{"id":8425,"date":"2006-11-29T16:49:00","date_gmt":"2006-11-29T16:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8425"},"modified":"2006-11-29T16:49:00","modified_gmt":"2006-11-29T16:49:00","slug":"isto-ja-nao-devia-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/isto-ja-nao-devia-existir\/","title":{"rendered":"&#8220;Isto j\u00e1 n\u00e3o devia existir&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Fome a viver numa crian\u00e7a&#8221; <!--more--> (Continua\u00e7\u00e3o da semana passada. Conclus\u00e3o do relato da experi\u00eancia mission\u00e1ria em Mo\u00e7ambique)<\/p>\n<p>Chega a madrugada. A ora\u00e7\u00e3o com a comunidade de mission\u00e1rios que me acolhe \u00e9 alimento indispens\u00e1vel para aguentar o dia de revela\u00e7\u00f5es e de escuta, tanto como o mata-bicho a seguir.<\/p>\n<p>O meu dia era sobretudo escuta, ouvir pessoas, ouvir os lugares. Quando se vai pela terceira ou quarta vez, j\u00e1 n\u00e3o se vai fazer experi\u00eancia para depois olhar o mundo de outra maneira e ir trabalhar por isso na nossa terra. Depois da primeira vez, vai-se com um prop\u00f3sito. O meu era ouvir e depois tomar notas. Tecnicamente \u2018elaborar um levantamento de necessidades\u2019. Isto \u00e9, ouvir, com aten\u00e7\u00e3o e respeito, para depois voltar e a\u00ed sim, com ajuda de todos, arranjar maneira de acabar com estas necessidades, por meio de um projecto, uma campanha, uma sensibiliza\u00e7\u00e3o, que a n\u00f3s, na Europa, n\u00e3o custa muito mais que entusiasmo, din\u00e2mica, for\u00e7a, consci\u00eancia e comunh\u00e3o! Quando a Igreja descobrir a for\u00e7a que tem quando o \u00e9 em comunh\u00e3o,\u2026 o mundo muda!<\/p>\n<p>Numa das manh\u00e3s, a visita de ouvir e ver ia ser perto e s\u00f3 de um dia. Era a Tete, capital da prov\u00edncia do mesmo nome, a pouco mais de 15 km de Moatize, a vila onde fica a Miss\u00e3o onde eu estou e que viveu da extrac\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o, no tempo em que n\u00e3o havia fome mas havia outras atrocidades e que os portugueses faziam render (a extrac\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio). <\/p>\n<p>\u00c9 pequena a vila, pouco mais que uma avenida que \u00e9 um pouquinho da estrada estreita e internacional que vai ter ao Malawi, a uns curtos 80 quil\u00f3metros, e, para o outro lado, a Tete, no fim da estrada, do outro lado da ponte. Parece a 25 de Abril, mais pequena e da cor da chapa, n\u00e3o pintada. Foi feita por portugueses, para carros ligeiros. Os cami\u00f5es que entretanto surgiram, com mercadorias para e do Malawi, passam um de cada vez e a um limite de 10 km\/h.<\/p>\n<p>Passamos a ponte. N\u00e3o pagamos a portagem como protesto. \u00c9 escandaloso uns pagarem e os do poder e \u201cseus amigos\u201d n\u00e3o o fazerem. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 autoridade que se atreva a questionar este protesto perigoso do Pe. Kazembe, da Miss\u00e3o de Moatize, que se arrisca a sofrer alguma das boas, com as posi\u00e7\u00f5es que tem costume crist\u00e3o de tomar, quando v\u00ea injusti\u00e7a a pairar. N\u00e3o faz mais porque n\u00e3o o deixam.<\/p>\n<p>Tete \u00e9 maior. Tem lojas dos chineses, dos indianos, algumas poucas de mo\u00e7ambicanos. Algumas estradas est\u00e3o alcatroadas e, mesmo com a condu\u00e7\u00e3o \u00e0 direita, consigo orientar-me e, ao fim de algum tempo, consigo ir onde \u00e9 preciso.<\/p>\n<p>Desta vez, era uma casa em constru\u00e7\u00e3o, uma obra social das Irm\u00e3s do Precios\u00edssimo Sangue.<\/p>\n<p>Para chegar, l\u00e1 subimos por uma rua estreita e lamacenta, quase imposs\u00edvel at\u00e9 para um land rover! Esgotos a c\u00e9u aberto subsistem nas traseiras escondidas da cidade, o que j\u00e1 \u00e9 um sinal de que o desenvolvimento est\u00e1 por a\u00ed perto. Ou ser\u00e1 porque a primeira-ministra \u00e9 de Tete? Prefiro pensar que \u00e9 a primeira hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Passo por um port\u00e3o de chapa, novo, ou\u00e7o cantorias de crian\u00e7as alegres l\u00e1 dentro. \u00c9 um centro de acolhimento a \u00f3rf\u00e3os e mi\u00fados da rua. Os \u201cmi\u00fados dos sem\u00e1foros\u201d, como me explicam e relaciono, como quem pede uma esmola, para conseguir interiorizar porque \u00e9 que uma crian\u00e7a no mundo de hoje ainda tem de passar por isto na vida\u2026 Por que \u00e9 que ainda h\u00e1, alguns anos depois de compromissos internacionais tomados, o redondo n\u00famero de 850 milh\u00f5es de pessoas sem o que comer. Nesta obra est\u00e3o trinta dessas. Enquanto c\u00e1 est\u00e3o, s\u00e3o mais que estat\u00edstica. S\u00e3o pessoas.<\/p>\n<p>Foi uma delas, em tamanho pequeno mas alma grande, que mudou muita coisa do meu mundo, minutos depois.<\/p>\n<p>Entrei, eu e o Pe Kazembe, congol\u00eas, filho de um rebelde e de m\u00e3e embaixadora. Desde cedo aprendeu a pensar. O facto de os pais terem de se encontrar \u00e0s escondidas n\u00e3o fazia muito sentido. Depressa percebeu que haver guerra sempre que h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es no Congo ou no Zaire (ou seja l\u00e1 qual for o nome do pa\u00eds) n\u00e3o faz qualquer sentido, como a injusti\u00e7a das portagens. Veio como mission\u00e1rio para Mo\u00e7ambique e d\u00e1 assist\u00eancia \u00e0 comunidade e obras das Irm\u00e3s de Tete.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as estavam nas suas brincadeiras e cantorias, dan\u00e7avam uma dan\u00e7a que lhes nasceu na cultura africana de espantar todos os males em dan\u00e7as e costumes ancestrais. O nosso acolhimento \u00e9 feito assim, dan\u00e7ar e cantar, mostrando alegria pelas visitas. Olham-nos como algu\u00e9m que se lembrou deles, num mundo em que os que pensavam e tomavam conta deles por uma raz\u00e3o ou outra j\u00e1 partiram ou n\u00e3o t\u00eam nada de seu.<\/p>\n<p>Quando se come\u00e7aram a apresentar individualmente, um rapazito, franzino, com pouco mais de um metro de altura, levanta-se. Sozinho, com toda a gente sentada e m\u00e3os unidas \u00e0 frente como se fosse na fila da comunh\u00e3o, come\u00e7ou a falar.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cEu sou o Nelson. Tenho dez anos. Vim aqui \u2018pr\u00e1s\u2019 Irm\u00e3s me \u2013 gaguejou \u2013 me d\u00e1, me darem ajuda. Eu n\u00e3o tenho pai e vivo com minha m\u00e3e. \u00c9 s\u00f3\u201d.<\/p>\n<p>A for\u00e7a da entoa\u00e7\u00e3o e a dor que transpareceu no mi\u00fado, quando disse que n\u00e3o tinha pai, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descrever. Ficou \u00f3rf\u00e3o por causa da guerra. A m\u00e3e n\u00e3o tem emprego, os filhos s\u00e3o muitos e campos agr\u00edcolas na cidade n\u00e3o os h\u00e1. Vivem na rua, o ganha-p\u00e3o \u00e9 da rua que vem e quase nunca d\u00e1 para nada.<\/p>\n<p>Este mi\u00fado explicou ali o que significa a palavra coragem. N\u00e3o disse que vinha do latim \u201ccor\u201d (cora\u00e7\u00e3o), aquele que tem firmeza no cora\u00e7\u00e3o, no esp\u00edrito. N\u00e3o disse mas mostrou o que era, mostrou que pede ajuda para um dia dar a volta ao destino e \u00e0 vida, mostrou com entoa\u00e7\u00e3o e for\u00e7a, n\u00e3o querendo fugir da realidade: \u201cEu n\u00e3o tenho pai e vim pedir ajuda.\u201d<\/p>\n<p>Houve sil\u00eancio durante uns segundos. Pareceu-me muito tempo. Ainda agora ecoa por a\u00ed, mesmo que tentemos n\u00e3o pensar no que vimos e ouvimos, porque s\u00e3o coisas duras demais. Sou muito pouco ao p\u00e9 de tanto que vi.<\/p>\n<p>\u00c9 duro sabermos que existe fome, que existe gente \u00f3rf\u00e3 de tudo, que vive numa pobreza absoluta quase como aquela crian\u00e7a, o pequeno Jesus, cujo nascimento os centros comerciais j\u00e1 come\u00e7am a celebrar.<\/p>\n<p>Juntemo-nos a eles e sejamos coerentes. Se dizemos, fazemos, porque mudar o mundo est\u00e1 apenas ao alcance do nosso trabalho e atitude. N\u00e3o \u00e9 por n\u00f3s, por sermos melhores ou piores, \u00e9 pelo discurso directo do Nelson, que n\u00e3o tem pai, que n\u00e3o vai \u00e0 escola, que n\u00e3o come certo todos os dias, que tem apenas dez anitos, que tem nome e rosto e existe, neste preciso momento em que estou a escrever, nalgum lado em \u00c1frica. <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ele est\u00e1 com fome na rua, nos sem\u00e1foros, ou estar\u00e1 ao abrigo da casa e do acolhimento das Irm\u00e3s, no s\u00edtio onde o mais bonito do amor de Cristo se junta \u00e0 triste consequ\u00eancia da ego\u00edsmo do ser humano: fome a viver numa Crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Isto j\u00e1 n\u00e3o devia existir.<\/p>\n<p>Pedro Neto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Fome a viver numa crian\u00e7a&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-8425","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jovens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8425\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}