{"id":8521,"date":"2006-12-06T16:40:00","date_gmt":"2006-12-06T16:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8521"},"modified":"2006-12-06T16:40:00","modified_gmt":"2006-12-06T16:40:00","slug":"cientistas-pouco-esclarecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/cientistas-pouco-esclarecidos\/","title":{"rendered":"Cientistas pouco esclarecidos"},"content":{"rendered":"<p>Dias positivos <!--more--> Poder\u00e1 um cientista ou divulgador de ci\u00eancia ignorar a Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia ou ter dela vis\u00f5es sect\u00e1rias? Aparentemente, n\u00e3o. Mas na pr\u00e1tica, sim. \u00c9 o que acontece muitas vezes. Em dois encontros p\u00fablicos recentes, em Aveiro, com pessoas de elevada craveira, notei tomadas de posi\u00e7\u00e3o que, de alguma forma, rebaixam ou desprezam a f\u00e9 crist\u00e3 no di\u00e1logo com as ci\u00eancias naturais. Crentes como eu haveria com certeza na assembleia. Mas \u00e9 feio desautorizar os convidados. Pelo que eu e os outros optamos pelo sil\u00eancio, com o risco de a asneira, \u00e0 for\u00e7a de tanto ser repetida, ganhar apar\u00eancia de verdade.<\/p>\n<p>Num desses encontros, dizia o orador que, com a ci\u00eancia, \u00e9 poss\u00edvel o di\u00e1logo e a discuss\u00e3o, porque o seu m\u00e9todo \u00e9 o experimental. Levantam-se hip\u00f3teses, geram-se teorias, elaboram-se leis e tudo \u00e9 discut\u00edvel, se entretanto surgirem novas hip\u00f3teses, novas teorias e novas leis, su-bmetidas ao escrut\u00ednio da experi\u00eancia. Com a religi\u00e3o, dizia a autoridade ligada a uma das funda\u00e7\u00f5es com mais prest\u00edgio na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tudo \u00e9 diferente. O seu m\u00e9todo \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o, logo n\u00e3o permite discuss\u00e3o, at\u00e9 porque a religi\u00e3o n\u00e3o tem hip\u00f3teses nem teorias, mas dogmas.<\/p>\n<p>Noutro, dizia o divulgador que, sendo astr\u00f3nomo, n\u00e3o podia \u201cacreditar no que dizem os astr\u00f3logos, os senhores padres ou outras supersti\u00e7\u00f5es\u201d. Creio que n\u00e3o erro na frase anterior nem na express\u00e3o seguinte. Prescindia dessas \u201cmuletas\u201d, embora respeitasse quem delas precisasse.<\/p>\n<p>N\u00e3o me espanta que n\u00e3o saibam grande coisa de religi\u00e3o e, portanto, confundam f\u00e9 e religi\u00e3o com supersti\u00e7\u00e3o e astrologia (esquecendo que a verdadeira f\u00e9 \u00e9 inimiga da supersti\u00e7\u00e3o e da astrologia), ou que ignorem que os dogmas tamb\u00e9m s\u00e3o fruto de discuss\u00e3o, viv\u00eancias, hist\u00f3ria, hip\u00f3teses. E que est\u00e3o sujeitos a evolu\u00e7\u00e3o e a novos olhares. Admira-me \u00e9 que n\u00e3o saibam de hist\u00f3ria da ci\u00eancia. Se soubessem, notariam que foi gra\u00e7as ao cristianismo e ao Criador transcendente que o c\u00e9u ficou limpo de deuses e figuras mitol\u00f3gicas; logo, foi poss\u00edvel olhar pelo telesc\u00f3pio e pensar que no aparente caos das estrelas e dos planetas h\u00e1 leis racionais a descobrir. Notariam que as universidades, as grandes construtoras do saber no mundo ocidental, nasceram \u00e0 sombra das catedrais medievais. Notariam que o surgimento da ci\u00eancia moderna na Europa n\u00e3o foi uma casualidade.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia podia ter nascido na Gr\u00e9cia Antiga, ou no M\u00e9dio Oriente \u00e1rabe florescente, ou na \u00cdndia e na China. Mas tal n\u00e3o aconteceu. Surgiu precisamente na Europa. E porqu\u00ea? Hoje \u00e9 dado consensual que s\u00f3 no Ocidente europeu havia um quadro mental em que a ci\u00eancia, com o seu m\u00e9todo experimental, pudesse florescer.<\/p>\n<p>E que quadro era esse? Era um espa\u00e7o espiritual com duas caracter\u00edsticas fundamentais. A primeira \u00e9 precisamente a f\u00e9 num Deus Criador (o de Jesus Cristo, pois claro). Sendo Criador, racional e bondoso, s\u00f3 poderia ter criado a natureza segundo leis racionais, est\u00e1veis, poss\u00edveis de descobrir pelo ser humano igualmente racional (\u201ccriado \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d). Sendo um Deus pessoal, estabelecia di\u00e1logo com o ser humano atrav\u00e9s da natureza. Num quadro mental polite\u00edsta, a ci\u00eancia p\u00f4de atingir picos interessantes (Gr\u00e9cia Antiga, \u00cdndia, China&#8230;), mas nunca adquiriu sustentabilidade. O capricho de um deus qualquer acabava por gorar a racionalidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>A segunda caracter\u00edstica fundamental \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria. Foi no judeo-cristianismo (Mois\u00e9s e Jesus) que surgiu a no\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria linear, isto \u00e9, uma hist\u00f3ria feita de evolu\u00e7\u00e3o. Com altos e baixos, \u00e9 certo, mas em progresso. As Alian\u00e7as de Mois\u00e9s (a velha) e de Jesus (a nova) constitu\u00edram sempre marcos no tempo, contra o eterno retorno ou a concep\u00e7\u00e3o c\u00edclica do tempo (a come\u00e7ar por aquela que imaginava uma \u201cidade de ouro\u201d no passado e tempos decadentes no presente). Esta consci\u00eancia da hist\u00f3ria, da evolu\u00e7\u00e3o e da n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o do tempo, foi (e \u00e9) igualmente fundamental para o progresso cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Por fim, surgem agora cientistas e fil\u00f3sofos da ci\u00eancia (ou seja, epistem\u00f3logos) a dizer que s\u00f3 a racionalidade de base crist\u00e3 pode salvar a ci\u00eancia de um grande perigo que a mina desde o seu interior: o cepticismo, que tudo relativiza e destr\u00f3i as concep\u00e7\u00f5es morais fundamentais.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m que os cientistas, esp\u00edritos cr\u00edticos, conhe\u00e7am um pouco mais da hist\u00f3ria da ci\u00eancia, porque, como bem sabem, quem n\u00e3o distingue\u2026 confunde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias positivos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-8521","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8521"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8521\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}