{"id":8636,"date":"2007-01-10T17:36:00","date_gmt":"2007-01-10T17:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8636"},"modified":"2007-01-10T17:36:00","modified_gmt":"2007-01-10T17:36:00","slug":"quando-as-maes-nao-tem-outro-sitio-onde-ficar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/quando-as-maes-nao-tem-outro-sitio-onde-ficar\/","title":{"rendered":"Quando as m\u00e3es n\u00e3o t\u00eam outro s\u00edtio onde ficar"},"content":{"rendered":"<p>Numa altura em que se intensifica o debate sobre o aborto, O Correio do Vouga d\u00e1 a conhecer institui\u00e7\u00f5es e movimentos que, de forma directa ou indirecta, na regi\u00e3o de Aveiro, trabalham para que a op\u00e7\u00e3o pelo aborto n\u00e3o fa\u00e7a parte dos planos de quem traz uma vida humana no seu ventre.<\/p>\n<p>Directora do Lar do Divino Salvador, em \u00cdlhavo, a Ir. Nazar\u00e9 Jardim descreve deste modo a casa que dirige: \u201cHoje de manh\u00e3, utilizando a linguagem natal\u00edcia, ocorreu-me que esta casa podia chamar-se Pres\u00e9pio. As mulheres recorrem a esta casa, em \u00faltimo recurso, para salvaguardar a vida delas e dos seus filhos. N\u00e3o tiveram outro s\u00edtio onde ficar, como Nossa Senhora, e bateram a esta porta, interrogando-se: O que vai ser de mim e do meu filho, quando nascer?\u201d<\/p>\n<p>O Lar do Divino salvador, \u00e0 responsabilidade das Irm\u00e3s de Nossa Senhora da Caridade e do Bom Pastor, uma congrega\u00e7\u00e3o que surgiu em Fran\u00e7a, em 1835, tem como principal fun\u00e7\u00e3o acolher mulheres v\u00edtimas da viol\u00eancia dos maridos ou companheiros. Existe desde 1998 e por l\u00e1 j\u00e1 passaram 230 m\u00e3es e 300 crian\u00e7as. Actualmente, habitam o Lar 10 mulheres e 15 crian\u00e7as. Estas, entre os 4 meses e os 12 anos. Metade delas com menos de 1 ano de idade.<\/p>\n<p>Nos corredores da casa, uma pequena galeria de fotografias mostra dezenas de rostos sorridentes, m\u00e3es e respectivos filhos, que beneficiaram ou beneficiam da ac\u00e7\u00e3o desta institui\u00e7\u00e3o. \u201cAs mulheres que est\u00e3o aqui t\u00eam os filhos como grande raz\u00e3o de viver\u201d, afirma a Irm\u00e3 Nazar\u00e9 Jardim.<\/p>\n<p>Refazer a vida<\/p>\n<p>A ac\u00e7\u00e3o do Lar n\u00e3o se centra directamente na preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es gerais que podem levar uma mulher a abortar, mas na resolu\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica, que por vezes \u00e9 invocada pelos que desejam a liberaliza\u00e7\u00e3o do aborto: a viol\u00eancia familiar. \u201cPara qu\u00ea ter a crian\u00e7a, se ela vai encontrar um ambiente de viol\u00eancia?\u201d \u2013 diz-se, com frequ\u00eancia, esquecendo-se que \u00e9 o ambiente que est\u00e1 errado e n\u00e3o a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>No Lar, longe dos agressores, com as necessidades b\u00e1sicas de sa\u00fade e alimenta\u00e7\u00e3o asseguradas, as mulheres podem refazer a sua vida junto de quem mais amam. Os filhos v\u00e3o \u00e0 escola e as m\u00e3es podem retomar estudos, quando t\u00eam 16 ou 18 anos, ou enveredar pela forma\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>Uma equipa ajuda-as na elabora\u00e7\u00e3o de um projecto de vida com vista \u00e0 autonomia. A equipa \u00e9 constitu\u00edda por uma psic\u00f3loga, uma assistente social, uma educadora social, al\u00e9m da directora da institui\u00e7\u00e3o. Presta-se ainda apoio m\u00e9dico e jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Por vezes, a ac\u00e7\u00e3o do Lar consiste em ensinar as compet\u00eancias maternais mais elementares, como dar banho ao filho ou saber distinguir o choro de fome ou de sono, mas disp\u00f5e igualmente de uma sala de inform\u00e1tica, apoiada pelo programa Aveiro Digital, para treino de outras compet\u00eancias.<\/p>\n<p>O Lar do Divino Salvador aceita mulheres (gr\u00e1vidas ou n\u00e3o \u2013 a \u00faltima vez que uma residente teve um filho foi h\u00e1 quatro meses) e respectivas crian\u00e7as, independentemente da sua origem ou condi\u00e7\u00e3o. Chegam a \u00cdlhavo por ordem do tri-bunal, a pedido da Seguran\u00e7a Social ou por interm\u00e9dio de pessoas conhecidas. Somente n\u00e3o se aceitam mulheres com defici\u00eancia ou toxicodependentes, porque esses casos requerem outros cuidados e instala\u00e7\u00f5es com caracter\u00edsticas especiais.<\/p>\n<p>&#8220;O meu namorado fez press\u00e3o <\/p>\n<p>para que eu tirasse as crian\u00e7as&#8221;<\/p>\n<p>A dificuldade econ\u00f3mica das m\u00e3es \u00e9 outra situa\u00e7\u00e3o a que o Lar procura dar resposta. Joana (nome fict\u00edcio), brasileira, h\u00e1 4 anos em Portugal (veio com familiares, que entretanto regressaram), ficou sem nenhum amparo, quando disse ao namorado que ele ia ser pai. \u201cLargou-me e fez press\u00e3o para que eu tirasse as crian\u00e7as\u201d, relata, \u201ce ainda mais quando soube que estava gr\u00e1vida de g\u00e9meas\u201d. Mas Joana n\u00e3o tirou, isto \u00e9, n\u00e3o abortou. \u201cNem que eu morresse de fome, tirar, n\u00e3o tirava\u201d, diz. A imigrante teve de ser internada aos tr\u00eas meses e as g\u00e9meas nasceram prematuras, de 28 semanas, com 540 e 760 gramas. Agora t\u00eam quase um ano e \u201cmuita sa\u00fade\u201d. \u201cEstou muito contente com elas\u201d, diz. Quanto ao antigo namorado, da regi\u00e3o de Viseu, onde Joana trabalhara numa pastelaria e num posto de combust\u00edveis, n\u00e3o o procura, porque sabe que ele n\u00e3o a quer ver \u201cnem pintada de ouro\u201d. Ali\u00e1s, Joana tem medo de sofrer alguma retalia\u00e7\u00e3o \u2013 ela ou as filhas \u2013, caso o encontre.<\/p>\n<p>O futuro passa certamente pelo regresso ao Brasil, onde est\u00e1 a av\u00f3 das g\u00e9meas, com quem fala todos os dias. A experi\u00eancia em Portugal, apesar de tudo, \u201cn\u00e3o foi m\u00e1\u201d. Teria sido muito pior se n\u00e3o encontrasse o apoio da Seguran\u00e7a Social e o Lar que a acolheu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa altura em que se intensifica o debate sobre o aborto, O Correio do Vouga d\u00e1 a conhecer institui\u00e7\u00f5es e movimentos que, de forma directa ou indirecta, na regi\u00e3o de Aveiro, trabalham para que a op\u00e7\u00e3o pelo aborto n\u00e3o fa\u00e7a parte dos planos de quem traz uma vida humana no seu ventre. 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