{"id":7968,"date":"2006-09-28T16:49:00","date_gmt":"2006-09-28T16:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=7968"},"modified":"2006-09-28T16:49:00","modified_gmt":"2006-09-28T16:49:00","slug":"o-papa-falou-o-mundo-reagiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-papa-falou-o-mundo-reagiu\/","title":{"rendered":"O Papa falou, o mundo reagiu"},"content":{"rendered":"<p>Nunca um texto papal foi t\u00e3o comentado como a aula de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no dia 12 de Setembro. Em italiano, alem\u00e3o e ingl\u00eas, o texto encontra-se na p\u00e1gina do Vaticano na Internet (www.vatican.va). O jornal \u201cCourier Internacional\u201d da semana passada publicou-o em portugu\u00eas, tal como a Ag\u00eancia Ecclesia (www. agencia.ecclesia.pt). O que o Correio do Vouga publica agora nesta p\u00e1gina \u00e9 um conjunto de cita\u00e7\u00f5es recolhidas dos principais opinadores portugueses.<\/p>\n<p>Bento XVI pode ter deitado uma acha para a fogueira da intoler\u00e2ncia, mas usufruiu de uma liberdade, que nem sempre o catolicismo respeitou. Critique-se a falta de sensibilidade. Elogie-se o inalien\u00e1vel direito ao exerc\u00edcio da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Teixeira<\/p>\n<p>Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 16-09-06<\/p>\n<p>O Papa j\u00e1 lamentou o equ\u00edvoco, mas n\u00e3o pediu desculpa. N\u00e3o podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignor\u00e2ncia, nem pelo teor geral da confer\u00eancia de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel da raz\u00e3o e que agir irracionalmente \u201ccontraria\u201d a natureza de Deus. N\u00e3o vale a pena entrar nas complexidades do as-sunto. Basta lembrar que, desde o princ\u00edpio (desde Or\u00edgenes, por exemplo), se construiu sobre a f\u00e9 crist\u00e3 um dos mais sublimes monumentos \u00e0 raz\u00e3o humana e que o Ocidente, apesar da \u201cEuropa\u201d, n\u00e3o existiria sem ela. A f\u00e9 mu\u00e7ulmana n\u00e3o produziu nada de remotamente compar\u00e1vel e, durante quinze s\u00e9culos, sustentou uma civiliza\u00e7\u00e3o frustre e parada. A confer\u00eancia de Ratisbona reafirmou a ess\u00eancia do cristianismo. Se o Isl\u00e3o se ofendeu, pior para ele.<\/p>\n<p>Vasco Pulido Valente<\/p>\n<p>P\u00fablico, 17-09-06<\/p>\n<p>Os mu\u00e7ulmanos que reagem de formas (&#8230;) tristes e rid\u00edculas reagem de forma invariavelmente ignorante, no seu obscurantismo ofuscante e aniquilador da raz\u00e3o, criando, em \u00faltima inst\u00e2ncia, obst\u00e1culos \u00e0 sua pr\u00f3pria f\u00e9. (&#8230;) O que n\u00e3o esperava, todavia, era que o l\u00edder de uma religi\u00e3o seguida por milh\u00f5es de crentes recorresse a um exemplo da hist\u00f3ria, ignorando o pluralismo e diversidade da realidade como s\u00e3o as v\u00e1rias sociedades mu\u00e7ulmanas.<\/p>\n<p>Faranaz Keshavjee<\/p>\n<p>P\u00fablico, 18-09-06<\/p>\n<p>Bento XVI n\u00e3o \u00e9 Jo\u00e3o Paulo II. Mas n\u00e3o poderia ignorar o destino mais do que prov\u00e1vel das suas palavras, fosse qual fosse o contexto em que as pronunciou. \u00c9, pois, leg\u00edtimo perguntar se este Papa quer redefinir os termos do di\u00e1logo com o Isl\u00e3o estabelecidos pelo seu antecessor. E isso \u00e9 tanto mais importante quanto a rela\u00e7\u00e3o entre cristianismo e islamismo pode ser para o seu pontificado o que foi o confronto ideol\u00f3gico entre democracia e comunismo para o do seu antecessor.<\/p>\n<p>Teresa de Sousa<\/p>\n<p>P\u00fablico, 19-09-06<\/p>\n<p>Joseph Ratzinger n\u00e3o \u00e9 nem uma estrela de cinema, nem um director de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. O seu tempo \u00e9 pr\u00f3prio, e isso pode trazer problemas aos que esperam espect\u00e1culo. Mas acus\u00e1-lo de come\u00e7ar uma cruzada \u00e9 ler ao contr\u00e1rio o que foi dito.<\/p>\n<p>Nuno Rogeiro<\/p>\n<p>Correio da Manh\u00e3, 19-09-06<\/p>\n<p>A confer\u00eancia do Papa \u00e9 um dos textos mais tolerantes que algum papa fez ate hoje, e talvez tenha sido por isso mesmo que foi atacada. Eu penso que h\u00e1, de facto, raz\u00f5es para os fundamentalistas atacarem com viol\u00eancia o documento, exactamente pela sua subst\u00e2ncia e n\u00e3o pela cita\u00e7\u00e3o fora do contexto. (&#8230;) Porque \u00e9 que o Papa diz isto tudo? Est\u00e1 l\u00e1 no texto, em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fus\u00e3o plena da tradi\u00e7\u00e3o grega do logos com o cristianismo, o Papa est\u00e1 a enunciar a tradi\u00e7\u00e3o cultural da Europa, da hist\u00f3ria tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Est\u00e1 a falar de religi\u00e3o e de pol\u00edtica, de cultura e de pensamento, da Uni\u00e3o Europeia e da Turquia, do cristianismo e do isl\u00e3o. Isto sim \u00e9 que devia ser discutido, isto \u00e9 que o Papa esperava que fosse discutido. E isto \u00e9 que interpela o isl\u00e3o, se ele se deixar interpelar.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pacheco Pereira<\/p>\n<p>P\u00fablico, 21-09-06<\/p>\n<p>A vida p\u00fablica hoje \u00e9 mais dominada pela emo\u00e7\u00e3o do que pela raz\u00e3o. A empatia medi\u00e1tica de Jo\u00e3o Paulo II contrasta profundamente com o distanciamento frio e cerebral do seu sucessor. Onde o papa polaco fazia de cada homilia um acto de comunh\u00e3o afectiva com os crentes, Bento XVI profere uma li\u00e7\u00e3o assente em princ\u00edpios e valores abstractamente explanados, deixando aos crentes a responsabilidade de retirarem as conclus\u00f5es quanto \u00e0 maneira de viverem a sua f\u00e9 no quotidiano. (&#8230;) Mas mais do que o relato das palavras do Papa feito pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais, o que fez a diferen\u00e7a desta \u201ccrise\u201d foi a realidade comunicacional do pr\u00f3prio mundo mu\u00e7ulmano, designadamente as cadeias de televis\u00e3o \u00e1rabes e o seu impacto junto das respectivas popula\u00e7\u00f5es. A natureza transnacional destes meios de comunica\u00e7\u00e3o produziu, nos anos mais recentes um fen\u00f3meno novo, que importa n\u00e3o menosprezar: \u00e9 pela via comunicacional que se est\u00e1 a promover a unifica\u00e7\u00e3o do mundo mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Vitorino<\/p>\n<p>Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 22-09-06<\/p>\n<p>Inadvertidamente ou n\u00e3o, o Papa n\u00e3o disse nada sobre o Isl\u00e3o que nenhum ocidental n\u00e3o pense. (&#8230;) N\u00e3o, o Papa n\u00e3o foi mal interpretado. Infelizmente para todos n\u00f3s, ele foi demasiadamente bem interpretado pelos \u201cullemas\u201d isl\u00e2micos. Era isso mesmo que eles queriam ouvir para legitimarem a sua \u201cjihad\u201d, e agarrarem com ambas as m\u00e3os a inesperada oferta papal: em lugar de um obscuro cartunista dinamarqu\u00eas, agora t\u00eam o pr\u00f3prio chefe da cristandade a desafi\u00e1-los.<\/p>\n<p>Miguel Sousa Tavares<\/p>\n<p>Expresso, 23-09-06<\/p>\n<p>O papa soube deitar \u00e1gua fria no fanatismo isl\u00e2mico e no racismo que domina a nova intelectualidade ocidental. Digo-o com gosto.<\/p>\n<p>Daniel Oliveira<\/p>\n<p>Expresso, 23-09-06<\/p>\n<p>Atendendo \u00e0 crispa\u00e7\u00e3o actual entre mu\u00e7ulmanos e ocidentais, mais por motivos pol\u00edticos do que religiosos, a cita\u00e7\u00e3o que o Papa fez do imperador bizantino sobre Maom\u00e9 n\u00e3o foi um acidente acad\u00e9mico perigoso para a ideologia mu\u00e7ulmana dos nossos dias? (&#8230;) Em meu entender, foi infeliz no momento crucial que vivemos. [Os mu\u00e7ulmanos] est\u00e3o a responder de acordo com a cr\u00edtica do imperador bizantino.<\/p>\n<p>Joaquim Carreira das Neves<\/p>\n<p>Expresso, 23-09-06<\/p>\n<p>Infelizmente, de modo geral, o isl\u00e3o ainda n\u00e3o assumiu conquistas fundamentais da modernidade, sem as quais n\u00e3o haver\u00e1 paz entre as religi\u00f5es e no mundo: a distin\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica e a leitura hist\u00f3rico-cr\u00edtica do Alcor\u00e3o.<\/p>\n<p>Anselmo Borges<\/p>\n<p>Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 24-09-06<\/p>\n<p>Ratzinger fez um discurso sobre f\u00e9 e raz\u00e3o que, obviamente, n\u00e3o foi compreendido no Ocidente, porque h\u00e1 cada vez menos f\u00e9, no isl\u00e3o porque h\u00e1 cada vez menos raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Paulo Portas<\/p>\n<p>Sol, 23-09-06<\/p>\n<p>Afinal, que pretendia o Prof. Ratzinger com uma transcri\u00e7\u00e3o claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e m\u00e1s rela\u00e7\u00f5es entre F\u00e9, Raz\u00e3o e Viol\u00eancia, n\u00e3o precisava de sair do campo judaico-crist\u00e3o. A Igreja acolheu a B\u00edblia hebraica que l\u00ea, medita e proclama na sua liturgia, e na qual n\u00e3o existem s\u00f3 maravilhas. H\u00e1 p\u00e1ginas abomin\u00e1veis \u2013 que alguns julgam essenciais \u2013 de \u201cguerra santa\u201d. Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vig\u00edlia Pascal, em que \u00e9 celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno \u00e9 o seu amor! (&#8230;)<\/p>\n<p>Ter\u00e1 o Prof. Ratzinger esquecido que as insinua\u00e7\u00f5es de uma cita\u00e7\u00e3o ofensiva n\u00e3o iriam ser exploradas como se retratassem a atitude de Bento XVI e a orienta\u00e7\u00e3o que quer dar ao seu pontificado? <\/p>\n<p>N\u00e3o creio que o Papa pretenda liquidar o di\u00e1logo inter-religioso. A sua preocupa\u00e7\u00e3o de sempre tem sido mostrar a originalidade do Cristianismo e, dentro desta, a do Catolicismo. Louvado seja! Mas, para isso, n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito desfigurar os outros percursos religiosos. Na Universidade de Ratisbona, o Prof. Ratzinger talvez n\u00e3o tenha sido suficientemente autocr\u00edtico para vencer essa tenta\u00e7\u00e3o. Agora, tem de ser a vasta diplomacia vaticana a colar os estilha\u00e7os de uma bomba verbal. Como Deus n\u00e3o \u00e9 perverso, acabar\u00e1 \u2013 dizem os portugueses \u2013 por escrever direito por linhas tortas.<\/p>\n<p>Bento Domingues<\/p>\n<p>P\u00fablico, 24-09-06<\/p>\n<p>O Papa est\u00e1 a ganhar o desafio. \u00c9 a pr\u00f3pria reac\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica que fortalece a sua argumenta\u00e7\u00e3o. O erro dos ulemas mu\u00e7ulmanos ou a incendi\u00e1ria campanha da Al Jazira assentam num erro de avalia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos perante uma r\u00e9plica dos cartoons dinamarqueses, insulto grosseiro a uma religi\u00e3o. Bento XVI interpelou intelectualmente o Isl\u00e3o. Em lugar de uma resposta teol\u00f3gica ou hist\u00f3rica dos ulemas, houve uma explos\u00e3o de viol\u00eancia (&#8230;).<\/p>\n<p>Jorge Almeida Fernandes<\/p>\n<p>P\u00fablico, 24-09-06<\/p>\n<p>\u00c9 muito animador verificar que muitas vozes de n\u00e3o crentes exprimiram nesta ocasi\u00e3o a sua converg\u00eancia filos\u00f3fica com as teses defendidas pelo Papa, que \u00e9 atacado por sectores integristas do Isl\u00e3o. Creio que \u00e9 preciso fazer suceder a este epis\u00f3dio a defesa e a promo\u00e7\u00e3o de um mais intenso e respeitoso di\u00e1logo universal entre a raz\u00e3o e a f\u00e9, entre a laicidade e as religi\u00f5es. Se lan\u00e7ado em reciprocidade com o Isl\u00e3o, esse di\u00e1logo poderia, e em sinergia com o di\u00e1logo inter-religioso, que j\u00e1 se iniciou, abrir uma nova \u00e9poca na vida interior do pr\u00f3prio Isl\u00e3o e do \u201cocidente\u201d, e nas suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. O que seria verdadeiramente hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Pinto<\/p>\n<p>P\u00fablico, 25-09-06<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca um texto papal foi t\u00e3o comentado como a aula de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no dia 12 de Setembro. Em italiano, alem\u00e3o e ingl\u00eas, o texto encontra-se na p\u00e1gina do Vaticano na Internet (www.vatican.va). O jornal \u201cCourier Internacional\u201d da semana passada publicou-o em portugu\u00eas, tal como a Ag\u00eancia Ecclesia (www. agencia.ecclesia.pt). 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