{"id":8454,"date":"2006-11-29T17:49:00","date_gmt":"2006-11-29T17:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8454"},"modified":"2006-11-29T17:49:00","modified_gmt":"2006-11-29T17:49:00","slug":"intervencao-da-igreja-e-questoes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/intervencao-da-igreja-e-questoes-sociais\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o da Igreja e Quest\u00f5es Sociais"},"content":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Diocesana Justi\u00e7a e Paz (CDJP) de Aveiro, em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a Escola dos Cursos de Cristandade, preparou um Curso sobre Doutrina Social da Igreja, que tem decorrido em ser\u00f5es outonais dos meses de Outubro e Novembro. As sess\u00f5es \u2013 oito \u2013, estiveram imbu\u00eddas do esp\u00edrito dos Cursilhos de Cristandade: breve ora\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o do tema, reflex\u00e3o por grupos de uma ou mais quest\u00f5es e plen\u00e1rio de comunica\u00e7\u00e3o e aprofundamento. Os participantes, cerca de 90, mantiveram uma grande assiduidade e demonstraram um not\u00e1vel interesse.  <\/p>\n<p>Igreja e quest\u00f5es sociais<\/p>\n<p>As duas primeiras sess\u00f5es versaram a miss\u00e3o da Igreja e a legitimidade da sua interven\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0s quest\u00f5es sociais. Fez-se a apresenta\u00e7\u00e3o dos principais documentos do Magist\u00e9rio Social Pontif\u00edcio e da Assembleia dos Bispos Portugueses. Foi particularmente vivo o plen\u00e1rio em que se abordaram assuntos que est\u00e3o hoje na \u201cpra\u00e7a p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s poder\u00e1 ser clara a legitimidade da Igreja em se pronunciar relativamente \u00e0s quest\u00f5es sociais. Mas n\u00e3o o \u00e9 para muitos. \u00c9 at\u00e9 fonte de grande contesta\u00e7\u00e3o. No entanto, se meditarmos um pouco, rapidamente nos apercebemos que a Igreja n\u00e3o s\u00f3 tem o direito, mas o dever de se pronunciar. \u00c9 um seu dever, n\u00e3o s\u00f3 de pron\u00fancia, mas de interven\u00e7\u00e3o. E, desde sempre, tem intervindo, muitas vezes de forma forte, inovadora e at\u00e9 controversa para a \u00e9poca. Relembremos a primeira Enc\u00edclica Social, Rerum Novarum, em 1891, em que Le\u00e3o XIII afirma que os graves problemas sociais \u201cs\u00f3 podiam ser resolvidos pela colabora\u00e7\u00e3o entre todas as for\u00e7as intervenientes\u201d, acrescentando ainda: \u201cQuanto \u00e0 Igreja, que a sua ac\u00e7\u00e3o jamais falte por qualquer modo e em qualquer tempo\u201d. Ou, mais recentemente, em 1971, recordemos a clarivid\u00eancia de Paulo VI, na Octogesima Adveniens, ao identificar os complexos problemas da sociedade p\u00f3s-industrial, nomeadamente: a urbaniza\u00e7\u00e3o, a condi\u00e7\u00e3o juvenil, a condi\u00e7\u00e3o da mulher, o desemprego, as discrimina\u00e7\u00f5es, a emigra\u00e7\u00e3o, o crescimento demogr\u00e1fico, o influxo dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, o ambiente natural.  <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>fora da sociedade<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o desta reflex\u00e3o para a nossa actualidade leva-nos a pensar que, como Igreja, nos limitamos muitas vezes \u00e0quilo que acreditamos ser a grande compet\u00eancia da Igreja \u2013 \u201csalva\u00e7\u00e3o das almas\u201d- e nos alheamos do nosso papel social, esquecendo que, como crist\u00e3os, \u00e9 nossa miss\u00e3o \u201cevangelizar o social, ou seja, fazer ressoar a palavra libertadora do Evangelho no complexo mundo da produ\u00e7\u00e3o, do trabalho, do empresariado, das finan\u00e7as, do com\u00e9rcio, do direito, da cultura, das comunica\u00e7\u00f5es sociais, em que vive o homem\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, Principia, 2005) e dessa miss\u00e3o depende tamb\u00e9m a salva\u00e7\u00e3o do homem. Estaremos a cumprir? <\/p>\n<p>Ap\u00f3s estas sess\u00f5es fundamentais analisaram-se os princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja, nomeadamente: o bem comum e o destino universal dos bens; a subsidiariedade e a solidariedade; e a participa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Bem comum<\/p>\n<p>O Bem Comum e Destino Universal dos Bens s\u00e3o dois princ\u00edpios que a Doutrina Social da Igreja destaca como um imperativo categ\u00f3rico para que todos possamos viver com dignidade. Com efeito, esta dignidade exige que o Homem tenha o conjunto de meios que satisfa\u00e7am as suas necessidades e as da sua fam\u00edlia e por isso todos estamos implicados na constru\u00e7\u00e3o do Bem Comum, definido pela Gaudium et Spes como o \u201cConjunto de condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, atingir a sua pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o de um modo total e mais f\u00e1cil\u201d. <\/p>\n<p>Bens de todos<\/p>\n<p>Ao reflectirmos em conjunto estes ensinamentos, percebemos que s\u00f3 atrav\u00e9s do nosso empenhamento e esfor\u00e7o colectivos conseguiremos construir uma sociedade onde o Bem Comum e o Destino dos Bens possam estar ao servi\u00e7o do homem. S\u00f3 quando o homem tiver acesso \u00e0 escola, ao trabalho \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 sa\u00fade,&#8230; \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o plena, ent\u00e3o estes princ\u00edpios ser\u00e3o uma realidade. Estamos todos implicados nesta constru\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, e n\u00f3s crist\u00e3os temos por obriga\u00e7\u00e3o ser os primeiros a assumir um papel activo. Deus destinou a terra ao Homem, para que ele a domine e, a partir dela, sustente os seus membros, sem excluir nem privilegiar ningu\u00e9m. Somos assim convidados a usufruir do Bem Comum, administrando, sem permitir que alguns abusem sem responsabilidade do colectivo. Os bens n\u00e3o s\u00e3o de cada um, mas de todos, sendo, por isso, todos chamados a contribuir (por exemplo pagando os impostos justos) e cooperar lealmente.<\/p>\n<p>Imagine-se, pois\u2026<\/p>\n<p>Imagine-se um mundo em que a cada um fosse reconhecido o direito de dar, \u00e0 sua medida, um contributo para a melhoria de vida dos seus coet\u00e2neos e que a isso se chamasse participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imagine-se um pa\u00eds em que a educa\u00e7\u00e3o fosse uma responsabilidade primeira e reconhecida das fam\u00edlias, a quem se reconheceria o direito e a legitimidade de escolherem o modelo educativo mais ajustado aos seus filhos; imagine-se um mundo em que os Estados reconhe-cessem \u00e0s sociedades mais pr\u00f3ximas dos cidad\u00e3os (as associa\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es particulares de solidariedade social, etc.) o leg\u00edtimo direito de serem ve\u00edculo de promo\u00e7\u00e3o, apoio e acompanhamento das pessoas, n\u00e3o sendo nunca indevidamente substitu\u00eddas pelo Estado ou sociedades superiores, antes sendo por estes apoiadas e subsidiadas; imagine-se um mundo em que o direito a ter iniciativa n\u00e3o ficasse no mundo de uns poucos que tudo gerem a seu bel-prazer, estabelecendo os pre\u00e7os que mais lhes conv\u00eam porque o monop\u00f3lio assim lhes permite, mas fosse assegurado a todos com igual condi\u00e7\u00e3o de oportunidade, e que a tudo isto se chamasse subsidiariedade.<\/p>\n<p>Imagine-se, ainda, um mundo e um tempo em que todos sentissem como seus os problemas de todos, em que as quest\u00f5es do bem-estar do mundo, do bem-estar das esp\u00e9cies, do bem-estar e direito a viver dos mais fr\u00e1geis fosse problema de todos e nunca de apenas alguns, e que a isso se chamasse solidariedade\u2026<\/p>\n<p>Imagine-se tudo isto\u2026 Imagine-se e deseje-se e concretize-se este mundo e estaremos a tornar real o mundo a que se aspira na Doutrina Social da Igreja, a j\u00e1 longa e profunda reflex\u00e3o que a Igreja Cat\u00f3lica vem fazendo sobre as condi\u00e7\u00f5es de humaniza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 luz do sentido transcendente que confere car\u00e1cter \u00fanico e interpela cada ser humano a tornar-se progressivamente mais dignificado.<\/p>\n<p>Imagine-se, pois\u2026.<\/p>\n<p>Que caridade \u00e9 a nossa?<\/p>\n<p>E a via da Caridade \u00e9 o caminho para esse mundo. A Caridade, ap\u00f3s a sess\u00e3o sobre esta virtude teologal, deixou de ter a conota\u00e7\u00e3o de \u201ccaridadezinha\u201d, que se sente frequentemente \u201cno ar\u201d, para passar a ser objectivo de vida plena. A Caridade consiste em amar a Deus sobre todas as coisas e ao pr\u00f3ximo como a si mesmo, por amor de Deus. Nela se condensa toda a mensagem do Evangelho. Se conseguirmos a Caridade, conseguimos sentir como pr\u00f3prias as car\u00eancias e as exig\u00eancias alheias, sendo mais intensas a comunh\u00e3o dos valores espirituais e a solicitude pelas necessidades materiais, e o Amor flui naturalmente, fazendo-nos felizes. Atentemos, no entanto, que a caridade n\u00e3o deve ser vivida unicamente numa perspectiva individual, ela \u00e9 tamb\u00e9m caridade social e pol\u00edtica. \u201cSob tan-tos aspectos, o pr\u00f3ximo a ser amado apresenta-se em sociedade, de sorte que am\u00e1-lo realmente, prover \u00e0s suas necessidades ou \u00e0 sua indig\u00eancia pode significar algo diferente do bem que se lhe pode querer no plano puramente inter-individual\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, Principia, 2005). Que Caridade \u00e9 a nossa? Ser\u00e1 aquela que nos tranquiliza por uns instantes num acto, por vezes isolado, que n\u00e3o prov\u00e9m verdadeiramente do amor ao pr\u00f3ximo? Ser\u00e1 que a nossa Caridade \u00e9 aquela que nos completa e nos d\u00e1 a plenitude, enquanto seres feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, que \u00e9 o Amor?  <\/p>\n<p>Vida digna<\/p>\n<p>A \u00faltima sess\u00e3o do Curso versou sobre os valores fundamentais da vida social, que s\u00e3o pedras basilares na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade nova. A sociedade que Jesus Cristo nos anunciou e que n\u00f3s homens e crist\u00e3os, frequentemente, ignoramos. Viver em verdade, liberdade, justi\u00e7a e amor \u00e9 de uma exig\u00eancia imensa, que obriga a uma conduta de pesada responsabilidade nos nossos testemunhos de vida di\u00e1ria. A necessidade de transpar\u00eancia e honestidade n\u00e3o coincide com os nossos interesses pessoais, e a nossa conduta no agir pessoal e tamb\u00e9m colectivo fica irremediavelmente comprometida.<\/p>\n<p>Os Valores fundamentais da vida social s\u00f3 ser\u00e3o autenticamente respeitados quando o homem compreender que todos temos direito a uma vida digna. Podemos viver em verdadeira liberdade, quando existirem la\u00e7os verdadeiros e justos a unir as pessoas, transpondo para o \u00e2mbito social a totalidade das suas dimens\u00f5es. <\/p>\n<p>Verdade, implica, <\/p>\n<p>amor e liberdade<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia humana \u00e9 ordenada, fecunda de bens e condizente com a dignidade do Homem, quando se funda na Verdade, se realiza pela Justi\u00e7a, se organiza com Liberdade, e a responsabilidade do pr\u00f3prio agir \u00e9 assumida e vivificada pelo AMOR. Os valores como a verdade, a justi\u00e7a, o amor e a liberdade s\u00e3o a ess\u00eancia da Doutrina Crist\u00e3, indispens\u00e1veis para a viv\u00eancia em sociedade onde o primado do Homem \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Est\u00e3o ainda previstas mais duas sess\u00f5es especiais, a 4 e a 18 de Dezembro, sendo a primeira em g\u00e9nero de ultreia jubilosa para partilhar as viv\u00eancias mais significativas da caminhada feita e a segunda em jeito de recolec\u00e7\u00e3o e conv\u00edvio de Natal, para que seja Jesus Cristo a dar sentido mais pleno \u00e0 nossa vida e a levar-nos ao compromisso social.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Diocesana Justi\u00e7a e Paz, ao preparar e realizar o Curso aprofundou conceitos e adquiriu conhecimentos da Doutrina Social, que em muito enriqueceram os seus pr\u00f3prios membros. Por outro lado, o contacto com os participantes da Escola dos Cursilhos de Cristandade e a viv\u00eancia do curso constitu\u00edram a prova viva de que \u00e9 poss\u00edvel crescer num esp\u00edrito de verdadeira Caridade e cooperar, de forma interactiva, nos servi\u00e7os da Igreja.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Diocesana Justi\u00e7a e Paz (CDJP) de Aveiro, em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a Escola dos Cursos de Cristandade, preparou um Curso sobre Doutrina Social da Igreja, que tem decorrido em ser\u00f5es outonais dos meses de Outubro e Novembro. 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