{"id":8065,"date":"2006-10-12T10:20:00","date_gmt":"2006-10-12T10:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8065"},"modified":"2006-10-12T10:20:00","modified_gmt":"2006-10-12T10:20:00","slug":"o-apagar-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-apagar-da-memoria\/","title":{"rendered":"O apagar da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria, porque nela se guarda o reposit\u00f3rio da hist\u00f3ria vivida, com \u00eaxitos e fracassos, fidelidade e desvios, \u00e9 uma faculdade indispens\u00e1vel e do maior interesse, em rela\u00e7\u00e3o ao presente e futuro das pessoas e da sociedade. Os que, a pretexto de serem doutos e actuais, a baniram ou dispensaram no processo educativo ou mesmo no seu dia a dia, poder\u00e3o ver o malogro em que ca\u00edram.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o de Abril, para al\u00e9m do que trouxe de bem, escreveu, tamb\u00e9m, pela ac\u00e7\u00e3o imediata e impensada de alguns dos seus mentores e executores, uma p\u00e1gina triste e lament\u00e1vel, ao apagar a mem\u00f3ria de s\u00e9culos de hist\u00f3ria. Numa euforia emocional, queimaram-se livros e documentos, apagaram-se sinais, implementaram-se projectos, exorcizaram-se factos. Assim se empobreceram os mais novos na sua forma\u00e7\u00e3o e aos mais velhos se retiraram importantes refer\u00eancias. Recordo, como nos fins de 1975, numa escola prim\u00e1ria que pude visitar na zona de Alcoba\u00e7a, ao falar \u00e0s crian\u00e7as, por qualquer raz\u00e3o de momento, da import\u00e2ncia da hist\u00f3ria, a professora me interrompeu, com a autoridade de mestra sabedora, para dizer que isso de estudar hist\u00f3ria era uma perda de tempo. Agora s\u00f3 se falava, dizia ela, de coisas passadas h\u00e1 mais tempo, se houvesse na regi\u00e3o algum monumento famoso que o justificasse. Se n\u00e3o houvesse, n\u00e3o fazia falta e era perder tempo. Tal qual assim. Menos mal que alunos presentes viviam na zona de um grande monumento. Pena ser um mosteiro de frades, mas era o que havia\u2026<\/p>\n<p>Vejo agora, com interesse, que nasceu uma associa\u00e7\u00e3o com nomes sonantes, empenhada em que n\u00e3o se apague a mem\u00f3ria. Mas qual? A do fascismo salazarista, com todos os horrores das pris\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es, pides, tarrafais e caxias\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que as gera\u00e7\u00f5es jovens, de hoje e de amanh\u00e3, saibam o que durante quarenta anos de trevas se passou em Portugal, para se prevenirem de desvios futuros.<\/p>\n<p>Tudo bem. Mas Portugal n\u00e3o come\u00e7ou como na\u00e7\u00e3o, nem como pa\u00eds, na d\u00e9cada de trinta do s\u00e9culo XX, nem em Abril de 1974. Parece, por\u00e9m, n\u00e3o haver igual solicitude para defender a mem\u00f3ria de uma hist\u00f3ria nacional, longa de s\u00e9culos, com grandes portugueses como protagonistas e em que aconteceram muitas coisas boas e outras menos boas, que \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mestra da vida s\u00f3 quando nos traz factos do nosso agrado ou colados a uma ideologia que nos \u00e9 querida e simp\u00e1tica. Hist\u00f3ria \u00e9 hist\u00f3ria; e h\u00e1 que saber l\u00ea-la sem preconceitos, para que nos possa ensinar e transmitir n\u00e3o apenas cultura, mas tamb\u00e9m valores e sentido para a vida.<\/p>\n<p>Ora, v\u00ea-se um apagamento programado de valores e uma ignor\u00e2ncia crassa de pessoas e de acontecimentos que nos empobrecem cada vez mais. Assiste-se \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es, como a fam\u00edlia, que constitu\u00edram e constituem a fibra resistente do tecido social e humano. Assistimos ao esvaziamento humano e relacional da escola, espa\u00e7o e tempo indispens\u00e1veis como alfobre das gera\u00e7\u00f5es que deram alma ao pa\u00eds. Ridiculariza-se o conceito de P\u00e1tria, destruindo la\u00e7os de esperan\u00e7a e de compromisso social. Faz-se contraponto desafinado \u00e0 ac\u00e7\u00e3o secular da Igreja, que ainda ningu\u00e9m igualou na sua di\u00e1ria e decisiva miss\u00e3o humanizadora e espiritual.<\/p>\n<p>Salvo melhor e mais justificada opini\u00e3o, tudo isto comporta uma mem\u00f3ria que n\u00e3o se pode apagar e \u00e9 preciso avivar, para que a comunidade tenha alma e alargue os horizontes do saber e do viver. <\/p>\n<p>O apagamento da mem\u00f3ria, tal como a mem\u00f3ria curta, empobrece sempre. Normalmente, andam atrelados a interesses que denunciam mais teimosia que sabedoria, e s\u00f3 persistem mais tempo se o vento da hist\u00f3ria sopra a favor. Mas, at\u00e9 o vento muda\u2026 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria, porque nela se guarda o reposit\u00f3rio da hist\u00f3ria vivida, com \u00eaxitos e fracassos, fidelidade e desvios, \u00e9 uma faculdade indispens\u00e1vel e do maior interesse, em rela\u00e7\u00e3o ao presente e futuro das pessoas e da sociedade. 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