{"id":8660,"date":"2007-01-11T11:45:00","date_gmt":"2007-01-11T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8660"},"modified":"2007-01-11T11:45:00","modified_gmt":"2007-01-11T11:45:00","slug":"por-ai-na-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/por-ai-na-rua\/","title":{"rendered":"Por a\u00ed, na rua"},"content":{"rendered":"<p>O sol j\u00e1 se escondeu e a noite promete ser fria; ningu\u00e9m duvida, at\u00e9 porque as ruas v\u00e3o ficando desertas e, quem nelas se passeia, preveniu-se com os suficientes abafos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 sempre um olho atento, que n\u00e3o se det\u00e9m apenas na montra que exp\u00f5e os artigos das \u00faltimas, vindos de longe, e se apercebe que h\u00e1 outras coisas a ver.<\/p>\n<p>A essas horas do fim de dia, come\u00e7am a vaguear pessoas, uma aqui outra mais al\u00e9m, transportando ou n\u00e3o um saco com todos os seus haveres, que, por serem tais, cabem num dos poucos sacos que nos carregam quando regressamos do h\u00edper ou do super.<\/p>\n<p>Estamos diante de gente, a quem chamamos sem-abrigo. Com o nosso dedo de maus ju\u00edzes, ou com o conhecimento de experientes em observa\u00e7\u00e3o social, facilmente diremos que este teve um mau fim da vida familiar; aquele era conhecido como o b\u00eabado l\u00e1 da rua; o outro, cedo se meteu noutras drogas; o outro ainda, veio dalgum pa\u00eds de Leste \u00e0 procura de p\u00e3o para a fam\u00edlia; e, por a\u00ed adiante, facilmente encaixamos toda a gente, e seguimos o nosso caminho mais ou menos pacificamente, desde que nenhum deles nos importune na corrida farisaica dos nossos deveres.<\/p>\n<p>Como se sabe, n\u00e3o \u00e9 preciso viajar a nenhum pa\u00eds distante, nem sequer sair da nossa feliz cidade de Aveiro, para podermos observar cenas e pessoas que nos humilham e incomodam; tamb\u00e9m sabemos que apenas conhecer n\u00e3o basta e, para isso, n\u00e3o \u00e9 preciso usar lentes de aumento; mas tamb\u00e9m aceito que s\u00f3 o que nos comove \u00e9 que mais facilmente nos move.<\/p>\n<p>Estamos, pois, todos convocados para a ac\u00e7\u00e3o. Todos sabemos que em Aveiro h\u00e1 car\u00eancias neste campo. Ficar quieto ou lamentar-se \u00e9 pensar sempre que os problemas s\u00e3o dos outros e que algu\u00e9m h\u00e1-de encontrar a sa\u00edda milagrosa; eu, n\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro dia, encontrei aquele ex-recluso que perdera o emprego, a fam\u00edlia e a casa; falei com o toxicodependente que perdeu o mesmo que o anterior, e ainda mais a sa\u00fade e a confian\u00e7a de toda a fam\u00edlia, que j\u00e1 tinha feito tudo; dei tempo ao alco\u00f3lico e ouvi dele que s\u00f3 o olhavam com desprezo, mas ningu\u00e9m lhe perguntou as causas e os sofrimentos que estavam por detr\u00e1s de tudo, nem ningu\u00e9m valorizou o esfor\u00e7o tentado para a liberta\u00e7\u00e3o de tamanha doen\u00e7a; tamb\u00e9m acolhi o imigrante, e ele ensinou-me o que \u00e9 o amor de pai, de marido e de filho, por quem tudo tentou, sem resultados. E a prociss\u00e3o \u00e9 enorme e todos j\u00e1 a viram passar&#8230;<\/p>\n<p>Dar o peixe \u00e9 importante e urgente; mas n\u00e3o chega nem resolve.<\/p>\n<p>A \u201ccana\u201d poderia estar numa casa com um p\u00e1tio enorme, um terreno pr\u00f3prio para ser trabalhado, umas salas para o desenvolvimento de capacidades e compet\u00eancias, um bom espa\u00e7o para o sil\u00eancio e a medita\u00e7\u00e3o; e, depois, gente com compet\u00eancia e cora\u00e7\u00e3o para ouvir e transmitir conhecimentos. N\u00e3o se resolviam os problemas todos da sociedade; mas, ao menos, n\u00e3o pass\u00e1vamos o tempo todo a lamentar e a dizer mal de quem n\u00e3o faz.  E enquanto n\u00e3o aparece a casa com um p\u00e1tio enorme?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol j\u00e1 se escondeu e a noite promete ser fria; ningu\u00e9m duvida, at\u00e9 porque as ruas v\u00e3o ficando desertas e, quem nelas se passeia, preveniu-se com os suficientes abafos. 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