{"id":8513,"date":"2006-12-06T16:26:00","date_gmt":"2006-12-06T16:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8513"},"modified":"2006-12-06T16:26:00","modified_gmt":"2006-12-06T16:26:00","slug":"ja-nao-vos-chamo-servos-mas-amigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ja-nao-vos-chamo-servos-mas-amigos\/","title":{"rendered":"&#8220;J\u00e1 n\u00e3o vos chamo servos mas amigos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o <!--more--> Acontece que Jesus tamb\u00e9m disse: quem quiser ser mesmo importante deve, sem hipocrisia, servir os outros (Mc. 10,42-45).<\/p>\n<p>No falar corrente, uma pessoa \u00e9 \u00abimportante\u00bb quando precisamos dela para que o plano comum tenha sucesso. N\u00e3o a podemos obrigar a pensar e a agir s\u00f3 como pensamos e fazemos: deixaria de nos prestar o servi\u00e7o para que vinha habilitada e n\u00f3s continuar\u00edamos a marcar passo com o mesmo automatismo e vozes de comando que \u00abest\u00e3o sempre certos\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 errado afirmar que muita gente e muitas institui\u00e7\u00f5es t\u00eam medo, quando aparece \u00abalgu\u00e9m que serve\u00bb \u2013 no sentido de algu\u00e9m que presta, algu\u00e9m que d\u00e1\u2026 n\u00e3o v\u00e1 este algu\u00e9m fazer sombra! Ou n\u00e3o v\u00e1 inquietar a consci\u00eancia, ao lembrar que importa \u00abservir\u00bb e n\u00e3o \u00abser senhores\u00bb! <\/p>\n<p>S\u00f3 os amigos \u00e9 que n\u00e3o enganam \u2013 ou n\u00e3o s\u00e3o amigos. Os amigos sabem quando dar, como dar e quanto dar. Esta sabedoria adquire-se \u00abouvindo e questionando\u00bb (Lc. 2,46); e assim nos tornamos aptos para colaborar num projecto comum. Quando Jesus sublinha que \u00abo seu\u00bb mandamento \u00e9 a sabedoria do amor entre n\u00f3s, logo acrescenta que, para ele, os disc\u00edpulos s\u00e3o \u00abamigos\u00bb \u2013 pois \u00abos servos n\u00e3o est\u00e3o ao corrente do que faz o seu senhor\u00bb (Jo. 15,9-17).<\/p>\n<p>Jesus foi um \u00abl\u00edder\u00bb. Mas quais ser\u00e3o as caracter\u00edsticas fundamentais de um l\u00edder? Sensibilidade e dedica\u00e7\u00e3o aos problemas dos outros e ser deles porta-voz? Tratar os outros como iguais e por igual? Intui\u00e7\u00e3o para captar consensos? Ser reconhecido por ter dons especiais talvez acima do normal \u2013 coragem, perseveran\u00e7a, intui\u00e7\u00e3o, pragmatismo, ci\u00eancia, sabedoria\u2026?<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o melhor l\u00edder pode cair na pervers\u00e3o: ser excelente porta-voz \u2013 mas dos interesses pr\u00f3prios; gerar consenso \u2013 porque o imp\u00f5e; ter muitos seguidores \u2013 porque os compra; ser bom estratega \u2013 para manter nos outros a ilus\u00e3o de possuir talentos especiais e fazer-se reconhecer como o her\u00f3i, o grande salvador, o orquestrador imbat\u00edvel.<\/p>\n<p>Mateus, o evangelista atento \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da nov\u00edssima comunidade crist\u00e3, termina o seu evangelho atribuindo a Jesus ressuscitado uma solene declara\u00e7\u00e3o: \u00abFoi-me dado todo o poder no c\u00e9u e na terra\u00bb (28, 18). E desafia-nos a partilhar desse poder unificador e harmonizador da dimens\u00e3o temporal e eterna da vida (\u00abassim na terra como no c\u00e9u\u00bb). <\/p>\n<p>O vocabul\u00e1rio original dos evangelistas para designar este poder abarca os sentidos de for\u00e7a do esp\u00edrito, for\u00e7a de crescimento, for\u00e7a de imposi\u00e7\u00e3o, for\u00e7a da pessoa no seu todo. Compete a todos os crist\u00e3os, \u00e0 medida do jeito de viver de cada qual, ver por dentro e viver o que s\u00e3o estes conceitos.<\/p>\n<p>Etimologicamente, \u00abpoder\u00bb tem o sentido de dom\u00ednio eficaz, se necess\u00e1rio pela coer\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, Jesus elimina qualquer tipo de opress\u00e3o: convida-nos, sim, com veem\u00eancia, a ir ao encontro dos outros. S. Paulo, particularmente na 1\u00aa carta aos Cor\u00edntios (12-14), marca bem que nenhum dos nossos talentos \u00e9 eficaz se nos esquecemos de, acima de tudo, gerar e fortalecer a alegria (em grego, \u00abalegria\u00bb, \u00abcarisma\u00bb e \u00abcaridade\u00bb t\u00eam o mesmo radical). S\u00f3 assim garantimos a gest\u00e3o do bem-estar temporal e eterno. Por isso, \u00abautoridade\u00bb (mesma etimologia de aumentar) \u00e9 prefer\u00edvel a \u00abpoder\u00bb. No tecido social, este aumento s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se todos colaboramos, como um corpo em que ningu\u00e9m for considerado in\u00fatil. De outra forma, o corpo fica amputado (Rom. 12,3-8; 1Cor. 12,12-13). \u00abH\u00e1 diversos modos de agir, mas \u00e9 Deus que realiza tudo em todos\u00bb. Por\u00e9m, esta \u00abjoint venture\u00bb com Deus s\u00f3 \u00e9 genu\u00edna, se gerar \u00abproveito comum\u00bb (1Cor. 12,6-7; 14,12.26); e s\u00f3 \u00e9 eficaz, se procurarmos a excel\u00eancia no \u00abtop\u00bb dos dons \u2013 sem o qual os outros pouco valem: a for\u00e7a indestrut\u00edvel do amor (1Cor. 13).<\/p>\n<p>Todas as formas exteriores de autoridade est\u00e3o sujeitas \u00e0 pervers\u00e3o \u2013 quando n\u00e3o assentes na dimens\u00e3o interior. S\u00f3 a interioridade \u00e9 que vence as vicissitudes do tempo, as desilus\u00f5es e os retrocessos da Hist\u00f3ria e persevera na luta pela dignidade da vida humana; permite-nos viver, em grupo, a for\u00e7a de Deus, aprendendo a \u00abcapitalizar a energia divina\u00bb e a organizarmo-nos para bem guardar este \u00abcapital\u00bb.<\/p>\n<p>Sem estes cuidados, os \u00abpoderosos\u00bb nas organiza\u00e7\u00f5es religiosas (qualquer um de n\u00f3s o pode querer ser\u2026) correm o risco de se preocupar com uma certa realiza\u00e7\u00e3o huma-na da f\u00e9 e n\u00e3o com a f\u00e9 na sua interioridade. Descuidando a interioridade, at\u00e9 os amigos passam a meros servos, e o servilismo substitui a colabora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 os amigos \u00e9 que compartilham da \u00abautoridade\u00bb de Deus.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>Professor Universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-8513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8513\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}