{"id":896,"date":"2010-03-10T12:13:00","date_gmt":"2010-03-10T12:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=896"},"modified":"2010-03-10T12:13:00","modified_gmt":"2010-03-10T12:13:00","slug":"etica-republicana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/etica-republicana\/","title":{"rendered":"\u00c9tica Republicana?"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9tica republicana. Como se a palavra \u00e9tica n\u00e3o valesse por si. Como se o adjectivo a valorizasse ou a aumentasse. Como se o mesmo atributo lhe desse um estatuto de uma qualquer superioridade. <\/p>\n<p>Agora que se comemoram os 100 anos da Rep\u00fablica a propa-lada \u00e9tica republicana promete voltar em catadupa, por mimetismo ou proselitismo. Como j\u00e1 tivemos tr\u00eas Rep\u00fablicas, o que quer dizer essa adjectiva\u00e7\u00e3o da \u00e9tica? \u00c9 que j\u00e1 houve de tudo no plano \u00e9tico e pol\u00edtico. Uma coisa e o seu contr\u00e1rio. De positivo e de negativo. De construtivo e de destrutivo. De seguidismo e de persecut\u00f3rio. De direitos e de m\u00edngua deles. De verdade e de mentira. De car\u00e1cter e da sua falta. De servi\u00e7o probo e de aproveitamento criminoso. <\/p>\n<p>A verdadeira \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 apropri\u00e1vel. Existe por si ou n\u00e3o existe. Bem sei que somos todos cidad\u00e3os e n\u00e3o s\u00fabditos. Logo, portadores de direitos e de obriga\u00e7\u00f5es. Mas antes e acima do cidad\u00e3o h\u00e1 sempre a pessoa. Com intelig\u00eancia, vontade, percep\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia. Pessoa e cidad\u00e3o s\u00e3o indissoci\u00e1veis na raz\u00e3o ontol\u00f3gica e teleol\u00f3gica da nossa individualidade. Quando se fragmentam, a \u00e9tica dissolve-se, a degrada\u00e7\u00e3o acontece, a mis\u00e9ria humana avan\u00e7a, a dignidade escasseia. Qualquer doutrina ou ideologia que contribua para a segmenta\u00e7\u00e3o daquilo que, em caso algum, n\u00e3o \u00e9 segment\u00e1vel, sucumbe mais tarde ou mais cedo. <\/p>\n<p>Diz-se que a \u00e9tica republicana consiste sobretudo em cumprir escrupulosamente a lei. J\u00e1 o fariseu era um absoluto legalista. Acontece que o conjunto das normas jur\u00eddicas e o conjunto das normas \u00e9ticas jamais coincide. H\u00e1 mat\u00e9rias reguladas pela lei que n\u00e3o exprimem qualquer ju\u00edzo \u00e9tico, como h\u00e1 muitas regras de conduta \u00e9tica que n\u00e3o est\u00e3o juridicamente plasmadas. A \u00e9tica n\u00e3o se estrutura na dicotomia legal \/ ilegal, mas radica na consci\u00eancia. O conjunto do que \u00e9 moralmente aceit\u00e1vel (o leg\u00edtimo) \u00e9 mais restrito do que \u00e9 juridicamente aceit\u00e1vel (o legal). Nem tudo o que a lei permite se nos deve impor, e h\u00e1 coisas que a lei n\u00e3o imp\u00f5e mas que se nos podem e devem impor. A pessoa tem mais deveres \u00e9ticos do que o cidad\u00e3o. A consci\u00eancia de uma pessoa honesta \u00e9 mais exigente do que o produto de um legislador. A lei \u00e9 o limite inferior da \u00e9tica. A legitima\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de umas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 politicamente relevante, mas n\u00e3o se vota sobre o que \u00e9 verdadeiro ou falso, nem sobre o bem e o mal. <\/p>\n<p>Nenhuma lei pro\u00edbe em absoluto a mentira, a desonestidade, a deslealdade, a malvadez, o \u00f3dio, o desprezo, a vilanagem\u2026 Como nenhuma lei s\u00f3 por si assegura a dec\u00eancia, a verdade, a amizade, a generosidade\u2026 <\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o faz sentido adjectivar ou catalogar a \u00e9tica: a \u00e9tica republicana, a \u00e9tica dos neg\u00f3cios, a \u00e9tica desportiva ou outra qualquer. H\u00e1 simplesmente a \u00e9tica. Pura e, n\u00e3o raro, dura. Onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para essa \u201cterceira categoria\u201d \u00e9tica dos actos indiferentes entre os actos bons e maus. <\/p>\n<p>Olhemos para a crise global que se instalou no mundo. H\u00e1 muitas explica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas mas, no fim, chegamos sempre \u00e0 escassez \u00e9tica onde a fronteira entre o bem e o mal se erodiu fortemente. Olhemos para o que se passa na governa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds, onde a verdade definha, a autenticidade escasseia, o exemplo desaparece. Onde \u00e9 conveniente separar a pessoa da fun\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o da pessoa, como se o car\u00e1cter fosse divis\u00edvel. Onde h\u00e1 faces ocultas de quem nada deveria ter a ocultar. Onde assuntos p\u00fablicos se disfar\u00e7am de privados e os ju\u00edzos \u00e9ticos n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m de um qualquer sistema sancionat\u00f3rio ou penalista. Tristes faltas de \u00e9tica. Chamem-lhe republicana ou n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9tica republicana. Como se a palavra \u00e9tica n\u00e3o valesse por si. Como se o adjectivo a valorizasse ou a aumentasse. Como se o mesmo atributo lhe desse um estatuto de uma qualquer superioridade. Agora que se comemoram os 100 anos da Rep\u00fablica a propa-lada \u00e9tica republicana promete voltar em catadupa, por mimetismo ou proselitismo. 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