revelado. A linguagem clara de Jesus e a sua forma de ler os cora\u00e7\u00f5es constitu\u00eda uma amea\u00e7a para eles. Um homem que n\u00e3o se deixa fechar em conflitos torna-se perigoso para alguns. Esse homem fascina, mas esse fasc\u00ednio pode facilmente tornar-se hostilidade.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o Roger fascinou certamente pela sua inoc\u00eancia, pela sua percep\u00e7\u00e3o imediata, pelo seu olhar. E penso que ele viu nos olhos de algumas pessoas que o fasc\u00ednio se podia transformar em desconfian\u00e7a ou em agressividade. Para uma pessoa que carrega conflitos insol\u00faveis, essa inoc\u00eancia pode tornar-se insuport\u00e1vel. E, nesses casos, n\u00e3o basta insultar essa inoc\u00eancia. \u00c9 preciso elimin\u00e1-la. O doutor Bernard de Senarclens escreveu: \u00abSe a luz \u00e9 demasiado forte (e penso que o que brotava do irm\u00e3o Roger podia deslumbrar), nem sempre \u00e9 f\u00e1cil suport\u00e1-la. Ent\u00e3o, s\u00f3 resta a solu\u00e7\u00e3o de apagar essa fonte luminosa, suprimindo-a\u00bb.<\/p>\n<p>Quis escrever esta reflex\u00e3o, pois ela permite fazer real\u00e7ar um aspecto da unidade da vida do irm\u00e3o Roger. A sua morte p\u00f4s misteriosamente um selo naquilo que ele sempre foi. Pois ele n\u00e3o foi morto por causa do que defendia. Foi morto por causa do que era.<\/p>\n<p>Irm\u00e3o Fran\u00e7ois<\/p>\n<p>L\u00edder da Comunidade de Taiz\u00e9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em muitas mensagens que recebemos no ano passado, a morte do irm\u00e3o Roger foi comparada \u00e0 de Martin Luther King, \u00e0 do arcebispo \u00d3scar Romero ou \u00e0 de Gandhi. Contudo, n\u00e3o podemos negar que tamb\u00e9m h\u00e1 uma diferen\u00e7a. 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