{"id":8651,"date":"2007-01-10T18:22:00","date_gmt":"2007-01-10T18:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8651"},"modified":"2007-01-10T18:22:00","modified_gmt":"2007-01-10T18:22:00","slug":"o-apogeu-da-cultura-portuguesa-esta-no-culto-do-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-apogeu-da-cultura-portuguesa-esta-no-culto-do-espirito-santo\/","title":{"rendered":"O apogeu da cultura portuguesa est\u00e1 no Culto do Esp\u00edrito Santo"},"content":{"rendered":"<p>Agostinho da Silva e a cultura lus\u00f3fona em debate <!--more--> Na \u00faltima sess\u00e3o de 2006 do F\u00f3rum Universal, falou-se de lusofonia, de Comunidade de Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa (a comemorar dez anos de exist\u00eancia) e principalmente de Agostinho da Silva, o s\u00e1bio que chegou a ser professor no Liceu de Aveiro e inspirou a CPLP. Paulo Borges, o convidado do dia 6 de Dezembro (na foto com o Pe Alexandre Cruz), \u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o Agostinho da Silva e professor de filosofia. Aqui fica um resumo das suas palavras. A pr\u00f3xima sess\u00e3o do F\u00f3rum est\u00e1 marcada para 17 de Janeiro.<\/p>\n<p>Inspirador da CPLP<\/p>\n<p>Agostinho da Silva (Porto, 1906 \u2013 Lisboa, 1994) foi grande entusiasta e inspirador da CPLP. No contexto da cultura contempor\u00e2nea, foi o homem que mais valorizou a lusofonia.<\/p>\n<p>Gesto simb\u00f3lico em Aveiro<\/p>\n<p>Em Aveiro, teve o seu \u00faltimo cargo p\u00fablico, como professor do Liceu. Foi expulso, porque n\u00e3o assinou a \u201cLei Cabral\u201d, em que devia declarar que n\u00e3o pertencia a nenhuma associa\u00e7\u00e3o secreta. N\u00e3o pertencendo de facto, achou que por imperativo de consci\u00eancia n\u00e3o devia assinar. Foi o \u00fanico que n\u00e3o assinou e s\u00f3 houve uma pessoa que protestou: Fernando Pessoa, que publicou um artigo no Di\u00e1rio de Lisboa contra o car\u00e1cter absurdo e opressivo da lei.<\/p>\n<p>Uma pedra em Aveiro<\/p>\n<p>As dificuldades \u2013 dizia o Prof. Agostinho da Silva \u2013 s\u00e3o como as pedras no caminho, perante as quais temos sempre duas possibilidades. Ou paramos e voltamos para tr\u00e1s. Ou subimos acima da pedra para vermos mais longe e continuarmos o caminho. A pedra que surgiu em Aveiro levou-o ao Brasil. Se n\u00e3o tivesse ido para o Brasil, nunca teria consci\u00eancia do que s\u00e3o as potencialidades da cultura que fala portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Cultura dominante<\/p>\n<p>Agostinho da Silva considera que h\u00e1 uma cultura de car\u00e1cter tecnol\u00f3gico que quer ter um dom\u00ednio sobre todas as coisas (radica na separa\u00e7\u00e3o do ser humano em rela\u00e7\u00e3o ao mundo). \u00c9 a cultura dominante no mundo. E h\u00e1 outras, como a portuguesa, que, pelas suas ra\u00edzes arcaicas, est\u00e3o destinadas a ser resistentes.<\/p>\n<p>Identidade<\/p>\n<p>Na linha do seu sogro, Jaime Cortes\u00e3o, Agostinho da Silva valoriza um fen\u00f3meno surgido no s\u00e9c. XIII, que considera espec\u00edfico da identidade cultural dos portugueses: o culto popular do Esp\u00edrito Santo, baseado nas ideias de Joaquim de Flora, segundo o qual a Trindade se expressa temporalmente atrav\u00e9s de uma idade do Pai, outra idade do Filho e outra do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Culto do Esp\u00edrito Santo<\/p>\n<p>O culto do Esp\u00edrito Santo tinha tr\u00eas caracter\u00edsticas. Primeira:  A liberta\u00e7\u00e3o dos presos, s\u00edmbolo da reconcilia\u00e7\u00e3o social. Mas tamb\u00e9m a liberta\u00e7\u00e3o do preso encarcerado dentro de cada pessoa, a energia que cada pessoa tem dentro de si, aquele que est\u00e1 isolado da unidade primordial, a dimens\u00e3o do homem que \u00e9 reprimida nos quadros mentais e civilizacionais da nossa cultura.<\/p>\n<p>Coroa\u00e7\u00e3o da Crian\u00e7a<\/p>\n<p>Outro aspecto fundamental: a coroa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a como Imperador do Esp\u00edrito Santo. Significaria que verdadeiramente divinas s\u00e3o as crian\u00e7as, mais do que os adultos. E s\u00f3 elas (os homens tornados crian\u00e7as, convertidos ao Deus Menino) podem ter acesso ao reino de Deus.<\/p>\n<p>Bodo aos pobres<\/p>\n<p>Por \u00faltimo o bodo gratuito, em que os mais ricos servem os mais pobres. Isso significava a necessidade de ultrapassar o regime de uma economia voltada para a produ\u00e7\u00e3o, o consumo e o lucro e n\u00e3o para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais b\u00e1sicas. Significava o retorno a uma \u00e9poca em que o homem n\u00e3o estava em conflito com a natureza, em que se libertava do trabalho e voltava a partilhar. Agostinho v\u00ea nisso um objectivo do mundo novo a haver.<\/p>\n<p>Apogeu da cultura portuguesa<\/p>\n<p>Ora, Agostinho da Silva considera que o Culto do Esp\u00edrito Santo significa o apogeu da cultura portuguesa, o momento em que Portugal est\u00e1 prestes a partir para as Descobertas, em que a economia \u00e9 comunit\u00e1ria e pr\u00e9-capitalista, em que h\u00e1 uma democracia municipalista (que Agostinho considera aut\u00eantica). \u00c9 o Portugal onde existe uma conviv\u00eancia exemplar das tr\u00eas religi\u00f5es monote\u00edstas: juda\u00edsmo, cristianismo e islamismo.<\/p>\n<p>Miss\u00e3o de Portugal<\/p>\n<p>\u00c9 este Portugal que parte \u00e0 descoberta do mundo. Para o professor, a miss\u00e3o de Portugal \u00e9 estabelecer o Reino de Deus \u00e0 escala planet\u00e1ria, onde todos possam ter acento em termos de igualdade. Mas o que Portugal acaba por levar para todo o mundo \u00e9 o que triunfa na Europa: uma economia mercantilista e capitalista; o centralismo mon\u00e1rquico em vez da democracia municipalista; n\u00e3o o esp\u00edrito ecum\u00e9nico, mas a mentalidade inquisitorial. Triunfa o monoculturalismo. Portugal acaba por ser o primeiro agente de globaliza\u00e7\u00e3o, contra a sua pr\u00f3pria natureza. Da\u00ed um certo div\u00f3rcio entre os portugueses e Portugal e a emigra\u00e7\u00e3o massiva para o Brasil. Tentava-se viver l\u00e1 o que j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel viver no Portugal europeu. Todavia, a aspira\u00e7\u00e3o profunda permanece em cada portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Lutar pela vida?<\/p>\n<p>Agostinho considerava absurdo \u201clutar pela vida\u201d. A vida \u00e9-nos dada de gra\u00e7a a todos, que sentido \u00e9 que faz lutar para ganhar a vida? O homem \u00e9 um ser chamado a amar, a olhar para o mundo sem uma perspectiva de dominador, sem perguntar porqu\u00ea ou para qu\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>\u201cVida convers\u00e1vel\u201d<\/p>\n<p>Na sua vis\u00e3o providencialista da hist\u00f3ria, considera que a sociedade t\u00e9cnica e capitalista pode ter como finalidade suprir as necessidade materiais do ser humano (\u201co desenvolvimento\u201d), mas valoriza as outras culturas, a latina, as orientais, as ind\u00edgenas, as culturas oprimidas, porque mant\u00eam vivo o paradigma da \u201cvida convers\u00e1vel\u201d, uma apet\u00eancia para estar com o outro sem ser para o instrumentalizar, aprender com a diferen\u00e7a do outro. No fundo, \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o para a experi\u00eancia intercultural, na qual um dos aspectos \u00e9 a experi\u00eancia inter-religiosa.<\/p>\n<p>Percursor do di\u00e1logo inter-religioso<\/p>\n<p>Agostinho da Silva \u00e9 um dos grandes percursores do di\u00e1logo inter-religioso e inter-cultural \u00e0 escala planet\u00e1ria. Esse di\u00e1logo n\u00e3o se restringe \u00e0s religi\u00f5es, mas deve ser aberto a todos os que t\u00eam uma experi\u00eancia do esp\u00edrito, mesmo que seja no ate\u00edsmo ou agnosticismo.<\/p>\n<p>Reconhecimento l\u00e1 fora<\/p>\n<p>Fora de Portugal (Espanha, It\u00e1lia, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica&#8230;), surgem jovens investigadores que estudam em que medida a lusofonia, a partir das ideias de Agostinho da Silva, pode ser um contributo para uma renova\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade cultural da Europa. O pensamento de Agostinho da Silva \u00e9 cr\u00edtico daquilo que tem sido a Europa, mas oferece possibilidades para a transforma\u00e7\u00e3o da mentalidade europeia. \u00c9 curioso verificar que as ideias de Agostinho da Silva come\u00e7am a obter um reconhecimento maior e mais entusiasta desses estrangeiros do que da parte de muitos portugueses. Alguns consideram tratar-se de ideias de um velhote um pouco exc\u00eantrico, que vivia com uns gatos.<\/p>\n<p>Coerente<\/p>\n<p>Agostinho da Silva viveu o que prop\u00f4s. Praticou o despojamento (\u201catitude franciscana\u201d). Conselheiro do presidente do Brasil e professor, pediu uma barraca para viver com estudantes africanos e da Ba\u00eda, em vez do apartamento luxuoso que lhe quiseram dar. Recusou direitos de autor e distribuiu o ordenado de professor universit\u00e1rio por alunos e funcion\u00e1rios necessitados. N\u00e3o foi uma utopia. Realizou aquilo em que acreditava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agostinho da Silva e a cultura lus\u00f3fona em debate<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-8651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-forum-universal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8651\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}