{"id":8005,"date":"2006-10-04T17:38:00","date_gmt":"2006-10-04T17:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8005"},"modified":"2006-10-04T17:38:00","modified_gmt":"2006-10-04T17:38:00","slug":"as-palavras-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/as-palavras-do-papa\/","title":{"rendered":"As palavras do Papa"},"content":{"rendered":"<p>1. Hoje, mesmo entre os cat\u00f3licos, discute-se o que o Papa diz e escreve como se se tratasse de um mero chefe pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atinge, na minha opini\u00e3o, foros inimagin\u00e1veis at\u00e9 h\u00e1 pouco, quando se ouvem ou l\u00eaem interven\u00e7\u00f5es de eclesi\u00e1sticos, obcecados pela linguagem politicamente correcta e religiosamente dissolvente.<\/p>\n<p>Alguns dos servos da Igreja deixam-se mesmo enredar em ju\u00edzos de oportunidade do instante, deixam-se embalar pela linguagem religiosamente correcta quase imposta por quem n\u00e3o cr\u00ea!<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, \u00e9 tanto assim que os meios de comunica\u00e7\u00e3o social generalistas, a come\u00e7ar pelas televis\u00f5es, sempre \u00e1vidos da discord\u00e2ncia ou cr\u00edtica sobre o Vaticano, convidam sempre os mesmos interlocutores, como se n\u00e3o houvesse outras vozes.<\/p>\n<p>Foi precisamente o que aconteceu agora com o discurso de Bento XVI numa Universidade alem\u00e3, a prop\u00f3sito da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Cheguei mesmo a ouvir, no canal p\u00fablico de televis\u00e3o, o entrevistado eclesi\u00e1stico dizer que n\u00e3o nos devemos sempre \u201cfiar\u201d (esta foi a palavra) no que o Papa diz, com o enternecimento n\u00e3o disfar\u00e7ado do pivot de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Com \u201camigos\u201d destes, n\u00e3o precisamos de ateus, agn\u00f3sticos ou crentes de outras confiss\u00f5es religiosas para atacar os fundamentos da doutrina ou reduzir documentos pontif\u00edcios a cartilhas de circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tenho pena de n\u00e3o ouvir, salvo excep\u00e7\u00f5es a que os media pouco ligam, o Episcopado portugu\u00eas explicar aos fi\u00e9is o que o Papa disse, o entorno em que o fez, quando nos s\u00e3o agressivamente atirados excertos descontextualizados e mal explicados.<\/p>\n<p>2. A Igreja n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es nem uma express\u00e3o mais ou menos mec\u00e2nica e alienante de \u201cmercado das almas\u201d. \u00c9, sim, uma assembleia universal em nome da identidade baptismal e da comunh\u00e3o em Cristo. Logo, sustentada na F\u00e9, na Doutrina, em dogmas e em valores.<\/p>\n<p>Por isso, e na minha opini\u00e3o, a Igreja \u2013 \u00e9 certo \u2013 vivendo no Mundo e para o Mundo, n\u00e3o se conjunturaliza ou se guia por inqu\u00e9ritos de opini\u00e3o. Tem o seu ritmo de \u201caggiornamento\u201d, para a constru\u00e7\u00e3o do homem do futuro numa perspectiva terrena e salv\u00edfica. <\/p>\n<p>Se tivesse seguido a maioria dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, a opini\u00e3o publicada, muitos ateus e agn\u00f3sticos e at\u00e9 algumas vozes da Igreja de f\u00e1cil acesso aos media, o saudoso Papa Jo\u00e3o Paulo II deveria ter resignado. Gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o seguiu e ficou claro por que n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>Se tivesse seguido a maioria dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, a opini\u00e3o publicada, muitos ateus e agn\u00f3sticos e at\u00e9 algumas vozes da Igreja de f\u00e1cil acesso aos media, o Cardeal Ratzinger jamais teria sido eleito Santo Padre. Gra\u00e7as a Deus, o Conclave escolheu-o depressa e consensualmente.<\/p>\n<p>No mercado opinativo, sempre dado a simplifica\u00e7\u00f5es estereoti-padas, que, muitas vezes, escondem uma enorme ignor\u00e2ncia, a \u201cetiqueta\u201d para Bento XVI tomou foros de senten\u00e7a passada em julgado: o Papa \u00e9, entre outras coisas, um conservador!<\/p>\n<p>E diz-se conservador n\u00e3o como um qualificativo normal, mas quase ou mesmo com um tom cr\u00edtico, se n\u00e3o mesmo condenat\u00f3rio ou abjurat\u00f3rio. Sim, porque dizer-se que algu\u00e9m na Igreja ou fora dela \u00e9 liberal ou progressista \u00e9 um elogio ou um reconhecimento laudat\u00f3rio, mas chamar-se conservador \u00e9 um an\u00e1tema, uma forma de lepra social.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 sempre necessidade de reforma num mundo em muta\u00e7\u00e3o. Mas que esta n\u00e3o consista em \u201cdeitar fora o seu pr\u00f3prio lastro\u201d, \u201cem diluir, adaptar, aligeirar a F\u00e9, mas aprofund\u00e1-la\u201d, para citar o pr\u00f3prio Papa Bento XVI no not\u00e1vel livro \u201cO Sal da Terra\u201d.<\/p>\n<p>Sobretudo na Europa, obesa nos v\u00edcios e fr\u00e1gil na espiritualidade, o novo Papa pode vir a ter um contributo decisivo na luta contra a cultura da indiferen\u00e7a, que larvarmente vai invadindo o velho continente. Se h\u00e1 peda\u00e7o do Mundo que necessite de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o e de um neo-missionarismo, \u00e9 a Europa, onde para citar, de novo, Ratzinger \u201c muitas vezes o homem n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura da sua pr\u00f3pria intelig\u00eancia\u201d, \u201conde n\u00e3o crer \u00e9 mais f\u00e1cil do que crer\u201d e \u201conde temos de voltar a aprender a acreditar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Hoje, mesmo entre os cat\u00f3licos, discute-se o que o Papa diz e escreve como se se tratasse de um mero chefe pol\u00edtico. A situa\u00e7\u00e3o atinge, na minha opini\u00e3o, foros inimagin\u00e1veis at\u00e9 h\u00e1 pouco, quando se ouvem ou l\u00eaem interven\u00e7\u00f5es de eclesi\u00e1sticos, obcecados pela linguagem politicamente correcta e religiosamente dissolvente. 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