{"id":8235,"date":"2006-11-02T17:04:00","date_gmt":"2006-11-02T17:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8235"},"modified":"2006-11-02T17:04:00","modified_gmt":"2006-11-02T17:04:00","slug":"quem-ve-caras-tambem-pode-ver-coracoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/quem-ve-caras-tambem-pode-ver-coracoes\/","title":{"rendered":"Quem v\u00ea caras, tamb\u00e9m pode ver cora\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Contrario o ditado popular ao viver a experi\u00eancia de ter visto caras e, por detr\u00e1s delas, cora\u00e7\u00f5es felizes, cora\u00e7\u00f5es esperan\u00e7osos e, tamb\u00e9m, cora\u00e7\u00f5es angustiados. Foi na Conven\u00e7\u00e3o das Fam\u00edlias An\u00f3nimas, ali na Reitoria da Universidade. Experi\u00eancia j\u00e1 vivida h\u00e1 anos, e que me levou, de novo, ao encontro da paz, da dor e da esperan\u00e7a. <\/p>\n<p>Pais e m\u00e3es, irm\u00e3os e irm\u00e3s, que apenas se identificam pelo seu primeiro nome, trazem consigo a mem\u00f3ria de um mundo de sofrimento de anos, tantos quantos a toxicodepend\u00eancia de um filho ou de outro familiar fez, ou ainda faz sangrar e inundar de l\u00e1grimas os seus lares. Uns, j\u00e1 libertos do terr\u00edvel pesadelo, manifestam a alegria e gratid\u00e3o pelo \u00eaxito, finalmente alcan\u00e7ado. Outros, com os seus doentes a caminho da recupera\u00e7\u00e3o, alimentam, mais uma vez, a incontida esperan\u00e7a do resultado, h\u00e1 tanto tempo almejado. Outros, ainda em situa\u00e7\u00e3o de dor, porque a escravid\u00e3o permanece, n\u00e3o escondem, apesar do ambiente reconfortante, a noite escura da dolorosa crucifix\u00e3o.<\/p>\n<p>Um clima sereno e amigo, o da Conven\u00e7\u00e3o. Os cumprimentos n\u00e3o s\u00e3o protocolares, partilha-se vida, recebem-se est\u00edmulos, alimenta-se a esperan\u00e7a de melhores dias. <\/p>\n<p>Quando se fala de dor, tamb\u00e9m se fala de esperan\u00e7a. Quando se fala de sofrimento, tamb\u00e9m se fala de coragem. Quando se narram derrotas, tamb\u00e9m se narram vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Os trabalhos iniciam-se com a \u201cOra\u00e7\u00e3o da Serenidade\u201d, rezada em coro com profunda convic\u00e7\u00e3o. Invoca-se o \u201cPoder Divino\u201d, ponto de encontro de todos, que nunca se fecha \u00e0 ora\u00e7\u00e3o de um pai e de uma m\u00e3e que imploram, agradecem ou louvam. Ningu\u00e9m se sinta for\u00e7ado nas suas convic\u00e7\u00f5es, mas antes refor\u00e7ado na sua confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes pais fazem, tamb\u00e9m, no dia a dia, os doze passos que j\u00e1 libertaram os filhos e s\u00e3o, para si pr\u00f3prios, um caminho gerador de paz, for\u00e7a interior, est\u00edmulo a prosseguir numa luta que n\u00e3o admite cansa\u00e7os nem tr\u00e9guas. <\/p>\n<p>O testemunho da alegria e do sofrimento, o entusiasmo sereno de quem se reconhece por uma hist\u00f3ria igual, as viv\u00eancias partilhadas com total confian\u00e7a, o respeito m\u00fatuo, tudo a ajudar estas fam\u00edlias a que vivam um clima de enriquecedora solidariedade. <\/p>\n<p>Quando vemos no nosso caminho a verdade dos sentimentos que livremente se exprimem, ficamos mais comprometidos na luta contra as causas do mal. <\/p>\n<p>A droga e seus tent\u00e1culos s\u00e3o monstro forte para se enfrentar a s\u00f3s. Na uni\u00e3o aberta de muitos, pode residir a for\u00e7a que exorciza os medos do monstro. Por\u00e9m, o mal alastra. H\u00e1 fardos de droga a dar \u00e0 costa e a cair nas m\u00e3os da autoridade. Enchem pris\u00f5es os sinais vis\u00edveis de um neg\u00f3cio hediondo, sujo e mort\u00edfero, que se faz a frio, se premedita, enriquece criminosos e destr\u00f3i inocentes. O crime atinge muitos, sem que se veja modo de o conter. N\u00e3o faltam interesses o foment\u00e1-lo. Se fosse vis\u00edvel a olhos humanos a destrui\u00e7\u00e3o que da\u00ed resulta, ver\u00edamos rios de sangue e l\u00e1grimas, ouvir\u00edamos gritos, lancinantes e incontidos, de pais, irm\u00e3os e amigos e das v\u00edtimas de um para\u00edso ef\u00e9mero. <\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel que os poderes cruzem os bra\u00e7os ante este poder do mal? Na rotina que se nos cola, ficam deste horror de mis\u00e9ria e de dor as fam\u00edlias an\u00f3nimas com a sua luta e esperan\u00e7a, as not\u00edcias j\u00e1 raras, porque deixaram de ser not\u00edcia, os esc\u00e2ndalos que o dinheiro n\u00e3o consegue abafar. Mas fica, tamb\u00e9m, a multid\u00e3o dos que ajudam doentes e fam\u00edlias, de mistura com outros que, por vezes, os exploram impunemente. Depois, ficam ainda as solu\u00e7\u00f5es que nada solucionam e sobre as quais se diz muito, porque significam pouco. V\u00e3o-se vendendo ilus\u00f5es com salas de chuto, seringas nas pris\u00f5es, metadona quanto baste, entrevistas e pareceres de s\u00e1bios e de eruditos. Uns ganham com tudo isto. Muitos s\u00e3o, por\u00e9m, os que perdem. \u00c9 assim. Uma droga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contrario o ditado popular ao viver a experi\u00eancia de ter visto caras e, por detr\u00e1s delas, cora\u00e7\u00f5es felizes, cora\u00e7\u00f5es esperan\u00e7osos e, tamb\u00e9m, cora\u00e7\u00f5es angustiados. Foi na Conven\u00e7\u00e3o das Fam\u00edlias An\u00f3nimas, ali na Reitoria da Universidade. Experi\u00eancia j\u00e1 vivida h\u00e1 anos, e que me levou, de novo, ao encontro da paz, da dor e da esperan\u00e7a. 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