{"id":894,"date":"2010-03-10T12:03:00","date_gmt":"2010-03-10T12:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=894"},"modified":"2010-03-10T12:03:00","modified_gmt":"2010-03-10T12:03:00","slug":"uma-aveirense-destemida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-aveirense-destemida\/","title":{"rendered":"Uma aveirense destemida"},"content":{"rendered":"<p>Dia da Mulher <!--more--> Ocorreu h\u00e1 pouco, em 8 de Mar\u00e7o, o Dia Internacional da Mulher, institu\u00eddo em 1975 pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, para lembrar tanto as conquistas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f3micas das mulheres, como as discrimina\u00e7\u00f5es e as viol\u00eancias a que muitas est\u00e3o sujeitas em todo o mundo. Todavia, esta comemora\u00e7\u00e3o tem ra\u00edzes nos meados do s\u00e9culo XIX, quando decorreram manifesta\u00e7\u00f5es femininas por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e pelo direito de voto.<\/p>\n<p>Neste dia, quase espontaneamente e de modo particular, evoco a minha saudosa m\u00e3e, verdadeira educadora que me transmitiu o conhecimento e o amor de Deus, me ensinou as primeiras ora\u00e7\u00f5es, me estimulou no afecto pelos meus irm\u00e3os, me despertou no respeito por toda a gente e me orientou no perd\u00e3o fraterno. Tamb\u00e9m lembro neste dia, com afectuosa amizade as minhas irm\u00e3s, as minhas cunhadas e as minhas muitas sobrinhas, de diversos graus; a todas, que me estimam sem condi\u00e7\u00f5es, sou devedor de singular gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m alargo o meu pensamento \u00e0s incont\u00e1veis hero\u00ednas an\u00f3nimas que, na penumbra da plateia do tempo, s\u00e3o muito mais numerosas do que aquelas que s\u00e3o aclamadas na luz do palco. Assim, nos escaninhos da minha mem\u00f3ria, surge-me frequentemente o registo de um mero encontro casual com tr\u00eas pessoas, n\u00e3o longe de Aveiro, na tarde de 22 de Junho de 1992. Esteve presente no pequeno grupo uma senhora, para mim desconhecida, oriunda de uma das nossas terras bairradinas. Mas, desde essa hora, fiquei a conhe-cer D. Sara Tirbaze Maia; e, ao lembr\u00e1-la, quase sempre recordo a confiss\u00e3o auto-biogr\u00e1fica de Paulo de Tarso. Escreveu o Ap\u00f3stolo aos crist\u00e3os da Gal\u00e1cia (G\u00e1l. 1, 13-20) que, por ser extremamente zeloso das tradi\u00e7\u00f5es religiosas do Juda\u00edsmo, distinguia-se entre muitos outros compatriotas da sua idade, perseguindo violentamente a Igreja de Cristo para a destruir; por\u00e9m, quando em Damasco Deus o chamou pela sua gra\u00e7a e lhe deu a co-nhecer o seu Filho para O revelar aos n\u00e3o-judeus, n\u00e3o duvidou da proposta divina, nem pediu conselhos a ningu\u00e9m, nem voltou a Jerusal\u00e9m para se encontrar com os Ap\u00f3stolos. Depois de ter passado algum tempo de reflex\u00e3o no deserto da Ar\u00e1bia, voltou a Damasco e dirigiu-se para a S\u00edria e para a Cil\u00edcia, anunciando a Boa-Nova de Cristo aos habitantes dessas terras. Foi o in\u00edcio de uma admir\u00e1vel actividade mission\u00e1ria. Ap\u00f3s a convers\u00e3o do pensar e a mudan\u00e7a do agir, S. Paulo tornar-se-ia na figura mais importante no desenvolvimento do Cristianismo nascente.<\/p>\n<p>De facto, quando algu\u00e9m se dedica com sinceridade e determina\u00e7\u00e3o, ainda que no breve decurso da idade jovem, nomea-damente num plano de luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida na sociedade dos homens e das mulheres, mas depois chega \u00e0 conclus\u00e3o de que segue por um caminho errado e sem futuro, a atitude corajosa \u00e9 tomar decididamente uma nova direc\u00e7\u00e3o &#8211; aquela que lhe pare\u00e7a mais capaz para atingir e melhorar a consci\u00eancia das pessoas, onde se encontra o \u00e2mago vital que determina e estimula a actividade humana. Foi o que, h\u00e1 anos, aconteceu com esta aveirense, quando deliberadamente se norteou por um diferente programa no rumo do seu ideal\u2026 sempre com a certeza de que a vida ou \u00e9 uma aventura ousada, ou n\u00e3o vale a pena, ou n\u00e3o \u00e9 mesmo nada. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o dois mil\u00e9nios que tamb\u00e9m uma outra menina p\u00f4s de parte o seu projecto particular, porque lhe foi proposto que poderia ser colaboradora de Deus para bem da humanidade; humildemente aceitou o convite\u2026 e contribuiu sem qualquer obst\u00e1culo. O pr\u00f3prio nome de D. Sara rememora o dessa menina-senhora.<\/p>\n<p>Como filha \u00fanica, a sua inf\u00e2ncia decorreu no ambiente calmo e feliz de uma fam\u00edlia da m\u00e9dia burguesia. A paix\u00e3o, que cedo lhe despertou, era a de ser bailarina cl\u00e1ssica; tendo exercido o ballet desde crian\u00e7a, revelou, em v\u00e1rias oportunidades, uma especial aptid\u00e3o nessa arte. Depois, a partir da juventude, a sua hist\u00f3ria seguiu os tr\u00e2mites de uma nova experi\u00eancia, trilhando os atalhos sinuosos e tr\u00e1gicos da realidade envolvente. Contudo, percorridas e ultrapassadas essas calamitosas veredas com invulgar sofrimento e com violenta persegui\u00e7\u00e3o, chegou \u00e0 sabedoria da maturidade. Foi uma hist\u00f3ria vivida persistentemente e inserida na hist\u00f3ria social de uma \u00e9poca turbulenta. Em certa ocasi\u00e3o, descobrindo que o emprego de meios totalit\u00e1rios contrariam a natureza humana e anulam a liberdade individual, tomou a consci\u00eancia de que realmente s\u00f3 a verdade liberta.<\/p>\n<p>Um dia, ouvi de D. Sara umas palavras que ela proferiu sem fingimento, porque vindas do \u00edntimo do seu cora\u00e7\u00e3o; nesse momento, ela ousou dizer com toda a naturalidade: &#8211; \u00abTenho o maior respeito e a maior considera\u00e7\u00e3o pelo papel desempenhado em Portugal pela Igreja Cat\u00f3lica, na peugada de Jesus Cristo! A Europa, por falta de vis\u00e3o dos seus respons\u00e1veis pol\u00edticos, corre o s\u00e9rio risco de perder a sua identidade, se n\u00e3o reconhecer o papel civilizador da Igreja nos respectivos pa\u00edses. Temos de ser coerentes, conservando e dando express\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o multissecular dos nossos valores sociais, que s\u00e3o os valores perenes do Evangelho\u00bb.<\/p>\n<p>Como resumo da maneira de ser, de viver e de actuar desta conhecida aveirense, cito as palavras de Helen Adams Keller (1880-1968), uma extraordin\u00e1ria mulher estadunidense, escritora, conferencista e activista social, embora cega, surda e muda desde beb\u00e9: &#8211; \u00abNunca se deve consentir em rastejar, quando se sente o impulso para voar\u00bb.<\/p>\n<p>Mons. Jo\u00e3o Gaspar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia da Mulher<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-894","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=894"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/894\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}