{"id":7856,"date":"2006-09-13T16:49:00","date_gmt":"2006-09-13T16:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7856"},"modified":"2006-09-13T16:49:00","modified_gmt":"2006-09-13T16:49:00","slug":"desfazer-a-mala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/desfazer-a-mala\/","title":{"rendered":"Desfazer a mala"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia <!--more--> Ir de f\u00e9rias \u00e9 uma ideia muito feliz. Sejam f\u00e9rias grandes, pequenas ou assim-assim, o que importa \u00e9 poder ir.<\/p>\n<p>Embora a partida esteja sempre associada a alguns gestos que s\u00f3 repetimos nestas ocasi\u00f5es, h\u00e1 um verdadeiramente simb\u00f3lico: fazer as malas.<\/p>\n<p>O momento em que abrimos uma mala vazia e come\u00e7amos a ench\u00ea-la de roupa, acess\u00f3rios e objectos pessoais \u00e9 fant\u00e1stico. <\/p>\n<p>Entre aquilo que sabemos que queremos levar e aquilo que apenas nos ocorre quando abrimos gavetas e arm\u00e1rios, multiplicam-se as possibilidades de escolha. Levar mais do que precisamos \u00e9 um cl\u00e1ssico eterno. P\u00f4r as malas no ch\u00e3o e sentarmo-nos vigorosamente em cima delas at\u00e9 conseguirmos fech\u00e1-las, apesar de estarem a abarrotar de roupa, \u00e9 outro filme muito conhecido.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o de levar coisas a mais \u00e9 universal, ali\u00e1s. N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m imune a este v\u00edcio. E, no entanto, todos reconhecemos as vantagens de um certo despojamento.<\/p>\n<p>Neste sentido, a partida para f\u00e9rias e o gesto de fazer as malas, escolhendo o que vai e o que fica, tamb\u00e9m podem ser usados como boleia para outra viagem: a do despojamento interior.Aproveitar este tempo de descanso para olhar para n\u00f3s e ver o que trazemos connosco parece oportuno e, at\u00e9, razoavelmente evidente, mas a realidade prova muitas vezes o contr\u00e1rio. Ir ao fundo das gavetas mais fundas, escancarar todos os arm\u00e1rios e desfazer esta esp\u00e9cie de mala interior, que carregamos todos os dias, pode revelar-se um exerc\u00edcio delicado e exaustivo, mas profundamente cat\u00e1rtico. Isto, claro, se o conseguirmos fazer sem defesas nem poses.<\/p>\n<p>O medo de desfazer e voltar a fazer a nossa mala interior tem a ver com a quantidade de coisas que temos c\u00e1 dentro. S\u00e3o tantas, t\u00e3o variadas e t\u00e3o ca\u00f3ticas, que \u00e9 dif\u00edcil perceber por onde come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Andamos quase sempre sobrecarregados de coisas (muitas delas muito contradit\u00f3rias); e, por isso mesmo, \u00e9 importante tomar consci\u00eancia daquilo que trazemos connosco. Como? Olhando com olhos de ver, n\u00e3o nos julgando e assumindo que n\u00e3o h\u00e1 nenhum canto de arm\u00e1rio ou fundo de gaveta que sejam intoc\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ou seja, resistindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de esconder isto ou aquilo com o argumento de que \u201cisto n\u00e3o porque j\u00e1 \u00e9 muito antigo e aquilo tamb\u00e9m n\u00e3o porque vem de fam\u00edlia\u201d. E quem diz estes argumentos, diz outros parecidos com estes, que servem apenas para distorcer o olhar perante a nossa realidade mais \u00edntima e profunda.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m disse que toda a viagem come\u00e7a em casa, no momento em que nos dispomos a partir. No momento em que fazemos as malas, talvez.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a viagem interior come\u00e7a no momento em que abrimos a mala. N\u00e3o para a fazer mas para a desfazer. Para ver o que temos guardado e o que precisamos de deitar fora.<\/p>\n<p>Criar esta predisposi\u00e7\u00e3o para o despojamento passa por querer muito arrumar a casa interior, por assim dizer, e por identificar aquilo que mais organiza ou desorganiza a nossa vida. Como s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ordenar a vida se ordenarmos primeiro os afectos, importa perceber que os problemas, os tesouros e as riquezas est\u00e3o menos nas ideias e mais nos sentimentos. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mais importante que a raz\u00e3o, portanto.<\/p>\n<p>O caos que temos c\u00e1 dentro tem a ver com impulsos, desejos, inquieta\u00e7\u00f5es, d\u00favidas, amores e desamores, que precisam de ser interpretados e organizados.<\/p>\n<p>Despojar a raz\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o \u00e9, por tudo isto, uma atitude exigente, mas extraordinariamente regeneradora. Revela abertura de esp\u00edrito e mostra que estamos sempre a tempo de renascer. De certa forma, p\u00f5e-nos a \u201czeros\u201d com a vida e isso \u00e9 muito bom. Seja \u00e0 partida ou \u00e0 chegada de f\u00e9rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 luz do dia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-7856","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7856"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7856\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}