{"id":7899,"date":"2006-09-21T16:45:00","date_gmt":"2006-09-21T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7899"},"modified":"2006-09-21T16:45:00","modified_gmt":"2006-09-21T16:45:00","slug":"bento-xvi-vitima-da-pressa-mediatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/bento-xvi-vitima-da-pressa-mediatica\/","title":{"rendered":"Bento XVI, v\u00edtima da pressa medi\u00e1tica?"},"content":{"rendered":"<p>A viagem de Bento XVI \u00e0 Baviera natal ficou marcada por afirma\u00e7\u00f5es de um discurso acad\u00e9mico que exaltaram alguns sectores de fi\u00e9is e dirigentes mu\u00e7ulmanos. Os efeitos da pol\u00e9mica s\u00f3 ser\u00e3o devidamente avaliados com o passar do tempo, mas imp\u00f5em-se alguns esclarecimentos.<\/p>\n<p>O discurso de Bento XVI<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o aos acad\u00e9micos da mesma institui\u00e7\u00e3o a que Joseph Ratzinger pertencera \u00e9 uma bela pe\u00e7a de filosofia e teologia a que n\u00e3o falta inclusive um momento de humor. Referiu o Papa que a harmonia das ci\u00eancias no ambiente universit\u00e1rio de Ratisbona n\u00e3o ficou afectada nem mesmo quando um professor afirmou que a universidade tinha duas faculdades dedicadas a algo que n\u00e3o existe: Deus.<\/p>\n<p>O fio condutor do discurso \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o. Mais concretamente: o erro (perigo!) que \u00e9 a f\u00e9 dispensar a raz\u00e3o; e a clara necessidade que a raz\u00e3o tem da f\u00e9.<\/p>\n<p>O Papa fala de tr\u00eas momentos sucessivos em que te\u00f3logos e fil\u00f3sofos tentam des-helenizar a f\u00e9. Por heleniza\u00e7\u00e3o entende-se o encontro da f\u00e9 hebraica com o pensamento filos\u00f3fico grego \u2013 digo hebraica e n\u00e3o b\u00edblica porque o Papa defende que a f\u00e9 neotestament\u00e1ria \u00e9 j\u00e1 fruto desse encontro. Des-helenizar \u00e9, ent\u00e3o, o processo contr\u00e1rio: separar a f\u00e9 da raz\u00e3o. O Papa nomeia tr\u00eas momentos: a Reforma protestante (consequ\u00eancia do fide\u00edsmo herdeiro de Duns Escoto e que tem um paralelo mu\u00e7ulmano em Ibn Hazan); a teologia liberal dos s\u00e9cs. XIX e XX; e os tempos actuais, de pluralismo cultural, ao afirmarem que a Igreja Primitiva n\u00e3o \u00e9 vinculativa para as outras culturas por se tratar ela pr\u00f3pria de uma incultura\u00e7\u00e3o do Novo Testamento \u2013 o que o Papa nega (este aspecto h\u00e1-de continuar a fazer correr muita tinta nas faculdades de Teologia).<\/p>\n<p>Quando a f\u00e9 e a raz\u00e3o se separam (Jo\u00e3o Paulo II disse na enc\u00edclica \u201cFides et Ratio\u201d que s\u00e3o as \u201cduas asas do esp\u00edrito humano\u201d; h\u00e1 quem diga que esse documento tem um dedo de Joseph Ratzinger) nada de bom h\u00e1 a esperar. A ci\u00eancia e a \u00e9tica caem no individualismo, no relativismo e no cepticismo (o Papa n\u00e3o usa aqui os termos) e tornam as culturas em que predominam incapazes de dialogar com outras culturas e tradu\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>Por seu turno, a f\u00e9, sem raz\u00e3o, fica louca. E tanto pode enveredar por pietismos e sentimentalismos como cair no desespero (o Papa n\u00e3o fala destas vias que a hist\u00f3ria abundantemente mostra) ou perder a \u00e9tica e usar a viol\u00eancia para se impor. \u00c9 aqui que entra o di\u00e1logo do imperador Manuel II Pale\u00f3logo (1340-1425) com o \u201cpersa culto\u201d, como poderiam entrar muitos outros exemplos.<\/p>\n<p>O discurso do Papa resume-se num duplo apelo: que a f\u00e9 obede\u00e7a \u00e0 verdade (\u201cLogos\u201d \u00e9 nome de Deus) como dimens\u00e3o constitutiva \u201cda pr\u00f3pria f\u00e9\u201d; e que a raz\u00e3o ponha de lado \u201ca auto-limita\u00e7\u00e3o do empiricamente verific\u00e1vel\u201d como crit\u00e9rio \u00fanico da verdade. Desse modo, poder\u00e3o ambas, f\u00e9 e raz\u00e3o, \u201cempreender um novo caminho\u201d. \u00c9, sem d\u00favida, um convite ao di\u00e1logo entre culturas e religi\u00f5es, mas \u00e9 ainda mais uma chamada de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o ocidental (cientistas, fil\u00f3sofos, pensadores&#8230;).<\/p>\n<p>V\u00edtima dos quinze segundos de telejornal?<\/p>\n<p>Pelo que ficou dito, parece claro que o discurso de Bento XVI merece ser lido e estudado, principalmente por quem tem como miss\u00e3o o ensino\/aprendizagem da Teologia ou o di\u00e1logo das culturas. Foi mais o discurso de um acad\u00e9mico que gostava de dar aulas do que o de um Pastor. Porqu\u00ea, ent\u00e3o, a pol\u00e9mica? N\u00e3o creio que tenha raz\u00e3o o que Fernando Madrinha escreve no Expresso (16 de Setembro): \u201cRatzinger \u00e9 um te\u00f3logo de ideias firmas e esclarecidas. Mas nem tudo o que pensa Ratzinger pode ser dito por Bento XVI. \u00c9 tamb\u00e9m por isso que um cardeal muda de nome quando chega a Papa. Nos dias de hoje, a infeliz cita\u00e7\u00e3o \u00e9 gasolina numa fogueira. E aquilo que o mundo menos precisa \u00e9 de um papa incendi\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Parecem-me mais correctas as explica\u00e7\u00f5es da ismaelita (mu\u00e7ul-mana) Faranaz Keshavjee, lembrando o problema comunicacional da nossa sociedade: \u201cLamento (&#8230;) que alguns jornalistas se percam no meio de palavras daquela profundidade, reflex\u00e3o e eloqu\u00eancia, e que movidos por esta moda medi\u00e1tica de \u2018Infotainment\u2019 (informa\u00e7\u00e3o que pretende entreter o espectador o ouvinte), procurem apenas extrair o que pode ser fonte de pol\u00e9mica e de espect\u00e1culo\u201d (P\u00fablico, 18 de Setembro). Na mesma linha escreveu o director do P\u00fablico: \u201cTudo isto [o discurso papal] n\u00e3o cabe nuns segundos de telejornal \u2013 a frase \u201cbrusca\u201d de Manuel II sobre Maom\u00e9 cabe. Por\u00e9m, se isso acontece devemos pedir ao Papa mais sound-bites [afirma\u00e7\u00f5es sonantes] ou exigir antes mecanismos de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o mais rigorosos\u201d?<\/p>\n<p>Com esta pol\u00e9mica podem ter-se erguido muros s\u00f3lidos. De certeza que tal n\u00e3o foi inten\u00e7\u00e3o do Papa. De ora em diante, mais Bento XVI se vai lembrar que \u00e9 o Sumo Pont\u00edfice, isto \u00e9, \u201cconstrutor de pontes\u201d.<\/p>\n<p>Filme dos acontecimentos<\/p>\n<p>12 de Setembro, ter\u00e7a-feira<\/p>\n<p>Bento XVI profere um discurso de seis p\u00e1ginas em Ratisbona (ou Regensburg), onde fora professor e vice-reitor. T\u00edtulo da comunica\u00e7\u00e3o: \u201cF\u00e9, Raz\u00e3o e Universidade. Mem\u00f3rias e reflex\u00f5es\u201d. A certa altura, Bento XVI refere o di\u00e1logo entre um imperador bizantino e um \u201cpersa culto\u201d. O imperador \u201ccoloca ao seu interlocutor, de um modo surpreendentemente abrupto para n\u00f3s, a quest\u00e3o central da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e viol\u00eancia\u201d, afirma o Papa. A frase mais pol\u00e9mica, dita pelo imperador Manuel II Pale\u00f3logo e citada pelo Papa (que repetiu \u201ceu cito\u201d), \u00e9 esta: \u201cMostra-me ent\u00e3o o que Maom\u00e9 trouxe de novo. N\u00e3o encontrar\u00e1s sen\u00e3o coisas demon\u00edacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a f\u00e9 que ele pregava\u201d. Umas linhas \u00e0 frente, o Papa conclui: \u201cA frase decisiva nesta argumenta\u00e7\u00e3o contra a convers\u00e3o pela viol\u00eancia \u00e9: \u00abAgir de modo irracional \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza de Deus\u00bb\u201d.<\/p>\n<p>13 de Setembro<\/p>\n<p>Os jornais d\u00e3o destaque \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da manh\u00e3 do dia 12, perante 250 mil pessoas, em que o Papa pediu que os crentes sejam capazes de \u201cprofessar com convic\u00e7\u00e3o o rosto humano do Deus\u201d em que acreditam, perante \u201cas patologias e doen\u00e7as mortais da religi\u00e3o\u201d, mas come\u00e7am a circular algumas afirma\u00e7\u00f5es do Papa aos acad\u00e9micos. Um site noticioso portugu\u00eas titula: \u201cPapa diz que guerra santa do isl\u00e3o \u00e9 contra Deus\u201d. A pr\u00f3pria Ag\u00eancia Ecclesia, interpretando, diz que Bento XVI deu \u201cuma li\u00e7\u00e3o sobre o Isl\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>14 de Setembro<\/p>\n<p>Surgem cr\u00edticas de l\u00edderes religiosos mu\u00e7ulmanos ao discurso de Ratisbona. A Santa S\u00e9, por interm\u00e9dio do Pe Lombardi, porta-voz, emite um comunicado que afirma: \u201cSem d\u00favida, n\u00e3o era inten\u00e7\u00e3o do santo Padre levar a cabo um estudo profundo sobre a Jihad e sobre o pensamento mu\u00e7ulmano nesse sentido, e muito menos ofender a sensibilidade dos crentes mu\u00e7ulmanos\u201d.<\/p>\n<p>15 de Setembro<\/p>\n<p>Protestos nas ruas de pa\u00edses como o Egipto, Paquist\u00e3o ou a \u00cdndia. A comunidade isl\u00e2mica de Lisboa, emite um comunicado em que afirma que \u201cn\u00e3o nos parece que fosse inten\u00e7\u00e3o expressa do papa atacar o Isl\u00e3o e os mu\u00e7ulmanos\u201d, mas considera que o Papa foi \u201cinfeliz\u201d na escolha do texto.<\/p>\n<p>16 de Setembro<\/p>\n<p>Alguns dirigentes mu\u00e7ulmanos exigem um \u201cpedido de desculpas pessoal\u201d do Papa. Grupos extremistas amea\u00e7am o Estado do Vaticano. V\u00e1rias igrejas crist\u00e3s s\u00e3o alvo de ataques nos territ\u00f3rios palestinianos e no Iraque. Em v\u00e1rios locais manifestantes queimam figuras representando o Papa.<\/p>\n<p>Declara\u00e7\u00e3o da Secretaria de Estado do Vaticano que lembra que \u201ca Igreja olha tamb\u00e9m com estima para os mu\u00e7ulmanos\u201d (afirma\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, NA 3) e que Bento XVI escreveu a prop\u00f3sito dos 20 anos do Encontro de Assis: \u201cAs manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia n\u00e3o podem atribuir-se \u00e0 religi\u00e3o enquanto tal, mas aos limites culturais com os que se vive e desenvolve no tempo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>17 de Setembro, Domingo<\/p>\n<p>Na Som\u00e1lia, Leonella Sgorbati, freira italiana das Mission\u00e1rias da Consola\u00e7\u00e3o, e seu guarda-costas s\u00e3o assassinados, haven-do quem relacione o facto com a presente crise. Na ora\u00e7\u00e3o do Angelus, Bento XVI mostra-se \u201cprofundamente desolado\u201d pelas reac\u00e7\u00f5es desencadeadas no mundo isl\u00e2mico e reafirma que o texto medieval n\u00e3o exprime de maneira nenhuma o seu pensamento. \u201cO meu discurso (&#8230;) na sua totalidade era e \u00e9 um convite ao di\u00e1logo franco e sincero\u201d, afirma.<\/p>\n<p>18 de Setembro<\/p>\n<p>Card. Tarcisio Bertone, secret\u00e1rio de Estado do Vaticano, anuncia o lan\u00e7amento de uma iniciativa diplom\u00e1tica para explicar as declara\u00e7\u00f5es de Bento XVI. Houve uma \u201cpesada manipula\u00e7\u00f5es que transformou as inten\u00e7\u00f5es do Santo Padre(&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Os bispos turcos re\u00fanem-se e concluem que a visita do Papa \u00e0 Turquia, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro, deve manter-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viagem de Bento XVI \u00e0 Baviera natal ficou marcada por afirma\u00e7\u00f5es de um discurso acad\u00e9mico que exaltaram alguns sectores de fi\u00e9is e dirigentes mu\u00e7ulmanos. Os efeitos da pol\u00e9mica s\u00f3 ser\u00e3o devidamente avaliados com o passar do tempo, mas imp\u00f5em-se alguns esclarecimentos. 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