{"id":8604,"date":"2007-01-03T18:08:00","date_gmt":"2007-01-03T18:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8604"},"modified":"2007-01-03T18:08:00","modified_gmt":"2007-01-03T18:08:00","slug":"o-culto-de-s-goncalinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-culto-de-s-goncalinho\/","title":{"rendered":"O Culto de S. Gon\u00e7alinho"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia proferida pelo p\u00e1roco da Vera Cruz nas jornadas sobre S. Gon\u00e7alinho, no dia 25 de Novembro<\/p>\n<p>Ao iniciar este pequeno apontamento sobre ao culto prestado a S. Gon\u00e7alinho, n\u00e3o posso deixar de recordar as primeiras impress\u00f5es que tal festa me deixou, h\u00e1 seis anos, e primeiro ano da minha estadia nesta par\u00f3quia, que o Correio do Vouga da altura publicou. \u201cNunca tinha ido \u00e0 festa de S. Gon\u00e7alinho e fiquei abismado, n\u00e3o s\u00f3 como homem, como crist\u00e3o, mas tamb\u00e9m como padre. Como simples observador da comunidade fiquei espantado, perplexo, como \u00e9 poss\u00edvel este santo reunir tanta gente de todas as condi\u00e7\u00f5es sociais, credos e idades, que se empolgou na festa, vivendo e partilhando alegrias, atirando e apanhando cavacas, enchendo a Igreja nos mais variados actos de culto, montando guarda de honra ao santo ao longo de todo o dia e de todos os dias em que decorre a festa! <\/p>\n<p>\u00c9 um caso impar na nossa cidade! Passaram seis anos\u2026 e agora? O que \u00e9 celebrar uma festa religiosa?<\/p>\n<p>1. Celebrar a festa<\/p>\n<p>A festa \u00e9 uma dimens\u00e3o natural da vida. Comungando com o tempo a mesma sina, tamb\u00e9m os homens passam da morte de um Inverno \u00e0 vida nova da Primavera, cimentada pela luz de um Ver\u00e3o que, passo a passo, vai definhando num Outono cinzento, at\u00e9 ao frio de um novo Inverno\u2026 \u00c9 este ciclo da natureza, que contrasta a luz com as trevas e a alegria com a tristeza, que d\u00e1 sentido a esta dimens\u00e3o humana e o faz comungar do espa\u00e7o e do tempo onde se encontra. A festa \u00e9, pois, uma dimens\u00e3o natural da pessoa humana e uma forma de viver em sociedade, ultrapassando as dificuldades, vencendo as tristezas, parando e descansando no tempo e celebrando a alegria. Aqui se junta o m\u00e1gico e o simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o m\u00edstico, o religioso, o teatral e at\u00e9 o pol\u00edtico. Cada um trazendo a quota parte e respondendo aos anseios de cada um, na festa que \u00e9 de todos.<\/p>\n<p>2. A festa como dimens\u00e3o religiosa<\/p>\n<p>Para quem tem f\u00e9, a festa, al\u00e9m de nos fazer comungar com a natureza, p\u00f5e-nos em rela\u00e7\u00e3o com o Autor da pr\u00f3pria natureza e transporta-nos \u00e0quele lugar incerto, mas que mora no cora\u00e7\u00e3o de cada um, chamado para\u00edso, quando Deus, depois de ter criado toda a cria\u00e7\u00e3o, achou que tudo era muito bom e, como Pai e exemplo para os criados, descansou ao s\u00e9timo dia.<\/p>\n<p>Se a festa era uma forma de comungar com o tempo, ou descansar das agruras da vida, estava encontrado o dia para a sua realiza\u00e7\u00e3o: o s\u00e9timo dia que para os judeus era o s\u00e1bado, para os mu\u00e7ulmanos a sexta-feira e, com Jesus Cristo, para os crist\u00e3os, passou a ser o domingo.<\/p>\n<p>Por isso, fazer festa para um crist\u00e3o leva-nos sempre ao domingo (o dies Domini), o dia do Senhor, o dia de P\u00e1scoa, que n\u00e3o \u00e9 outra coisa que o dia da Vida Nova, e, por isso, o dia da alegria. \u201cEis o dia que fez o Senhor, nele exultemos e nos alegre-mos. Aleluia!,\u201d cantam os crist\u00e3os no domingo de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Em cada domingo, os crist\u00e3os celebram este dia de P\u00e1scoa, a P\u00e1scoa semanal, que tem o seu centro na Eucaristia. Esta \u00e9 o centro e o cume de toda a actividade da Igreja, ou seja, de cada comunidade crist\u00e3 e de cada crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Fazer festa para um crist\u00e3o \u00e9 sempre celebrar a P\u00e1scoa de Jesus, conhecida como a festa das festas, porque \u00e9 nela que se funda a verdadeira alegria que ultrapassa as barreiras deste mundo e at\u00e9 a pr\u00f3pria morte e nos lan\u00e7a na vida verdadeira: a vida eterna. Os santos, aqueles que s\u00e3o julgados dignos de estar no c\u00e9u, n\u00e3o s\u00e3o outra coisa que testemunhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o, e hoje, s\u00e3o exemplo e incentivo ao caminhar dos homens.<\/p>\n<p>Daqui que o centro de qualquer festa dita religiosa seja a Eucaristia e tudo o mais lhe deva estar submetido. Assim o exige o pr\u00f3prio santo que se invoca e a coer\u00eancia daqueles que assumem o compromisso de celebrar a festa em sua honra.<\/p>\n<p>3. A festa em honra de S. Gon\u00e7alinho<\/p>\n<p>Partindo destas premissas, que s\u00e3o comuns a todas as festas ditas religiosas, importa olharmos para os santos\/as que s\u00e3o objecto da nossa devo\u00e7\u00e3o e tirarmos das suas vidas ensinamentos que nos levem a conhecer Jesus Cristo, para melhor celebrarmos a alegria, a conhecer a vida do santo, para nos deixarmos entusiasmar pelo seu exemplo e comprometermo-nos na vida com a sua protec\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do agradecimento por todas as benesses ou gra\u00e7as que nos vai concedendo. E assim, no culto aos santos ou santas, vemos os mais variados costumes ou tradi\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos ou ora\u00e7\u00f5es. Alguns v\u00e3o caindo com o tempo; outros mant\u00eam-se e prolongam-se atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es. Alguns comungam do esp\u00edrito da festa enquanto celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9; outros levam-nos para outros mundos que, de f\u00e9, pouco ou nada t\u00eam. O segredo est\u00e1 pois em saber resistir ao tempo naquilo que \u00e9 de resistir \u2013 chama-se a isso tradi\u00e7\u00e3o, quer dizer, guardar e transmitir aquilo que tem sentido e que vale a pena ser guardado, e deixar cair na arca do tempo aquilo que se tornou obsoleto, \u00e0s vezes sem sentido e mesmo ofensivo para os tempos que correm. <\/p>\n<p>Compete ao Bispo da diocese, ao P\u00e1roco com o seu Conselho Pastoral e \u00e0s Comiss\u00f5es de festas velar para que a festa se desenrole num clima de alegria saud\u00e1vel, onde a f\u00e9 se expresse de forma condigna, o povo se alegre com a fam\u00edlia reunida e o santo tenha lugar e n\u00e3o se sinta envergonhado com tudo aquilo que, porventura, possa ver ou sentir.<\/p>\n<p>S. Gon\u00e7alinho\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que da vida de S. Gon\u00e7alinho ou S. Gon\u00e7alo, mais propriamente, n\u00e3o se conhece muito, al\u00e9m do nascimento no s\u00e9culo XIII ali perto de Guimar\u00e3es, a sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, o seu recolhimento a uma gruta, onde hoje se situa Amarante, a sua ora\u00e7\u00e3o intensa e a sua dedica\u00e7\u00e3o aos mais pobres, que a ele acorrem encomendando os gados e as sementeiras.<\/p>\n<p>Celebrar a sua festa \u00e9, pois, recordar a sua mem\u00f3ria e tirar dela aquilo que, hoje, nos pode ajudar a vivermos melhor a nossa f\u00e9 e testemunharmos a nossa alegria e solidariedade, movidos pelo seu exemplo e confiados na sua intercess\u00e3o: esse ser\u00e1 o culto de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as a Deus e alegria, porque nos deu este santo, de revigoramento da nossa f\u00e9 \u00e0 semelhan\u00e7a da sua vida e de compromisso na senda do seu exemplo.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que nos pode dizer, hoje, S. Gon\u00e7alinho?<\/p>\n<p>1. Ainda jovem, descobriu a sua voca\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 que Deus quer de mim? E foi ordenado sacerdote em Braga.<\/p>\n<p>Hoje, que vivemos um tempo de crise de voca\u00e7\u00f5es, em que se pretende que as crian\u00e7as da beira-mar conhe\u00e7am mais S.Gon\u00e7alinho, o santo que lhes apresentamos e a festa que lhe fazemos entusiasma algum adolescente a ser melhor crist\u00e3o, mais comprometido com a sua vida e com a dos outros, a interrogar-se sobre a sua voca\u00e7\u00e3o? Por ali passam tantos jovens de dia e sobretudo de noite; que imagem levam deste santo?<\/p>\n<p>Ao longo de todo este tempo, ajud\u00e1mos algum a decidir-se pelo sacerd\u00f3cio ou pela consagra\u00e7\u00e3o da sua vida ao Senhor?<\/p>\n<p>Ajud\u00e1mos algu\u00e9m a ser melhor pai ou melhor m\u00e3e ou melhor filho? Ou basta-nos dizer que \u00e9 um santo casamenteiro, com todo o ar brejeiro que isso traz, e acrescentarmos que tamb\u00e9m \u00e9 vingativo?<\/p>\n<p>2. \u00c9 conhecida da vida de S. Gon\u00e7alinho a vontade que sempre teve de conhecer mais e melhor Jesus Cristo. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 visitado Roma e os lugares santos, como prova de forma\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia. H\u00e1 tantos anos que fazemos a festa! O seu exemplo tem despertado em n\u00f3s essa vontade \u2014 mordomos, zeladoras e demais devotos \u2014 de sabermos mais para melhor darmos raz\u00f5es da nossa f\u00e9 de crist\u00e3os num mundo que tanto necessita delas? Mais concretamente, as nossa Comiss\u00f5es de festas que s\u00e3o feitas de homens bons e devotos do santo t\u00eam essa preocupa\u00e7\u00e3o pela forma\u00e7\u00e3o, pelo testemunho de vida e, sobretudo, pela celebra\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia da sua f\u00e9?<\/p>\n<p>3. A sua caridade para com os mais pobres foi uma constante da sua vida. Ali\u00e1s, a lenda das cavacas pode ter aqui uma das explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o a \u00fanica. Imaginamos, pois, as dificuldades porque teve de passar na sua ermida, para que houvesse sempre algo que partilhar com os outros. Temos gente solit\u00e1ria, doentes s\u00f3s, pobres a dormir por a\u00ed, gente que, diariamente, por esta ou aquela raz\u00e3o, estende a m\u00e3o \u00e0 caridade. Todos eles s\u00e3o um apelo e um exame de consci\u00eancia, \u00e0s vezes cr\u00edtico, \u00e0 forma como organizamos as festas com o nome dos santos, mas, seguramente, sem a sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>E n\u00f3s que temos, hoje, para oferecer a quem vem celebrar o santo? Novamente cavacas e dan\u00e7as de mancos?<\/p>\n<p>Disse em 2002. \u201cNingu\u00e9m pode estar contra a distribui\u00e7\u00e3o de cavacas, mas \u00e9 preciso que, tal como nos tempos antigos, elas signifiquem mais partilha de uns para com os outros, mais justi\u00e7a social, mais igualdade entre todos, menos foguetes e mais fogo no cora\u00e7\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p>Quem pode estar contra a dan\u00e7a dos mancos, quando ela significar a dan\u00e7a de todos aqueles que mancam na vida pela fome, pela solid\u00e3o, pela doen\u00e7a, pela ignor\u00e2ncia, pela explora\u00e7\u00e3o injusta e, com um gesto, uma palavra, uma visita, eles dan\u00e7arem a alegria de uma vida que volta a sorrir? Penso que at\u00e9 o santo se associar\u00e1 a esta dan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Para concluir respondamos \u00e0 pergunta inicial: qual o culto que, hoje, ser\u00e1 agrad\u00e1vel ao Santo?<\/p>\n<p>Importa aprender dele: a conhecer melhor Jesus Cristo, mesmo que isso nos custe; a servirmos a Igreja, particularmente na pessoa dos mais pobres, como ele fez e deu o exemplo; a encetarmos o caminho da nossa vida na procura de um tesouro que Deus guardou para todos e cada um e que mora no cora\u00e7\u00e3o de cada homem. \u201cEste \u00e9 o culto que me agrada: visitar os \u00f3rf\u00e3os e as vi\u00favas e conservar o cora\u00e7\u00e3o limpo de toda a mancha.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o tenhamos medo de avan\u00e7ar na fidelidade \u00e0 Igreja e ao santo, porque ele, se por acaso fosse vingativo, j\u00e1 teria deixado marcas em muitos de n\u00f3s, por aquilo que a sua posi\u00e7\u00e3o altaneira lhe permite observar do seu altar. Sabemos que  nutre pelas gentes da Beira-Mar uma simpatia especial; confiemos, pois, na sua protec\u00e7\u00e3o e saboreemos  a alegria da festa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia proferida pelo p\u00e1roco da Vera Cruz nas jornadas sobre S. Gon\u00e7alinho, no dia 25 de Novembro Ao iniciar este pequeno apontamento sobre ao culto prestado a S. 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