{"id":8280,"date":"2006-11-10T15:20:00","date_gmt":"2006-11-10T15:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8280"},"modified":"2006-11-10T15:20:00","modified_gmt":"2006-11-10T15:20:00","slug":"so-deve-ler-se-lhe-der-na-gana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/so-deve-ler-se-lhe-der-na-gana\/","title":{"rendered":"&#8220;S\u00f3 deve ler se lhe der na gana!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Lobo Antunes apresentou a sua \u00faltima obra, \u201cOntem n\u00e3o te vi em Babil\u00f3nia\u201d, na Biblioteca Municipal de Aveiro. O escritor revelou que escreve na mesa da cozinha, de frente para a parede, e falou da influ\u00eancia do pai e do av\u00f4.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 deve ler, se lhe der na gana! Era o que faltava dizer-lhe para me ler a mim! N\u00e3o tem nenhuma raz\u00e3o para me ler. At\u00e9 lhe digo que n\u00e3o leia, porque os livros d\u00e3o trabalho e s\u00e3o muito caros!\u201d \u2013 foi uma das respostas de Ant\u00f3nio Lobo Antunes no s\u00e1bado, 4 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Aveiro, a uma das interpela\u00e7\u00f5es relativas ao \u00faltimo livro que lan\u00e7ou, \u201cOntem n\u00e3o te vi em Babil\u00f3nia\u201d. <\/p>\n<p>Vagueando entre a estante repleta de livros em casa do seu av\u00f4 \u2013 \u201cEstou a ver os livros na estante\u2026\u201d \u2013 e a sua profiss\u00e3o de m\u00e9dico (que lhe transmitiu sobretudo a perplexidade e a incompreens\u00e3o perante o sofrimento), o escritor falou durante uma hora para uma plateia de cem pessoas, sobre os actos de escrever e ler.  <\/p>\n<p>Referiu as hist\u00f3rias aos quadradinhos e as publica\u00e7\u00f5es das Selec\u00e7\u00f5es como as suas grandes refer\u00eancias, porque \u00e9 em crian\u00e7a que se acorda o desejo de escrever, pela leitura. \u201cComecei a escrever por causa do Mandrake, do Pato Donald. Quando um dos filhos estava doente, o pai lia-lhes os livros de que gostava, lia em portugu\u00eas, em franc\u00eas e em ingl\u00eas\u201d, disse. Tamb\u00e9m no Inverno, recordou, n\u00e3o sa\u00eda muito de casa, pelo que lia. E escrevia. Praticou h\u00f3quei, mas seguiu a carreira de Medicina por influ\u00eancia paterna. Hoje, l\u00ea sobretudo poesia. Destacou o poeta brasileiro Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto.<\/p>\n<p>Apesar do que se diz, o escritor considera que em Portugal se l\u00ea muito. Lamentou, todavia, que nunca tenha havido uma pol\u00edtica cultural: \u201cNunca se ensinou a ler, porque ler aprende-se.\u201d<\/p>\n<p>Lobo Antunes escreve na mesa da cozinha, sentado de frente para a parede, para n\u00e3o se distrair. Quanto ao acto de escrever, divide-o em dois momentos: numa primeira parte, decide escrever, mas come\u00e7a sem uma ideia, sem um t\u00edtulo. \u00c9 uma altura de sofrimento. Na segunda parte, \u201co livro j\u00e1 anda sozinho, sem a minha interven\u00e7\u00e3o. Parece que algu\u00e9m me est\u00e1 a ditar\u201d. O t\u00edtulo aparece com um nexo afectivo, imposs\u00edvel de se explicar, como o amor e a amizade. \u201cN\u00e3o imagino o livro com outro nome\u201d, afirmou, como \u201cn\u00e3o imagino o meu camarada da tropa com outro nome!\u201d<\/p>\n<p>Para Lobo Antunes, um livro \u00e9 um cofre que se abre com uma chave. Essa chave \u00e9 feita com a experi\u00eancia de vida de cada leitor (uma vez publicado, um livro deixa de pertencer ao escritor, \u00e9 do leitor). Por\u00e9m, se o livro for bom, ele traz a sua pr\u00f3pria chave, \u00e9 lido como \u00e9, aceite como \u00e9. <\/p>\n<p>Com uma boa dose de humor, Ant\u00f3nio Lobo Antunes provocou v\u00e1rias gargalhadas no p\u00fablico (por exemplo, confessou que, quando n\u00e3o est\u00e1 a escrever, sente-se culpado, como se n\u00e3o tivesse tomado banho antes de se vestir), mas tamb\u00e9m comoveu quando relembrou o rapazinho morto ao colo de um enfermeiro, cujo p\u00e9 nu o marcou quando tinha 22 anos. H\u00e1 42 anos. \u00c9 para esse menino que escreve, \u201cpara os que n\u00e3o t\u00eam voz.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Lobo Antunes apresentou a sua \u00faltima obra, \u201cOntem n\u00e3o te vi em Babil\u00f3nia\u201d, na Biblioteca Municipal de Aveiro. O escritor revelou que escreve na mesa da cozinha, de frente para a parede, e falou da influ\u00eancia do pai e do av\u00f4. \u201cS\u00f3 deve ler, se lhe der na gana! 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