{"id":8232,"date":"2006-11-02T16:57:00","date_gmt":"2006-11-02T16:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8232"},"modified":"2006-11-02T16:57:00","modified_gmt":"2006-11-02T16:57:00","slug":"nao-estamos-vazios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nao-estamos-vazios\/","title":{"rendered":"N\u00e3o estamos vazios!"},"content":{"rendered":"<p>I Centen\u00e1rio da morte da B. Isabel da Trindade (1906-2006) <!--more--> T\u00eam raz\u00e3o os que invectivam os centen\u00e1rios; mas alguma coisa h\u00e3o-de ter os que, morrendo, n\u00e3o morrem de todo e lentamente nos v\u00e3o aparecendo subindo os outeiros da vida. N\u00e3o ser\u00e1 certamente por eles, mas por n\u00f3s, que os vamos descendo.<\/p>\n<p>Narram as cr\u00f3nicas do Carmelo de Dijon que, quando o ilustre cardeal Mercier, arcebispo de Malines, visitou aquele Carmelo, ao passar pela sala capitular, lhe mostraram um qua-dro da Bem-aventurada Isabel da Trindade. <\/p>\n<p>\u2014 Quanto tempo viveu ela no Carmelo?, perguntou o prelado.<\/p>\n<p>\u2014 Cinco anos, Emin\u00eancia!, respondeu a prioresa.<\/p>\n<p>Sorrindo, o cardeal comentou: Aqui fazem-se santas muito rapidamente!<\/p>\n<p>De facto, assim \u00e9: S. Teresa Margarida do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (1770, 23 anos); S. Teresinha (1897, 24 anos); Isabel da Trindade (1906, 26 anos); S. Teresa de los Andes (1920, 20 anos). Estas entre v\u00e1rias outras e outros Carmelitas morreram jovens e com pouco tempo de vida claustral. Aqui, na terra f\u00e9rtil do Carmelo, a santidade desabrocha sadia, ousada e tempor\u00e3.<\/p>\n<p>Isabel Catez nasceu a 18 de Julho de 1880, em Bourges, Fran\u00e7a. Nasceu num campo militar e talvez os ares marciais, cheirando a p\u00f3lvora e empedernidos de ordens e ins\u00edgnias, tenham confirmado o seu temperamento turbulento, irasc\u00edvel e violento. Mas como ser amiga do pac\u00edfico Jesus com um temperamento t\u00e3o assim sem jeito? Por isso se imp\u00f4s a si mesma um combate: vencer-se. Ou derrotar-se.<\/p>\n<p>Viveu despreocupadamente a juventude, como uma jovem da classe m\u00e9dia do seu tempo. Era excelente pianista e de futuro muito prometedor. Gostava da m\u00fasica e das palmas, dos bailes e dos festivais, dos pr\u00e9mios e do sedutor reconhecimento social. Era uma apaixonada da moda, dos ser\u00f5es musicais, do mar e das caminhadas pelos montes. E tamb\u00e9m dos doentes e dos pobres, da catequese, das crian\u00e7as e da ora\u00e7\u00e3o. Gosta loucamente de Jesus.<\/p>\n<p>Aos 21 anos, entra no Carmelo de Dijon vencida que foi a \u00faltima oposi\u00e7\u00e3o: a aparentemente irredut\u00edvel autoridade de sua m\u00e3e. Viveu no Carmelo apenas cinco anos. Mas havia muitos mais que era Carmelita de alma e cora\u00e7\u00e3o. Ali, no Carmelo, naquela vida t\u00e3o ao contr\u00e1rio da da juventude, viveu profundamente feliz: dedicou-se \u00e0 ora\u00e7\u00e3o rodeada pela sobriedade, pelo frio e pelo nada, pela pobreza e pelas suas irm\u00e3s Carmelitas, sem o seu piano e sem o brilho dos vestidos lindos.<\/p>\n<p>No decurso do seu crescimento espiritual intui que deve chamar-se \u00abLouvor da Gl\u00f3ria\u00bb de Deus, pois \u00abEle tanto nos amou\u00bb! Intuiu chamar-se e intuiu viver.<\/p>\n<p>Conhecedora de que, no mundo, isto \u00e9, na vida da fam\u00edlia e dos neg\u00f3cios da sociedade, n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil viver em perman\u00eancia o louvor da gl\u00f3ria, escreve com alguma frequ\u00eancia a alguns leigos, \u00e0 m\u00e3e, irm\u00e3 e amigas, a quem confia a tarefa de, nas suas ocupadas e agitadas vidas, amar o amor, pagar o amor com o amor, porque o amor atrai amor. Com todos, sobretudo os leigos, partilha o seu segredo: todos somos amados, todos somos habitados pela presen\u00e7a de Deus. Deus gosta de habitar as humildes cabanas das nossas vidas.<\/p>\n<p>Dois anos antes de morrer, comp\u00f4s a sua conhecida ora\u00e7\u00e3o: \u00d3 Trindade a quem adoro!, um dos cumes espirituais do s\u00e9culo XX. Segundo alguns \u00e9 um cume talvez equiparado a outros, mas jamais ultrapassado.<\/p>\n<p>Enferma da doen\u00e7a de Addison, \u00e0 \u00e9poca incur\u00e1vel, sofre horrivelmente durante nove meses, como que a preparar o seu nascimento para a vida que tem por porta a morte. Lentamente, as for\u00e7as abandonavam-na e ela sente-se entrar nos \u00e1trios da vida que n\u00e3o morre e onde se \u00e9 \u2014 onde cada um descobrir\u00e1 que \u00e9 \u2014 para sempre Louvor da Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Morreu a 9 de Novembro de 1906, mas celebra-se sempre no dia anterior, a 8. Isabel \u00e9 a profeta que os tempos actuais necessitam. Perante o inevit\u00e1vel frenesim da vida que nos faz viver excessivamente e \u00e0 superf\u00edcie da pele (e at\u00e9 fora dela&#8230;), ela prop\u00f5e a todos, e n\u00e3o apenas aos habitantes dos sossegados claustros conventuais, a consci\u00eancia da plenitude e da presen\u00e7a. Nenhuma presen\u00e7a como o Presente \u2014 o \u00danico, Aquele que jamais passa \u2014 plenifica a vida, lhe d\u00e1 sabor e recheio. Dir-se-\u00e1 que as obras e os sonhos, os filhos e as carreiras, os perfumes, os \u00eaxitos e a pr\u00e1tica do bem podem preencher os sal\u00f5es da vida. Mas n\u00e3o. N\u00e3o completamente. Quando muito, e ainda que bons, n\u00e3o passam de \u00e1gua salgada: sacia mas aumenta a sede de quem a bebe. \u00c9 por isso que faz sentido assinalar a chegada dos mensageiros da plenitude da presen\u00e7a, como Isabel da Trindade porque eles, que beberam da conting\u00eancia como n\u00f3s, bebem agora da Fonte. Eles, que habitaram o vazio e ocuparam as c\u00e9lulas da vida com seus gestos e constru\u00e7\u00f5es, sabem que jamais estamos vazios, se estamos inteiramente abertos e despertos para o Deus que aluga as vidas das suas criaturas a fim de nelas habitar, fazendo delas um c\u00e9u, onde j\u00e1 n\u00e3o haja outro of\u00edcio que n\u00e3o o de amar.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Centen\u00e1rio da morte da B. 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