{"id":8399,"date":"2006-11-24T12:14:00","date_gmt":"2006-11-24T12:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8399"},"modified":"2006-11-24T12:14:00","modified_gmt":"2006-11-24T12:14:00","slug":"a-graca-do-acolhimento-dos-pobres-e-maior-que-a-riqueza-dos-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-graca-do-acolhimento-dos-pobres-e-maior-que-a-riqueza-dos-ricos\/","title":{"rendered":"A gra\u00e7a do acolhimento dos pobres \u00e9 maior que a riqueza dos ricos"},"content":{"rendered":"<p>Maputo, fim de tarde. Espero, \u00e0 porta do aeroporto, por n\u00e3o sei eu quem. Estranhamente, n\u00e3o h\u00e1 muita preocupa\u00e7\u00e3o, pois nestas coisas sentimo-nos sempre protegidos, quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias. H\u00e1 um seguro de Provid\u00eancia ilimitado!<\/p>\n<p>Observo \u00e0 minha volta, vejo as pessoas, a mistura de gente, negros, asi\u00e1ticos, brancos, indianos\u2026 parecia um reino onde havia lugar para todos.<\/p>\n<p>Chega o P. Am\u00e9rico. N\u00e3o era dif\u00edcil dar comigo. Passo a primeira noite na Visitadoria Salesiana e, de manh\u00e3, sigo para Tete num avi\u00e3ozinho simp\u00e1tico e com pouca gente. A maior parte dos passageiros eram mission\u00e1rios. Lembra-me Angola, em que era tudo gente da ONU e companhia\u2026 Aqui, quando a guerra j\u00e1 se despediu h\u00e1 mais tempo, a pobreza continua, e os mission\u00e1rios ao lado do povo s\u00e3o quem continua a dar-lhe luta.<\/p>\n<p>Tete recebe-me com um calor imenso, abafado. Passa-lhe ao lado um dos maiores rios de \u00c1frica: o Zambeze, de onde o reino antigo do Grande Zimbabu\u00e9 tirou sustento e controlo de territ\u00f3rio; mas nem por isso, pelo rio, o clima \u00e9 mais fresco. E nem por isso a abund\u00e2ncia de \u00e1gua para beber e para a agricultura \u00e9 correspectiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo. At\u00e9 aqui, j\u00e1 tinha visto muitos tipos pobreza. Mas ou era por causa da guerra, cat\u00e1strofes naturais, injusti\u00e7a social\u2026 Aqui, conheci um novo tipo: a pobreza sem sentido\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o tardei a dar-lhe um nome. De facto, depressa se foi revelando o sistema das coisas: um presidente de munic\u00edpio que recebe computadores para a administra\u00e7\u00e3o, mas os computadores v\u00e3o parar aos amigos, sem crit\u00e9rio de cargo; empresas multinacionais que constroem um orfanato que \u00e9 inaugurado pela Sra. Guebuza, primeira-dama, com destaque, para amaciar o choque dos empreendimentos de extrac\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o que a\u00ed vem\u2026 O que \u00e9 que o povo ganha?! Um orfanato para lhe calar a boca. <\/p>\n<p>A \u00e1gua do sistema p\u00fablico j\u00e1 existe. Os tubos estreitos, que vi por ocasi\u00e3o de algumas obras na Miss\u00e3o, est\u00e3o dirigidos para algumas habita\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Os canos s\u00e3o a coluna vertebral. Os que saem destes para o resto da cidade, para as torneiras comuns, onde toda a gente enche jerricans, fecham-se se for necess\u00e1rio. Se necessitarmos mesmo de \u00e1gua, podemos pedir ao munic\u00edpio que a fechou que traga um tanque. Mas, depois, temos de pagar o tanque, o transporte e a \u00e1gua, claro. Tudo isto aliado ao calor\u2026 S\u00f3 vingam os campos que estiverem bem junto do rio. <\/p>\n<p>Agora a pobreza, apesar de j\u00e1 se perceber o sentido, ainda ficou mais sem sentido.<\/p>\n<p>Eram as coisas em que ia pensando, quando chegava a noite bem cedo e o fresco me cumprimentava. Ia pensando neste mundo, no lado da \u00c1frica que toca o \u00cdndico, t\u00e3o voltado para a \u00cdndia, t\u00e3o perto da China e cada vez mais longe de Portugal, que hoje se convenceu de que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um grande pa\u00eds, com excep\u00e7\u00e3o das tr\u00eas ou quatro semanas em que dura o Campeonato do Mundo ou da Europa. Aquele Portugal que construiu Cahora Bassa, aqui bem perto, que d\u00e1 luz a meia \u00c1frica do Sul e \u00e9 a barragem que mais produz em toda o continente negro.<\/p>\n<p>Era \u00e0 noite, quando parava de ouvir as que iam conversando a sua vida, as suas coisas boas e a suas dificuldades, que ouvia outras vozes, talvez a minha, talvez a de Deus. Ou ainda outras, porque em \u00c1frica h\u00e1 um certo misticismo quando cai a noite, fica fresco e olhamos para o Alto. O c\u00e9u desce para aliviar as dores que o dia testemunha.<\/p>\n<p>Nas horas de reflex\u00e3o nocturnas, chegamos a momentos que s\u00e3o reveladores, vemo-nos num quarto min\u00fasculo, \u00e0 luz do crepitar de uma vela. Ao longe, batuques furiosos iluminam os esp\u00edritos da noite, junto com grilos e rugidos v\u00e1rios. Olhamos ao redor e, atrav\u00e9s da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF, observamos um lavat\u00f3rio onde n\u00e3o corre \u00e1gua, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem. Tenho um tecto agora e aguento-me, apesar do est\u00f4mago pouco composto.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas dias n\u00e3o era assim. Estive numa qualquer aldeia de \u00c1frica, de visita, com o prop\u00f3sito de ouvir e perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princ\u00edpio, quando as sociedades eram grupos \u2018tchetengelo\u2019, comunidades.<\/p>\n<p>Ao fim da primeira manh\u00e3, tive fome, pensei eu. Senti que queria comer!<\/p>\n<p>E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia t\u00edmida primeiro. Comi. Recusar era ofensa e o meu est\u00f4mago pedia. Comi um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira. Continuei com fome, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os \u2018Sem Nome\u2019 aguentam a vida toda. Aguentei at\u00e9 ao fim do dia, e, depois, at\u00e9 ao fim da manh\u00e3. Comi \u201cchima\u201d e mais algumas coisas n\u00e3o pr\u00f3prias de se dizer alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a gra\u00e7a do acolhimento dos pobres \u00e9 maior que a riqueza dos ricos.<\/p>\n<p>O meu est\u00f4mago queixou-se, doeu e fraquejou\u2026 mas n\u00e3o foi fome. Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra n\u00e3o gira, o Sol n\u00e3o se p\u00f5e e o sono n\u00e3o descansa.<\/p>\n<p>Quando se tem Fome, o Mundo parece outro s\u00edtio, porque o apetite que sentimos fica diferente. \u00c9 uma fome mas de um tipo que n\u00e3o conhecemos, porque nunca estivemos no ch\u00e3o sem for\u00e7a para nos levantarmos, sujeitos a tudo e \u00e0 espera de nada.<\/p>\n<p>Ter fome, n\u00e3o sei o que \u00e9. S\u00f3 os meus olhos l\u00e1 passaram uns dias, e hoje estou aqui a escrever, ao mesmo tempo que a cada minuto algu\u00e9m parte para a eternidade, porque n\u00e3o teve que comer\u2026<\/p>\n<p>Estes momentos s\u00e3o reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as m\u00e3os de for\u00e7a para, em conjunto, mudarmos o mundo. Ficar parado n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, enquanto isto acontecer.<\/p>\n<p>(continua na pr\u00f3xima semana)<\/p>\n<p>Pedro Neto, <\/p>\n<p>em Mo\u00e7ambique<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maputo, fim de tarde. Espero, \u00e0 porta do aeroporto, por n\u00e3o sei eu quem. Estranhamente, n\u00e3o h\u00e1 muita preocupa\u00e7\u00e3o, pois nestas coisas sentimo-nos sempre protegidos, quaisquer que sejam as circunst\u00e2ncias. H\u00e1 um seguro de Provid\u00eancia ilimitado! 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