{"id":9032,"date":"2007-02-22T15:44:00","date_gmt":"2007-02-22T15:44:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9032"},"modified":"2007-02-22T15:44:00","modified_gmt":"2007-02-22T15:44:00","slug":"hao-de-olhar-para-aquele-que-trespassaram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/hao-de-olhar-para-aquele-que-trespassaram\/","title":{"rendered":"&#8220;H\u00e3o-de olhar para Aquele que trespassaram&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2007 <!--more--> Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/p>\n<p>\u00abH\u00e3o-de olhar para Aquele que trespassaram\u00bb (Jo 19,37). Este \u00e9 o tema b\u00edblico que guia este ano a nossa reflex\u00e3o quaresmal. A Quaresma \u00e9 tempo prop\u00edcio para aprender a deter-se com Maria e Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo predilecto, ao lado d\u2019Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrif\u00edcio da sua vida (cf. Jo 19, 25). Portanto, dirijamos o nosso olhar com participa\u00e7\u00e3o mais viva, neste tempo de penit\u00eancia e de ora\u00e7\u00e3o, para Cristo crucificado que, morrendo no Calv\u00e1rio, nos revelou plenamente o amor de Deus. Detive-me sobre o tema do amor na Enc\u00edclica \u00abDeus caritas est\u00bb, pondo em realce as suas duas formas fundamentais: o agape e o eros.<\/p>\n<p>O amor de Deus: agape e eros<\/p>\n<p>A palavra agape, muitas vezes presente no Novo Testamento, indica o amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do pr\u00f3ximo; a palavra eros denota, ao contr\u00e1rio, o amor de quem deseja possuir o que lhe falta e anseia pela uni\u00e3o com o amado. O amor com o qual Deus nos circunda \u00e9 sem d\u00favida agape. De facto, pode o homem dar a Deus algo de bom que Ele j\u00e1 n\u00e3o possua? Tudo o que a criatura humana \u00e9 e possui \u00e9 dom divino: \u00e9, portanto, a criatura que tem necessidade de Deus em tudo. Mas o amor de Deus \u00e9 tamb\u00e9m eros. No Antigo Testamento, o Criador do universo mostra para com o povo que escolheu uma predilec\u00e7\u00e3o que transcende qualquer motiva\u00e7\u00e3o humana. O profeta Oseias expressa esta paix\u00e3o divina com imagens audazes, como a do amor de um homem por uma mulher ad\u00faltera (cf. 3,1-3); Ezequiel, por seu lado, falando do relacionamento de Deus com o povo de Israel, n\u00e3o receia utilizar uma linguagem fervorosa e apaixonada (cf. 16,1-22). Estes textos b\u00edblicos indicam que o eros faz parte do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de Deus: o Omnipotente aguarda o \u00absim\u00bb das suas criaturas como um jovem esposo o da sua esposa. Infelizmente, desde as suas origens, a humanidade, seduzida pelas mentiras do Maligno, fechou-se ao amor de Deus, na ilus\u00e3o de uma imposs\u00edvel auto-sufici\u00eancia (cf. Gn 3,1-7). Fechando-se em si mesmo, Ad\u00e3o afastou-se daquela fonte de vida que \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, e tornou-se o primeiro daqueles \u00abque, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos \u00e0 escravid\u00e3o\u00bb (Hb 2, 15). Deus, contudo, n\u00e3o se deu por vencido; ali\u00e1s o \u00abn\u00e3o\u00bb do homem foi como que o est\u00edmulo decisivo que o levou a mani-festar o seu amor em toda a sua for\u00e7a redentora.<\/p>\n<p>A Cruz revela a plenitude <\/p>\n<p>do amor de Deus<\/p>\n<p>\u00c9 no mist\u00e9rio da Cruz que se revela plenamente o poder incont\u00edvel da miseric\u00f3rdia do Pai celeste. Para reconquistar o amor da sua criatura, Ele aceitou pagar um pre\u00e7o elevad\u00edssimo: o sangue do seu Filho Unig\u00e9nito. A morte, que para o primeiro Ad\u00e3o era sinal extremo de solid\u00e3o e de incapacidade, transformou-se, assim, no acto supremo de amor e de liberdade do novo Ad\u00e3o. Pode-se ent\u00e3o afirmar, com S\u00e3o M\u00e1ximo, o Confessor, que Cristo \u00abmorreu, se assim se pode dizer, divinamente, porque morreu livremente\u00bb (Ambigua, 91, 1956). Na Cruz manifesta-se o eros de Deus por n\u00f3s. Eros \u00e9, de facto, \u2013 como se expressa o Pseudo Dion\u00edsio \u2013 aquela \u00abfor\u00e7a que n\u00e3o permite que o amante permane\u00e7a em si mesmo, mas o estimula a unir-se ao amado\u00bb (\u00abDe divinis nominibus\u00bb, IV, 13: PG 3, 712). Qual \u00aberos mais insensato\u00bb (N. Cabasilas, \u00abVita in Cristo\u00bb, 648) do que aquele que levou o Filho de Deus a unir-se a n\u00f3s at\u00e9 ao ponto de sofrer como pr\u00f3prias as consequ\u00eancias dos nossos delitos?<\/p>\n<p>\u00abAquele que trespassaram\u00bb<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, olhemos para Cristo trespassado na Cruz! \u00c9 Ele a revela\u00e7\u00e3o mais perturbadora do amor de Deus, um amor em que eros e agape, longe de se contraporem, se iluminam reciprocamente. Na Cruz \u00e9 o pr\u00f3prio Deus que mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de n\u00f3s. O ap\u00f3stolo Tom\u00e9 reconheceu Jesus como \u00abSenhor e Deus\u00bb, quando colocou o dedo na ferida do seu lado. N\u00e3o surpreende que, entre os santos, muitos tenham encontrado no Cora\u00e7\u00e3o de Jesus a express\u00e3o mais comovedora deste mist\u00e9rio de amor. Poder-se-ia at\u00e9 dizer que a revela\u00e7\u00e3o do eros de Deus ao homem \u00e9, na realidade, a express\u00e3o suprema do seu agape. Na verdade, s\u00f3 o amor no qual se unem o dom gratuito de si e o desejo apaixonado de reciprocidade infunde um enlevo que torna leves os sacrif\u00edcios mais pesados. Jesus disse: \u00abE Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim\u00bb (Jo 12, 32). A resposta que o Senhor deseja ardentemente de n\u00f3s \u00e9, antes de tudo, que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros: Cristo \u00abatrai-me para si\u00bb para se unir comigo, para que eu aprenda a amar os irm\u00e3os com o seu mesmo amor.<\/p>\n<p>Sangue e \u00e1gua<\/p>\n<p>\u00abH\u00e3o-de olhar para Aquele que trespassaram\u00bb. Olhemos com confian\u00e7a para o lado trespassado de Jesus, do qual brotam \u00absangue e \u00e1gua\u00bb (Jo 19, 34)! Os Padres da Igreja consideraram estes elementos como s\u00edmbolos dos sacramentos do Baptismo e da Eucaristia. Com a \u00e1gua do Baptismo, gra\u00e7as \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, abre-se para n\u00f3s a intimidade do amor trinit\u00e1rio. No caminho quaresmal, recordando o nosso Baptismo, somos exortados a sair de n\u00f3s pr\u00f3prios e a abrir-nos, num abandono confiante, ao abra\u00e7o misericordioso do Pai (cf. S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, \u00abCatechesi\u00bb, 3, 14 ss.). O sangue, s\u00edmbolo do amor do Bom Pastor, flui em n\u00f3s especialmente no mist\u00e9rio eucar\u00edstico: \u00abA Eucaristia atrai-nos para o acto oblativo de Jesus&#8230; somos envolvidos na din\u00e2mica da sua doa\u00e7\u00e3o\u00bb (Enc. \u00abDeus caritas est\u00bb, 13). Vivamos ent\u00e3o a Quaresma como um tempo \u00abeucar\u00edstico\u00bb, no qual, acolhendo o amor de Jesus, aprendemos a difundi-lo \u00e0 nossa volta com todos os gestos e palavras. Contemplar \u00abAquele que trespassaram\u00bb estimular-nos-\u00e1, desta forma, a abrir o cora\u00e7\u00e3o aos outros reconhecendo as feridas provocadas \u00e0 dignidade do ser humano; impulsionar-nos-\u00e1, sobretudo, a combater qualquer forma de desprezo da vida e de explora\u00e7\u00e3o da pessoa e a aliviar os dramas da solid\u00e3o e do abandono de tantas pessoas. A Quaresma seja para cada crist\u00e3o uma experi\u00eancia renovada do amor de Deus que nos foi dado em Cristo, amor que todos os dias devemos, por nossa vez, \u00abdar novamente\u00bb ao pr\u00f3ximo, sobretudo a quem mais sofre e \u00e9 necessitado. S\u00f3 assim poderemos participar plenamente da alegria da P\u00e1scoa. Maria, a M\u00e3e do Belo Amor, nos guie neste itiner\u00e1rio quaresmal, caminho de convers\u00e3o aut\u00eantica ao amor de Cristo. Desejo a v\u00f3s, queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, um caminho quaresmal proveitoso, enquanto com afecto envio a todos uma especial B\u00ean\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2007<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-9032","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9032\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}