{"id":7776,"date":"2006-09-06T16:18:00","date_gmt":"2006-09-06T16:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7776"},"modified":"2006-09-06T16:18:00","modified_gmt":"2006-09-06T16:18:00","slug":"cristianismo-e-mais-do-que-um-conjunto-de-proibicoes-e-uma-opcao-positiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/cristianismo-e-mais-do-que-um-conjunto-de-proibicoes-e-uma-opcao-positiva\/","title":{"rendered":"&#8220;Cristianismo \u00e9 mais do que um conjunto de proibi\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o positiva&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em Agosto, Bento XVI concedeu uma entrevista a meios de comunica\u00e7\u00e3o alem\u00e3es e \u00e0 R\u00e1dio Vaticano. A poucos dias da visita \u00e0 Alemanha, o Correio do Vouga apresenta os principais assuntos abordados pelo Papa. O texto foi adaptado a partir de uma tradu\u00e7\u00e3o da R\u00e1dio Vaticano.<\/p>\n<p>Na Alemanha, de 9 a 14 de Setembro, o Papa ir\u00e1 a Munique, cidade da qual foi arcebispo de 1977 a 1982, peregrinar\u00e1 ao Santu\u00e1rio de Altotting, s\u00edmbolo do catolicismo b\u00e1varo, visitar\u00e1 Marktl am Inn, sua terra natal, e Ratisbona (Regensburg, em alem\u00e3o). Nesta cidade, onde Joseph Ratzinger foi catedr\u00e1tico, vive o seu irm\u00e3o, Georg, e est\u00e3o sepultados v\u00e1rios familiares.<\/p>\n<p>Motivo da visita \u00e0 Alemanha<\/p>\n<p>O motivo da visita consiste exactamente no meu desejo de ver, uma vez mais, os lugares e as pessoas junto das quais eu cresci, que me marcaram e fazem parte da minha vida; pessoas \u00e0s quais desejo agradecer. E, naturalmente, tamb\u00e9m levar uma mensagem que v\u00e1 al\u00e9m da minha terra, como \u00e9 coerente com o meu minist\u00e9rio. Os temas, deixei que me fossem simplesmente indicados pelas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas. O tema fundamental \u00e9 que n\u00f3s devemos redescobrir Deus, e n\u00e3o um Deus qualquer, mas o Deus com fei\u00e7\u00f5es humanas, porque quando vemos Jesus Cristo, vemos Deus. E, a partir disso, devemos buscar os caminhos (&#8230;), caminhos que conduzem ao futuro. N\u00e3o os encontraremos, se n\u00e3o recebermos a luz do alto.<\/p>\n<p>Crer, no mundo ocidental<\/p>\n<p>No mundo ocidental, vivemos hoje uma onda de novo e dr\u00e1stico iluminismo ou laicismo, como se queira chamar. Crer tornou-se mais dif\u00edcil, uma vez que o mundo em que nos encontramos, \u00e9 feito completamente por n\u00f3s mesmos, e, neste mundo, Deus &#8211; se podemos assim dizer &#8211; j\u00e1 n\u00e3o comparece directamente. J\u00e1 n\u00e3o se bebe da fonte, mas sim do recipiente em que a \u00e1gua nos \u00e9 oferecida. Os homens reconstru\u00edram o mundo por si mesmos, e encontrar Deus por tr\u00e1s deste mundo tornou-se dif\u00edcil. Isso n\u00e3o \u00e9 algo espec\u00edfico da Alemanha, mas sim um fen\u00f3meno que se verifica em todo o mundo, em particular no mundo ocidental. Por outro lado, o Ocidente, hoje, \u00e9 tocado fortemente por outras culturas, nas quais o elemento religioso origin\u00e1rio \u00e9 muito forte, e que ficam horrorizadas pela frieza que encontram no Ocidente, no que se refere a Deus. (&#8230;)<\/p>\n<p>Das profundezas do homem, no Ocidente e na Alemanha, emerge, sempre e novamente, o desejo de algo \u201cmaior\u201d. N\u00f3s o constatamos entre a juventude, na sua cont\u00ednua busca de um \u201calgo mais\u201d. De certa forma, o fen\u00f3meno religi\u00e3o &#8211; como se diz &#8211; retorna, ainda que como movimento de busca bastante indeterminado.<\/p>\n<p>Jovens<\/p>\n<p>Sinto-me muito feliz em saber que h\u00e1 jovens que querem estar juntos, que querem reunir-se na f\u00e9, e que desejam fazer algo de bom. A disponibilidade para o bem \u00e9 muito forte na juventude, basta pensar nas muitas formas de voluntariado. O compromisso a oferecer, pessoalmente, uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades deste mundo, \u00e9 uma coisa grande. Um primeiro impulso pode ser, portanto, o de encorajar a isso: Prossigam neste caminho! Busquem ocasi\u00f5es para fazer o bem! O mundo necessita dessa vontade, necessita desse empenho! E depois, talvez, uma palavra especial poderia ser esta: a coragem das decis\u00f5es definitivas! Na juventude, h\u00e1 muita generosidade, mas, diante do risco de comprometer-se por toda a vida, seja no matrim\u00f3nio seja no sacerd\u00f3cio, experimenta-se o medo. O mundo movimenta-se de modo dram\u00e1tico. Continuamente. Posso, desde agora, dispor de toda a minha vida, com todos os seus imprevis\u00edveis eventos futuros? Com uma decis\u00e3o definitiva, n\u00e3o estarei, eu mesmo, cerceando a minha liberdade e tirando algo de minha flexibilidade? Despertar a coragem de ousar decis\u00f5es definitivas, que, na realidade, s\u00e3o as \u00fanicas que tornam o crescimento poss\u00edvel, que permitem ir avante e alcan\u00e7ar algo de grande na vida; s\u00e3o as \u00fanicas que n\u00e3o destroem a liberdade, mas lhe oferecem a justa direc\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o; correr esse risco, dar esse salto &#8211; se assim podemos dizer &#8211; para o definitivo e, com isso, acolher plenamente a vida: isso \u00e9 algo que eu ficaria muito feliz de poder comunicar. <\/p>\n<p>Primado do Papa ou colegialidade dos bispos?<\/p>\n<p>Uma rela\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o e equil\u00edbrio naturalmente existe, e deve ser assim. Multiplicidade e unidade devem sempre e novamente encontrar a sua rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, e essa rela\u00e7\u00e3o deve ser restabelecida, nas mut\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es do mundo. Hoje, temos uma nova polifonia de culturas, na qual a Europa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico determinante; as comunidades crist\u00e3s dos diversos continentes est\u00e3o adquirindo o seu pr\u00f3prio peso, as suas pr\u00f3prias cores. Devemos aprender, cada vez mais, essa sinergia. Para tanto, desenvolvemos diversos instrumentos: as chamadas \u201cvisitas ad Limina\u201d dos bispos, que sempre existiram, agora s\u00e3o muito mais valorizadas, para que os bispos possam realmente falar com todas as inst\u00e2ncias da Santa S\u00e9 e tamb\u00e9m comigo. Eu falo pessoalmente com cada bispo. J\u00e1 tive a oportunidade de falar com quase todos os bispos da \u00c1frica e com muitos dos bispos da \u00c1sia. Agora, vir\u00e3o os bispos da Europa Central, da Alemanha, Su\u00ed\u00e7a e, nestes encontros, nos quais Centro e Periferia se encontram, num franco interc\u00e2mbio, cresce o correcto relacionamento rec\u00edproco, numa tens\u00e3o equilibrada. Temos ainda outros instrumentos, como o S\u00ednodo e o Consist\u00f3rio, que agora convocarei regularmente, e que gostaria de desenvolver, nos quais &#8211; ainda que sem uma precisa ordem do dia &#8211; podemos discutir juntos, sobre os problemas actuais, e buscar solu\u00e7\u00f5es. Sabemos, de um lado, que o Papa n\u00e3o \u00e9, de facto, um monarca absoluto, mas que deve personificar a totalidade, na escuta colectiva de Cristo. A consci\u00eancia da necessidade de uma inst\u00e2ncia unificadora, capaz de criar tamb\u00e9m a independ\u00eancia das for\u00e7as pol\u00edticas e garantir que as \u201ccristandades\u201d n\u00e3o se identifiquem por demais com as nacionalidades, essa consci\u00eancia, justamente, indica a necessidade de tal inst\u00e2ncia superior e mais ampla, que cria unidade na integra\u00e7\u00e3o din\u00e2mica do todo e, por outro lado, acolhe, aceita e promove a multiplicidade; essa consci\u00eancia \u00e9 muito forte. Creio, por isso, que, nesse sentido, haja realmente uma ades\u00e3o \u00edntima ao minist\u00e9rio petrino, no desejo de desenvolv\u00ea-lo ulteriormente, de modo que responda tanto aos des\u00edgnios do Senhor quando \u00e0s necessidades dos tempos. <\/p>\n<p>Igreja cat\u00f3lica e outras confiss\u00f5es crist\u00e3s<\/p>\n<p>Devemos, na busca da unidade, entrar em di\u00e1logo e estabelecer uma colabora\u00e7\u00e3o. A primeira coisa a fazer, nesta sociedade, \u00e9 preocuparmo-nos, todos juntos, em tornar claras as grandes orienta\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, encontr\u00e1-las n\u00f3s mesmos e traduzi-las, de modo a garantir a coes\u00e3o \u00e9tica da sociedade, sem a qual ela n\u00e3o pode realizar os fins da pol\u00edtica, que s\u00e3o a justi\u00e7a para todos, a boa conviv\u00eancia e a paz. Nesse sentido, muitas coisas j\u00e1 est\u00e3o a ser realizadas: diante dos grandes desafios morais, j\u00e1 nos encontramos, h\u00e1 tempos, verdadeiramente unidos, em virtude do nosso comum fundamento crist\u00e3o. Naturalmente, depois, trata-se de testemunhar Deus num mundo que tem dificuldades de encontr\u00e1-Lo, como j\u00e1 dissemos; trata-se de tornar vis\u00edvel o Deus com as fei\u00e7\u00f5es humanas de Jesus Cristo, oferecendo, assim, aos homens, o acesso \u00e0quelas fontes, sem as quais a moral se esteriliza e perde as suas refer\u00eancias. Trata-se tamb\u00e9m, de dar a alegria, porque n\u00e3o estamos isolados neste mundo. Somente assim, nasce a alegria diante da grandeza do homem, que n\u00e3o \u00e9 um produto mal acabado, da evolu\u00e7\u00e3o, mas a imagem de Deus. (&#8230;) Se os grupos particulares procurarem n\u00e3o viver a f\u00e9 com particularismo, mas sempre a partir de seus fundamentos mais profundos, ent\u00e3o, ainda que talvez n\u00e3o cheguemos t\u00e3o rapidamente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es externas de unidade, amadureceremos, todavia, rumo a uma unidade interior que, se Deus quiser, um dia levar\u00e1 tamb\u00e9m a formas externas de unidade.<\/p>\n<p>Fam\u00edlia, casamentos homossexuais e aborto<\/p>\n<p>O Cristianismo, o Catolicismo n\u00e3o \u00e9 um conjunto de proibi\u00e7\u00f5es, mas uma op\u00e7\u00e3o positiva. E \u00e9 muito importante que evidenciemos isso novamente, porque essa consci\u00eancia, hoje, desapareceu quase completamente. Tem-se ouvido falar tanto sobre o que n\u00e3o \u00e9 permitido, que agora \u00e9 preciso dizer: \u201cMas n\u00f3s temos uma ideia positiva a propor: o homem e a mulher foram feitos um para o outro e existe uma escala &#8211; sexualidade, eros e agape, que s\u00e3o as dimens\u00f5es do amor, e assim se forma, antes, o matrim\u00f3nio como encontro repleto de felicidade, entre o homem e a mulher, e depois, a fam\u00edlia, que garante a continuidade entre as gera\u00e7\u00f5es, onde se realiza a reconcilia\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es, e onde as culturas tamb\u00e9m se podem encontrar. Antes de tudo, portanto, \u00e9 importante colocar em relevo aquilo que queremos. Em segundo lugar, pode-se ver tamb\u00e9m, por que \u00e9 que certas coisas n\u00f3s n\u00e3o as queremos. \u00c9 preciso reconhecer que n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica o facto de que o homem e a mulher sejam feitos um para o outro, a fim de que a humanidade continue a viver: todas as culturas, no fundo, sabem disso. No que se refere ao aborto, ele n\u00e3o entra no sexto, mas no quinto mandamento: \u201cN\u00e3o matar!\u201d. E isso n\u00f3s devemos pressupor como \u00f3bvio, reafirmando sempre que a pessoa humana tem in\u00edcio no seio materno e permanece pessoa humana, at\u00e9 ao seu \u00faltimo suspiro. Por isso, deve ser sempre respeitada como pessoa humana.<\/p>\n<p>T\u00e9cnica e valores morais<\/p>\n<p>Eu creio que o verdadeiro problema da nossa situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 o desequil\u00edbrio entre o crescimento incrivelmente r\u00e1pido do nosso poder t\u00e9cnico e a nossa capacidade moral, que n\u00e3o cresce proporcionalmente. Por isso, a forma\u00e7\u00e3o da pessoa humana \u00e9 a verdadeira receita, eu diria \u201ca chave de tudo\u201d, e esse \u00e9 tamb\u00e9m o nosso caminho. Essa forma\u00e7\u00e3o tem &#8211; em resumo &#8211; duas dimens\u00f5es. Antes de mais, naturalmente, devemos aprender: adquirir o saber, a capacidade, o know-how, come se diz habitualmente; e \u00e9 preciso, ao mesmo tempo, a forma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Crist\u00e3os em minoria na Europa?<\/p>\n<p>Todos os bispos das outras partes do mundo dizem: \u201cN\u00f3s temos ainda necessidade da Europa, ainda que a Europa, agora, seja apenas uma parte de um todo que \u00e9 muito maior.\u201d N\u00f3s ainda temos uma responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o a eles. As nossas experi\u00eancias, a ci\u00eancia teol\u00f3gica aqui desenvolvida, toda a nossa experi\u00eancia lit\u00fargica, as nossas tradi\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m as experi\u00eancias ecum\u00e9nicas que acumulamos: tudo isso \u00e9 muito importante, tamb\u00e9m para os outros continentes. Por isso, \u00e9 preciso que n\u00f3s, hoje, n\u00e3o capitulemos, dizendo: \u201cEis o que somos &#8211; uma minoria; procuremos, ao menos, conservar este nosso pequeno n\u00famero!\u201d Devemos, ao inv\u00e9s, manter vivo o nosso dinamismo, instaurar rela\u00e7\u00f5es de interc\u00e2mbio, de maneira que, de l\u00e1, cheguem novas for\u00e7as para n\u00f3s. Hoje, h\u00e1 sacerdotes indianos e africanos na Europa e tamb\u00e9m no Canad\u00e1, onde muitos sacerdotes africanos trabalham; \u00e9 interessante! H\u00e1 este dar e receber rec\u00edproco. E ainda que, no futuro, venhamos a ser aqueles que recebem, mais do que d\u00e3o, deveremos sempre continuar capazes de dar e de desenvolver, em tal sentido, a coragem e o dinamismo necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>F\u00e9 num mundo secularizado<\/p>\n<p>\u00c9 importante que o nosso mundo laicista se d\u00ea conta de que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um impedimento, mas sim uma ponte para o di\u00e1logo com os outros mundos. N\u00e3o \u00e9 justo pensar que a cultura puramente racional, gra\u00e7as \u00e0 sua toler\u00e2ncia, tenha uma abordagem mais f\u00e1cil das outras religi\u00f5es. O que lhe falta, em grande parte, \u00e9 o \u201c\u00f3rg\u00e3o religioso\u201d, ou seja, o ponto de encontro a partir do qual e com o qual os outros se desejam relacionar. Por isso, devemos e podemos mostrar que, justamente pela nova interculturalidade em que vivemos, a pura racionalidade separada de Deus, n\u00e3o \u00e9 suficiente, mas \u00e9 necess\u00e1ria uma racionalidade mais ampla, que v\u00ea Deus em harmonia com a raz\u00e3o; devemos mostrar que a f\u00e9 crist\u00e3 que se desenvolveu na Europa \u00e9 tamb\u00e9m um meio para fazer confluir raz\u00e3o e cultura, e para mant\u00ea-las juntas, numa unidade que compreende tamb\u00e9m o agir. Nesse sentido, creio que temos uma grande tarefa, que \u00e9 a de mostrar que essa Palavra que possu\u00edmos, n\u00e3o pertence &#8211; se podemos assim dizer &#8211; aos entulhos in\u00fateis da hist\u00f3ria, mas \u00e9 necess\u00e1ria ainda hoje.<\/p>\n<p>Viagens do Papa<\/p>\n<p>Desde Jo\u00e3o XXIII, o p\u00eandulo se virou noutra direc\u00e7\u00e3o: foram os papas que come\u00e7aram a fazer visitas. Devo dizer que n\u00e3o me sinto em condi\u00e7\u00f5es de agendar muitas viagens longas, mas onde houver possibilidade de dirigir uma mensagem, onde tais viagens responderem a um verdadeiro desejo, ali quero ir, com a \u201cdosagem\u201d que me for poss\u00edvel. Algumas coisas j\u00e1 est\u00e3o previstas: no pr\u00f3ximo ano, no Brasil, haver\u00e1 o encontro do CELAM, o Conselho Episcopal Latino-Americano, e creio que, ali, a minha presen\u00e7a seja um factor importante, considerando, de um lado, os eventos dram\u00e1ticos que a Am\u00e9rica do Sul est\u00e1 vivendo; e, de outro lado, toda a for\u00e7a da esperan\u00e7a que, ao mesmo tempo, \u00e9 actuante naquela regi\u00e3o. Depois, gostaria de visitar a Terra Santa, e espero poder faz\u00ea-lo em tempo de paz.<\/p>\n<p>Mulheres e Igreja<\/p>\n<p>N\u00f3s consideramos que a nossa f\u00e9, a constitui\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio dos Ap\u00f3stolos, n\u00e3o nos permitem conferir a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal \u00e0s mulheres. Mas n\u00e3o se pode pensar que, na Igreja, a \u00fanica possibilidade de desempenhar um papel de relevo seja a de ser sacerdote. Na hist\u00f3ria da Igreja, h\u00e1 muitas tarefas e fun\u00e7\u00f5es. A come\u00e7ar pelas irm\u00e3s dos Padres da Igreja, para chegar \u00e0 Idade M\u00e9dia, quando grandes mulheres desempenharam um papel muito determinante, at\u00e9 chegar \u00e0 \u00e9poca moderna. Pensemos em Ildegard de Bingen, que protestava fortemente contra os bispos e o Papa; em Catarina de Sena e em Br\u00edgida da Su\u00e9cia. Assim, tamb\u00e9m no tempo moderno, as mulheres devem &#8211; e n\u00f3s com elas &#8211; procurar, novamente, o seu justo lugar. Hoje, elas est\u00e3o bem presentes, at\u00e9 mesmo nos Organismos da Santa S\u00e9. Mas h\u00e1 um problema jur\u00eddico: o da jurisdi\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o facto de que, segundo o Direito Can\u00f3nico, o poder de tomar decis\u00f5es juridicamente vinculadoras, estar ligado \u00e0 Ordem sacra. Desse ponto de vista, h\u00e1, portanto, alguns limites. Mas eu creio que as pr\u00f3prias mulheres, com o seu dinamismo e a sua for\u00e7a, com a sua preponder\u00e2ncia e com a sua \u201cfor\u00e7a espiritual\u201d, saber\u00e3o conquistar o seu espa\u00e7o. E n\u00f3s devemos colocar-nos na escuta de Deus, para n\u00e3o sermos n\u00f3s a opormo-nos a Ele, mas, pelo contr\u00e1rio, a alegrarmo-nos pelo facto de o elemento feminino alcan\u00e7ar, na Igreja, o lugar operativo que lhe cabe, a come\u00e7ar pela M\u00e3e de Deus e Maria Madalena. <\/p>\n<p>Mais selec\u00e7\u00e3o nas canoniza\u00e7\u00f5es e beatifica\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>No in\u00edcio, eu tamb\u00e9m tinha a ideia de que a grande quantidade de beatifica\u00e7\u00f5es quase nos esmagava, e que talvez houvesse necessidade de escolher um pouco mais: figuras que entrassem mais claramente na nossa consci\u00eancia. Nesse meio tempo, descentralizei as beatifica\u00e7\u00f5es, para tornar cada vez mais vis\u00edveis essas figuras, nos lugares espec\u00edficos aos quais pertencem. Talvez um santo da Guatemala interesse menos a n\u00f3s, na Alemanha, e vice-versa, um de Alt\u00f6tting n\u00e3o encontre tanto interesse em Los Angeles, e assim por diante. Nesse sentido, creio que essa descentraliza\u00e7\u00e3o, que corresponde tamb\u00e9m \u00e0 colegialidade do episcopado e \u00e0s suas estruturas colegiais, seja uma coisa oportuna, exactamente por isso. Os diversos pa\u00edses t\u00eam as suas pr\u00f3prias figuras, que ali podem desempenhar a sua efic\u00e1cia. Observei tamb\u00e9m que essas beatifica\u00e7\u00f5es nos diversos lugares tocam numerosas pessoas e que o povo comenta: \u201cFinalmente, este \u00e9 um de n\u00f3s!\u201d e recorre a ele e nele se inspira. O bem-aventurado pertence a eles, e ficamos contentes que ali haja muitos. E se, gradualmente, com o desenvolvimento da sociedade mundial, tamb\u00e9m n\u00f3s os conhecermos melhor, ser\u00e1 bonito. Mas, antes de tudo, \u00e9 importante que, tamb\u00e9m nesse campo, haja multiplicidade. Nesse sentido, \u00e9 importante que tamb\u00e9m n\u00f3s, na Alemanha, aprendamos a conhecer as nossas pr\u00f3prias figuras e sejamos orgulhosos delas. Paralelamente, existem as canoniza\u00e7\u00f5es das figuras maiores, que s\u00e3o de relevo para toda a Igreja. Eu creio que as Confer\u00eancias Episcopais deveriam escolher, deveriam ver quem \u00e9 apropriado a n\u00f3s, quem nos diz realmente, alguma coisa; e, depois, deveriam tornar mais vis\u00edveis essas figuras mais significativas, imprimindo-as na consci\u00eancia, por meio da catequese e da prega\u00e7\u00e3o; talvez se pudesse at\u00e9 mesmo apresent\u00e1-las com um filme.<\/p>\n<p>Humor<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou um homem ao qual venham \u00e0 mente, continuamente, piadas. Todavia, saber ver o aspecto divertido da vida e a sua dimens\u00e3o alegre, e n\u00e3o levar tudo tragicamente, \u00e9 muito importante, e diria que \u00e9 at\u00e9 necess\u00e1rio para o meu minist\u00e9rio. Um escritor j\u00e1 disse que os anjos podem voar, porque n\u00e3o levam as coisas t\u00e3o a s\u00e9rio. Talvez tamb\u00e9m n\u00f3s pud\u00e9ssemos voar um pouco mais, se n\u00e3o d\u00e9ssemos tanta import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Bento diferente de Ratzinger?<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 fui dividido diversas vezes: o professor do primeiro per\u00edodo e o do per\u00edodo intermedi\u00e1rio, o primeiro Cardeal e o seguinte. Agora, acrescenta-se outra disseca\u00e7\u00e3o. Naturalmente, as circunst\u00e2ncias e a situa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m os homens, influem, porque desempenham responsabilidades diversas. Mas &#8211; digamos &#8211; a minha personalidade fundamental e tamb\u00e9m a minha vis\u00e3o fundamental cresceram, mas, em tudo o que \u00e9 essencial, permanecem id\u00eanticas. Fico feliz pelo facto de, agora, serem percebidos tamb\u00e9m aspectos que antes n\u00e3o eram t\u00e3o notados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Agosto, Bento XVI concedeu uma entrevista a meios de comunica\u00e7\u00e3o alem\u00e3es e \u00e0 R\u00e1dio Vaticano. A poucos dias da visita \u00e0 Alemanha, o Correio do Vouga apresenta os principais assuntos abordados pelo Papa. O texto foi adaptado a partir de uma tradu\u00e7\u00e3o da R\u00e1dio Vaticano. 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