{"id":839,"date":"2010-03-10T09:51:00","date_gmt":"2010-03-10T09:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=839"},"modified":"2010-03-10T09:51:00","modified_gmt":"2010-03-10T09:51:00","slug":"identifiquei-me-com-a-comunidade-de-santa-joana-e-uma-familia-a-qual-eu-pertenco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/identifiquei-me-com-a-comunidade-de-santa-joana-e-uma-familia-a-qual-eu-pertenco\/","title":{"rendered":"&#8220;Identifiquei-me com a comunidade de Santa Joana. \u00c9 uma fam\u00edlia \u00e0 qual eu perten\u00e7o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 43 anos na comunidade de Santa Joana, em Aveiro, primeiro como capel\u00e3o, depois como p\u00e1roco (a reitoria ou par\u00f3quia experimental foi criada no dia 11 de Novembro de 1969 e a institui\u00e7\u00e3o definitiva deu-se no dia 19 de Setembro de 1976), o P.e Ad\u00e9rito Rodrigues Abrantes, 69 anos, ordenado no dia 25 de Julho de 1965, lidera uma comunidade din\u00e2mica e em crescimento. O seu zelo pastoral e as suas palavras amigas e atitudes conciliadoras contribu\u00edram decisivamente para edifica\u00e7\u00e3o da comunidade humana de Santa Joana (para l\u00e1 da comunidade crist\u00e3), como foi publicamente reconhecido, atrav\u00e9s da atribui\u00e7\u00e3o da medalha de prata municipal, em 2006, que a foto documenta.<\/p>\n<p>Nesta entrevista conduzida por Jo\u00e3o Santos e Pedro Barros, seminaristas de Aveiro no Semin\u00e1rio Maior de Coimbra, ressalta o testemunho feliz de quem se entrega, no anonimato de todos os dias, ao servi\u00e7o dos irm\u00e3os da par\u00f3quia de Santa Joana e de quem olha o futuro na procura de caminhos de fidelidade sempre novos.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Como e quando percebeu que Deus o chamava a ser presb\u00edtero?<\/p>\n<p>P.E AD\u00c9RITO ABRANTES: De um modo mais concreto e decisivo, foi na fase final do meu curso de Teologia, na medida em que fui estudando a minha voca\u00e7\u00e3o, evoluindo como jovem, procurando crescer em todo o sentido, mas sem ver ainda claro, como eu gostaria logo de princ\u00edpio, qual poderia ser o meu rumo. <\/p>\n<p>Entrou para o Semin\u00e1rio muito novo, certamente\u2026<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, fui para o semin\u00e1rio. Nessa altura pouca gente estudava nas aldeias. Inicialmente, estava para ir para o Liceu. Acontece que um colega da minha idade e muito amigo, pressionado pelos pais para ir para o semin\u00e1rio, andou matreiramente \u00e0 volta de mim, para eu continuar a estudar ao seu lado. \u00c9ramos s\u00f3 n\u00f3s os dois que \u00edamos estudar nesse ano, e eu acedi. Ao fim de um ano ele n\u00e3o se adaptou  e veio embora. E eu continuei. Foi assim que come\u00e7ou a minha caminhada no Semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio foi um tempo de crescimento\u2026<\/p>\n<p>Gostei muito, num tempo de disciplina bastante r\u00edgida, que n\u00e3o me traumatizou, nem a mim nem \u00e0 maior parte dos alunos. A vida em conjunto com os colegas e superiores foi muito boa para a minha forma\u00e7\u00e3o. Ajudou o facto de aceitar cumprir ordens, que j\u00e1 as trazia de casa, como \u00e9 evidente, mas eram diferentes. Para mim foi bastante enriquecedor e dou gra\u00e7as a Deus por ter andado no semin\u00e1rio de Aveiro, nos primeiros oito anos, e depois nos Olivais (Lisboa). <\/p>\n<p>Foi ordenado presb\u00edtero. Que desafios surgiram, sabendo que foi para Santa Joana, que at\u00e9 ent\u00e3o ainda n\u00e3o era par\u00f3quia?<\/p>\n<p>Depois de ser ordenado, fui dois anos para a par\u00f3quia da Branca, que tinha um p\u00e1roco j\u00e1 bastante idoso. Ao fim de dois, D. Manuel de Almeida Trindade pediu para eu vir para Aveiro, residindo na S\u00e9 e sendo capel\u00e3o destes lugares que pertenciam \u00e0s tr\u00eas freguesias da cidade: Esgueira, Vera Cruz e Gl\u00f3ria. Nessa altura estava j\u00e1 com a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. E fui andando por aqui. Ao fim de pouco tempo, constatou-se que estas pessoas que estavam bastante separadas da cidade e do centro das freguesias, com estradas ruinosas, sem transportes, ansiavam por uma certa independ\u00eancia. Eu comecei a trabalhar aqui em 1967 e em 1969, no dia de S. Martinho, 11 de Novembro, D. Manuel criou a par\u00f3quia experimental a que se chamou reitoria de Santa Joana Princesa. Com o trabalho pastoral, senti a necessidade de vir viver para aqui, no meio das pessoas. Para isso, alug\u00e1mos uma casa e come\u00e7\u00e1mos a trabalhar para a aquisi\u00e7\u00e3o dos terrenos onde seria constru\u00edda a Igreja.<\/p>\n<p>Foi f\u00e1cil o processo da igreja paroquial?<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos um metro sequer. Come\u00e7\u00e1mos a construi-la numa altura um pouco dif\u00edcil. Empreit\u00e1mos a Igreja em Novembro de 1973 e em Abril de 1974 deu-se a Revolu\u00e7\u00e3o. O Estado tinha-nos prometido 33% de comparticipa\u00e7\u00e3o nas obras da Igreja e fic\u00e1mos sem nada. Mas isso n\u00e3o nos levou a desanimar. Ali\u00e1s, junt\u00e1mos esfor\u00e7os e com a uni\u00e3o e criatividade de todos, crian\u00e7as, jovens e adultos, ao fim de algum tempo t\u00ednhamos os terrenos comprados. A Igreja foi inaugurada no dia 19 de Setembro de 1976. Nesse dia, a reitoria de Santa Joana Princesa passou a par\u00f3quia definitiva. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 40 anos em que somos par\u00f3quia j\u00e1 com m\u00ednimo de estruturas. Passado alguns anos, constru\u00edmos a resid\u00eancia paroquial, para onde me transferi e onde agora resido.<\/p>\n<p>Entretanto, foi criada a freguesia\u2026<\/p>\n<p>A freguesia civil fez recentemente 25 anos de cria\u00e7\u00e3o. Foi a comiss\u00e3o fabriqueira que, com mais dois ou tr\u00eas elementos, tratou de todo o processo da cria\u00e7\u00e3o da freguesia civil. Felizmente, desde sempre, da primeira hora at\u00e9 hoje, tem havido uma rela\u00e7\u00e3o muito directa, muito estreita, colaborante e penso que ben\u00e9fica para a popula\u00e7\u00e3o entre a par\u00f3quia e o poder aut\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Por onde vai agora a par\u00f3quia de Santa Joana?<\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta que \u00e9 um bocado complexa&#8230; Os come\u00e7os n\u00e3o foram nada f\u00e1ceis. N\u00e3o estou a dizer que tudo quanto est\u00e1 aqui n\u00e3o foi feito com a generosidade das pessoas, da popula\u00e7\u00e3o, que era muito inferior \u00e1 de hoje e muito mais pobre, mais rural do que propriamente oper\u00e1ria, digamos assim. Felizmente, aos poucos foi-se criando tudo. A nossa grande preocupa\u00e7\u00e3o foi a cria\u00e7\u00e3o da Igreja viva, da comunidade. Penso que isso se mant\u00e9m, mas as minhas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais que evidentes.<\/p>\n<p>A que limita\u00e7\u00f5es se refere?<\/p>\n<p>A idade j\u00e1 conta e, sozinho, n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil, para mim, p\u00e1roco, fazer com que a comunidade evolua com os par\u00e2metros que eu gostaria. Vale imenso \u00e9 a colabora\u00e7\u00e3o dos leigos. H\u00e1 muito que, felizmente, assumem as suas responsabilidades. Mas h\u00e1 muitas mais coisas que gostaria de fazer, se houvesse aqui mais algu\u00e9m, um di\u00e1cono ou sacerdote. Dadas as dificuldades e car\u00eancia de clero, tenho que compreender. Seria bom que houvesse aqui mais algu\u00e9m, at\u00e9 porque temos bastantes jovens. Ainda ontem [in\u00edcio de Fevereiro] estive reunido com largas dezenas deles, numa vig\u00edlia a prop\u00f3sito da semana dos consagrados, e venho agora de uma reuni\u00e3o de pais dos escuteiros, que s\u00e3o quase duzentos. Dava para algu\u00e9m se dedicar \u00e0 Juventude, \u00e0 Liturgia \u2013 actividades para as quais agora n\u00e3o tenho as capacidades que tinha. Penso que as pessoas h\u00e3o-de compreender isto.<\/p>\n<p>Olhando para o horizonte da Igreja Universal, estamos a celebrar o Ano Sacerdotal cujo lema \u00e9 Fidelidade de Cristo, Fidelidade do Sacerdote. Como \u00e9 que um padre \u00e9 fiel nos dias de hoje?<\/p>\n<p>Eu penso que \u00e9 fiel da maneira como era nos dias de ontem e da maneira como h\u00e1-de ser nos dias de amanh\u00e3. Com dedica\u00e7\u00e3o, com amor \u00e0 Igreja, com amor ao pr\u00f3ximo. Embora essa fidelidade seja muito dif\u00edcil nos dias de hoje. As solicita\u00e7\u00f5es s\u00e3o imensas. O activismo muitas vezes rouba tempo \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 vida espiritual. Sinto essa lacuna, minha lacuna, at\u00e9 porque como estou s\u00f3 n\u00e3o tenho aquela capacidade organizativa como gostaria. Se calhar, h\u00e1 sectores que eu descuro um pouco mais e aos quais devia dar mais aten\u00e7\u00e3o. Isto tamb\u00e9m contribui para uma certa infidelidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha miss\u00e3o e \u00e0quilo a que me propus quando me ordenei padre e quando vim para aqui. Portanto, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o v\u00e1 fazendo algumas coisitas, mas sinto-me insatisfeito, pois gostaria de fazer muito mais. <\/p>\n<p>Como \u00e9 que sente que as pessoas olham o padre hoje? <\/p>\n<p>Acho que \u00e9 melhor perguntar isso \u00e0s pessoas, porque eu posso ser suspeito. Uma coisa \u00e9 certa, sou amigo das pessoas e a maioria das pessoas \u00e9 minha amiga. Vamos dando-nos bem. J\u00e1 nos conhecemos mutuamente. Penso que sei lidar, mais ou menos, com esta gente. As pessoas tamb\u00e9m j\u00e1 me conhecem e se calhar por isso, aceitam mais facilmente as minhas falhas. E, identifiquei-me com esta comunidade e vejo nesta comunidade uma fam\u00edlia \u00e0 qual eu perten\u00e7o. E na qual me sinto bem. Nesta inser\u00e7\u00e3o comum e nesta partilha de vida desde sempre com os paroquianos.<\/p>\n<p>Para si, o que \u00e9 ser padre e que desafios se levantam?<\/p>\n<p>Para mim, ser padre \u00e9 e sempre foi uma dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo e a Deus, na exclusividade. Claro que eu falei nas tarefas da par\u00f3quia, mas tamb\u00e9m durante trinta e poucos anos leccionei Religi\u00e3o e Moral na escola. Inicialmente com relut\u00e2ncia, porque foi preciso que o senhor Bispo me pedisse durante tr\u00eas anos para ir dar aulas. Foi preciso tr\u00eas anos para aceitar. Gostei muito de ajudar. Procurei tamb\u00e9m que fosse exercendo o meu sacerd\u00f3cio. Procurei ser uma presen\u00e7a da Igreja na Escola. Andei l\u00e1 com essa preocupa\u00e7\u00e3o. E penso que as pessoas tamb\u00e9m me respeitavam como sacerdote, como servo de Deus, como presen\u00e7a da Igreja. Ser Padre \u00e9 isto mesmo, procurar ser Igreja, procurar exercer o meu minist\u00e9rio em favor do povo de Deus. Procurar assimilar o minist\u00e9rio do que \u00e9 ser vocacionado, ser chamado. E tenho consci\u00eancia disso. Fa\u00e7o com gosto aquilo que se me pede como p\u00e1roco. Ser sacerdote \u00e9 continuar a ser o mesmo, a ter as portas abertas quando nos batem, atender as pessoas sem quaisquer acep\u00e7\u00f5es, todas por igual, estar dispon\u00edvel para a caridade e para o que mais puder fazer. Com as minhas limita\u00e7\u00f5es, vivo o sacerd\u00f3cio com entusiasmo e com o desejo de levar por diante, enquanto Deus me der for\u00e7as para isso, as tarefas de que o Bispo em nome de Deus me for incumbindo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 43 anos na comunidade de Santa Joana, em Aveiro, primeiro como capel\u00e3o, depois como p\u00e1roco (a reitoria ou par\u00f3quia experimental foi criada no dia 11 de Novembro de 1969 e a institui\u00e7\u00e3o definitiva deu-se no dia 19 de Setembro de 1976), o P.e Ad\u00e9rito Rodrigues Abrantes, 69 anos, ordenado no dia 25 de Julho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-839","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=839"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/839\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}