{"id":9054,"date":"2007-02-22T16:26:00","date_gmt":"2007-02-22T16:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9054"},"modified":"2007-02-22T16:26:00","modified_gmt":"2007-02-22T16:26:00","slug":"a-casa-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-casa-velha\/","title":{"rendered":"A casa velha"},"content":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria do Futuro <!--more--> Era uma vez uma cidade que n\u00e3o tinha casas velhas; a cidade era bonita e airosa e, por isso, n\u00e3o admitia nada que destoasse da concep\u00e7\u00e3o que para ela os artistas tinham programado. Dum lado e doutro de ruas e avenidas, s\u00f3 se erguiam casas bem arquitectadas, a sugerir que outros edif\u00edcios fora de linha n\u00e3o tinham ali cabimento.<\/p>\n<p>Um dia, pela calada da lei, entrou na cidade um grupo de forasteiros que estranhou a arruma\u00e7\u00e3o da cidade e n\u00e3o encontrou s\u00edtio de paragem; tudo era, de facto, estranho!<\/p>\n<p>Na coragem de quem se sente no direito de viver ou, ao menos, de sobreviver, puxam pela coragem de tentar activar os sistemas de alarme das casas novas e belas. De dentro, s\u00f3 ouvem vozes estranhas que indicam outros alarmes, que ficam noutras casas e noutras ruas; talvez l\u00e1 encontrem pessoas&#8230;<\/p>\n<p>Foi assim que os forasteiros, de porta em porta, sempre encontraram o que pretendiam: uma casa velha, que tinha escapado aos artistas que faziam e refaziam a cidade; foi o maior achado da sua vida de peregrinos, sem eira nem beira, onde poder\u00e3o assentar arraiais e, finalmente, dormir e poder sonhar. Dali poder\u00e3o entrar e sair sempre que queiram, podem regressar \u00e0 hora que quiserem, podem at\u00e9 alimentar algumas ilus\u00f5es, lado a lado com outros seus semelhantes, tamb\u00e9m j\u00e1 desesperados de tantas respostas inconsequentes; est\u00e3o felizes na casa velha, que quase j\u00e1 \u00e9 sua.<\/p>\n<p>At\u00e9 ali, ningu\u00e9m tinha dado conta da exist\u00eancia daquele albergue, que lhes fez a miseric\u00f3rida do acolhimento, coisa que os entendidos ainda n\u00e3o puderam resolver.<\/p>\n<p>Como a cidade era bonita e airosa, n\u00e3o concebia que pudesse nela existir uma casa velha, ainda por cima com estranhos a habit\u00e1-la, que entravam e sa\u00edam quando queriam e davam um mau ar \u00e0 cidade bonita e airosa.<\/p>\n<p>Quando menos se esperava, os sinos das torres dos templos tocaram a rebate; os altifalantes come\u00e7aram a emitir mensagens de alarme; os senhores da cidade d\u00e3o conta da exist\u00eancia de uma casa velha e re\u00fanem de emerg\u00eancia; quem n\u00e3o sabia ficou a saber; h\u00e1 unanimidade indiscut\u00edvel; estudam-se programas; tomam-se solu\u00e7\u00f5es. E tamb\u00e9m um dia, na calada da impiedade, os mesmos sinos repicam festivamente, os altifalantes proclamam vit\u00f3rias, convoca-se o povo, trazem-se as m\u00e1quinas&#8230; e come\u00e7a o espect\u00e1culo: poucos minutos s\u00e3o suficientes para limpar a cidade; e a casa velha deixou de parecer mal aos fazedores de casas novas, aos programadores de cidades lindas e airosas, porque agora temos uma pra\u00e7a, onde podem ser plantadas oliveiras e palmeiras. Acabou a hist\u00f3ria da casa velha. Alguns habitantes tamb\u00e9m gostaram muito.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Passados s\u00e9culos e s\u00e9culos, os historiadores recordavam, em v\u00e3o, a exist\u00eancia da casa velha; todos falavam dos estranhos, seus inquilinos, que agora n\u00e3o tinham onde dormir, conversar e sonhar, alguns identificavam-nos por cima de papel\u00f5es a contemplar estrelas que sugerem poemas escritos na dor, no frio e na saudade, que nunca ningu\u00e9m ler\u00e1; outros perfilavam-se para ganhar vez no refeit\u00f3rio dos pobres; tamb\u00e9m se falava de uns quantos que pararam numa casa de reclus\u00e3o, por brigas e pequenos furtos de sobreviv\u00eancia; uma boa parte refugiava-se nas drogas autorizadas, para disfar\u00e7ar dores e saudades. Tudo agravado, diziam alguns observadores, porque a casa nunca fora substitu\u00edda por outra qualquer casa, que abrigasse dos temporais e fortes nortadas que por l\u00e1 se faziam sentir.<\/p>\n<p>Nessa cidade das ilus\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 edif\u00edcios a incomodar. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nenhum tecto nem nenhuma muralha nova que abrigue de chuvas e ventos. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade, diga-se, que a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era criar gente para a rua; era s\u00f3, e apenas, dar um rosto mais bonito e airoso \u00e0 cidade do futuro. E alguns cora\u00e7\u00f5es pensavam e comentavam \u00e0 boca pequena: \u201cde facto, \u00e9 mais f\u00e1cil reconstruir uma cidade do que reconstruir uma pessoa!\u201d E todos diziam: \u201cAgora, com a nossa cidade t\u00e3o bonita e airosa, s\u00f3 falta mesmo pensar mais nas pessoas\u201d.<\/p>\n<p>P.S. Aos que entenderam a \u201cHist\u00f3ria do Futuro\u201d, pe\u00e7o desculpa por n\u00e3o ter sido claro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria do Futuro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-9054","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9054\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}