{"id":8293,"date":"2006-11-10T15:36:00","date_gmt":"2006-11-10T15:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8293"},"modified":"2006-11-10T15:36:00","modified_gmt":"2006-11-10T15:36:00","slug":"pragmatismo-perigoso-e-consequente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pragmatismo-perigoso-e-consequente\/","title":{"rendered":"Pragmatismo perigoso e consequente"},"content":{"rendered":"<p>Diz-se hoje, a torto e a direito, que \u201ctemos de ser pragm\u00e1ticos\u201d.Os dicion\u00e1rios anotam que pragmatismo \u00e9 \u201ca doutrina filos\u00f3fica que adopta como crit\u00e9rio da verdade a utilidade pr\u00e1tica, identificando o verdadeiro com o \u00fatil.\u201d A dar f\u00e9 \u00e0 defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil ver como, sob a capa do pragm\u00e1tico, muita coisa se pode esconder, mesmo com pessoas bem intencionadas. Encontramos neste \u201cser pragm\u00e1tico\u201d a chave de leitura de decis\u00f5es, pessoais, familiares e p\u00fablicas, carregadas de consequ\u00eancias, e que reduzem, de modo leviano, a verdade aos interesses mais variados, a coberto da utilidade, dita pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, muitas vezes, se perde demasiado tempo a reflectir e a ponderar, prejudicando, assim, a necessidade de decis\u00f5es de certa urg\u00eancia, que n\u00e3o se podem adiar eternamente. Como tamb\u00e9m acontece que, por receio de se enfrentarem problemas e situa\u00e7\u00f5es, estes se v\u00e3o ampliando, dando origem a outros n\u00e3o menos graves.<\/p>\n<p>O que \u00e9 claro e aparece como certo e sensato \u00e9 que o pragmatismo n\u00e3o pode, a qualquer pre\u00e7o, cultivar a superficialidade e a insensibilidade e p\u00f4r no simplesmente \u00fatil o m\u00f3bil de toda a ac\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 \u00fatil para uns, nem sempre o \u00e9 para outros da mesma comunidade e com iguais direitos. Um \u00fatil relativizado pode tornar-se antro e vespeiro.<\/p>\n<p>O homem pragm\u00e1tico pode ser corajoso, mas \u00e9 por vezes pouco culto e, por isso mesmo, pouco reflexivo, cego e pouco sensato. Se acrescenta a tudo isto a teimosia e o orgulho de n\u00e3o reconhecer o erro da sua precipita\u00e7\u00e3o e teimosia, ent\u00e3o \u00e9 o desastre completo. Se n\u00e3o se v\u00ea logo, o tempo n\u00e3o consegue ocult\u00e1-lo por meses e anos.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, quando menospreza a forma\u00e7\u00e3o humanista e se manifesta mais atenta aos resultados que \u00e0s pessoas, \u00e9 campo aberto, fora do laborat\u00f3rio experimental, para o pragmatismo das decis\u00f5es perigosas e inconsistentes, ainda que vistosas e aplaudidas. Parece que j\u00e1 chegamos aqui em muitos campos, p\u00fablicos e privados.<\/p>\n<p>\u00c9 preocupante ver a ligeireza de decis\u00f5es irrealistas e pobres, bem como o cuidado de iluminar apenas o lado que interessa do problema que, pragmaticamente, se pretende resolver. Vem-se decidindo minimizar o ensino da hist\u00f3ria e da filosofia, do latim e do grego, e investir tudo para que a matem\u00e1tica e o ingl\u00eas sejam o grande motor da cultura actual. Assim se sublinham os aspectos utilit\u00e1rios de um problema grave, que \u00e9 o da forma\u00e7\u00e3o para a vida, como se as pessoas fossem apenas m\u00e1quinas e produtores de riqueza. <\/p>\n<p>Formar gente que cultive a harmonia do saber, consciente de que, por esta harmonia, o saber \u00e9 mais universal e s\u00f3lido e constitui o clima que permite que as pessoas sejam mais pessoas, n\u00e3o pode ser uma decis\u00e3o meramente pragm\u00e1tica. Nem sempre o objectivo da utilidade \u00e9 respeito pela verdade. A utilidade muda segundo os interesses de ocasi\u00e3o. A verdade persiste na procura do interesse real e global de pessoas e comunidades.<\/p>\n<p>Este pragmatismo \u00e0 moderna da sociedade do vazio, nasce e alimenta-se de um relativismo perigoso, porque vazio de ideias, culturalmente analfabeto, incapaz de construir no presente um futuro que valha. Exprime-se por gritos de poder, n\u00e3o d\u00e1 voz aos intervenientes e interessados, deixa-se fascinar pelo resultado imediato. Fabricam-se e publicam-se resultados que quem est\u00e1 no terreno sabe que s\u00e3o falsos; promete-se o que se sabe, de antem\u00e3o, que n\u00e3o se pode dar; fomentam-se grupos emotivos de apoio que abdicaram de pensar e para os quais, tamb\u00e9m, o \u00fatil passou a ser o verdadeiro; por imponderada aten\u00e7\u00e3o, \u00e0s minorias d\u00e1-se o que se nega ou dificulta \u00e0s maiorias. O espect\u00e1culo atinge fam\u00edlias, Estado, grupos corporativos, ambiente em geral, porque o cont\u00e1gio n\u00e3o para. Se fascina parte da plebe, revolta a outra parte. <\/p>\n<p>A unidade de um povo, h\u00e1 que afirm\u00e1-lo, nasce da verdade, n\u00e3o do pragmatismo que a n\u00e3o respeita. E s\u00f3 na verdade tem consist\u00eancia a esperan\u00e7a da felicidade e do bem estar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diz-se hoje, a torto e a direito, que \u201ctemos de ser pragm\u00e1ticos\u201d.Os dicion\u00e1rios anotam que pragmatismo \u00e9 \u201ca doutrina filos\u00f3fica que adopta como crit\u00e9rio da verdade a utilidade pr\u00e1tica, identificando o verdadeiro com o \u00fatil.\u201d A dar f\u00e9 \u00e0 defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil ver como, sob a capa do pragm\u00e1tico, muita coisa se pode esconder, mesmo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-8293","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8293\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}