{"id":8784,"date":"2007-01-25T11:55:00","date_gmt":"2007-01-25T11:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=8784"},"modified":"2007-01-25T11:55:00","modified_gmt":"2007-01-25T11:55:00","slug":"ameaca-demografica-ou-inercia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ameaca-demografica-ou-inercia-politica\/","title":{"rendered":"Amea\u00e7a demogr\u00e1fica ou in\u00e9rcia pol\u00edtica?"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 sou do tempo em que, a torto e a direito, se proclamava que a fome no mundo tinha como causa o aumento descontrolado da natalidade e, consequentemente, da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>As teses de Maltus e do neo-maltusianismo eram um apelo mundial que se generalizou. Era preciso contrariar o aumento da popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 assim poder\u00edamos sobreviver e libertar-nos de uma calamidade exterminadora e sem limites. Ainda n\u00e3o h\u00e1 muito tempo (1991), um franc\u00eas iluminado, Comandante Cousteau, escrevia no Courrier de l\u00b4Unesco: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que a popula\u00e7\u00e3o mundial se estabilize e, para que tal aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio eliminar em cada dia 350.000 pessoas\u201d. Aqui fica para a hist\u00f3ria um apelo louco ao genoc\u00eddio que, segundo vi, n\u00e3o escandalizou, nem teve contraproposta.<\/p>\n<p>J\u00e1 na d\u00e9cada de cinquenta, padre novo com muitos sonhos sociais, pude ler, para contrariar os maus aug\u00farios dos s\u00e1bios do tempo, que o problema demogr\u00e1fico s\u00f3 tinha uma solu\u00e7\u00e3o e esta era pol\u00edtica, pois a superf\u00edcie do Brasil, bem aproveitada, era mais do que suficiente para esconjurar a fome do mundo inteiro. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que os pol\u00edticos sempre estiveram mais interessados, a v\u00e1rios t\u00edtulos, em medidas de exterm\u00ednio e de controle, do que de promo\u00e7\u00e3o do bem a favor de todos e do respeito e apoio por medidas pol\u00edticas a favor dos povos mais pobres e d\u00e9beis e da sua cultura. Os perigos da demografia crescente eram um bom fantasma para os objectivos dos pa\u00edses ricos, sempre s\u00f4fregos por maior riqueza.<\/p>\n<p>A \u00cdndia e muitos pa\u00edses de Africa foram ent\u00e3o invadidos por \u201cmultinacionais generosas\u201d, que espalharam contraceptivos em profus\u00e3o, pagos por pa\u00edses interessados em que se fosse operando, progressivamente, o exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o sob a capa de uma protec\u00e7\u00e3o farisaica. Interessava-lhes pouca gente, rendida \u00e0 gratid\u00e3o, mat\u00e9rias-primas a descoberto e anula\u00e7\u00e3o de cr\u00edticas. Estava a\u00ed a vit\u00f3ria dos poderosos. Mais tarde foram conhecidas, neste sentido, as orienta\u00e7\u00f5es \u201cs\u00e1bias\u201d, mas desumanas, de Henry Kissinger, que deixaram o mundo estupefacto, mas incapaz de responder ao gigante, sempre pronto a distribuir benesses a quem dobrasse a cerviz e seguisse o preceituado.<\/p>\n<p>A Europa tamb\u00e9m caiu no engodo. Em pa\u00edses, como Portugal, pela subservi\u00eancia aos Estados Unidos da Am\u00e9rica, de quem algumas institui\u00e7\u00f5es recebiam, via OMS, quantias consider\u00e1veis para programas de planeamento familiar; noutros pela euforia dos novos modelos e estilos de vida, contr\u00e1rios ao aumento da natalidade e abertos ao gozo e ao consumo sem restri\u00e7\u00f5es. A verdade \u00e9 que chegou a bater no fundo. Horrorizada, depois, pela amea\u00e7a dos turcos e dos mu\u00e7ulmanos de Africa, fam\u00edlias com m\u00e9dia de seis e sete filhos, e pela incapacidade de repor os estragos da quebra de natalidade, acordou e come\u00e7ou a arrepiar caminho. O que antes recusara, acabou por se lhe impor. <\/p>\n<p>Hoje v\u00e1rios pa\u00edses europeus t\u00eam pol\u00edticas concretas de est\u00edmulo \u00e0 natalidade. Todos lemos o que se passa na Alemanha a partir de 1 de Janeiro. Entre n\u00f3s, como sempre, vamos atrasados, meio anestesiados e sem medidas pol\u00edticas objectivas e estimulantes. Se vierem e forem acertadas, ainda demorar\u00e3o d\u00e9cadas a fazer sentir os seus resultados.<\/p>\n<p>Entretanto, numa atitude habitual de quem faz uma gest\u00e3o mais por imediatos que por objectivos, mais por emo\u00e7\u00f5es que por raz\u00f5es com fundamento, d\u00e1-se protec\u00e7\u00e3o ao aborto, mal embrulhado em frases publicit\u00e1rias bem gastas. Assim, j\u00e1 ningu\u00e9m duvida, o aborto acabar\u00e1 por se tornar, a pouco e pouco, em mais um m\u00e9todo contraceptivo. Nada se v\u00ea, antes pelo contr\u00e1rio, que estimule a natalidade, entre n\u00f3s pelas ruas da amargura, com \u00edndices de reposi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica dos mais baixos da Europa.<\/p>\n<p>Ficamos todos esclarecidos, quando ouvimos o chefe do governo e do partido da maioria a recomendar aos seus que n\u00e3o perdessem tempo com os aspectos cient\u00edficos do aborto, mas o gastassem preocupados em vender bem a ideia da despenaliza\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>O problema continua a ser pol\u00edtico. Temos de nos interrogar, por\u00e9m, sobre qual o sentido de uma pol\u00edtica demogr\u00e1fica que tenha em vista, com preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, as pessoas e as causas porque lutam, o bem comum e o futuro da comunidade nacional. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 sou do tempo em que, a torto e a direito, se proclamava que a fome no mundo tinha como causa o aumento descontrolado da natalidade e, consequentemente, da popula\u00e7\u00e3o. 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