{"id":9057,"date":"2007-02-22T16:29:00","date_gmt":"2007-02-22T16:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9057"},"modified":"2007-02-22T16:29:00","modified_gmt":"2007-02-22T16:29:00","slug":"modernidade-de-que-tanto-se-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/modernidade-de-que-tanto-se-fala\/","title":{"rendered":"Modernidade de que tanto se fala"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos recebi, a seu pedido, um jornalista de um jornal di\u00e1rio. Come\u00e7ou por uma pergunta, para mim sem p\u00e9s nem cabe\u00e7a. Por delicadeza, tentei perceber e ir respondendo, mas logo fui por ele interpelado, perguntando-me se eu n\u00e3o sabia o que era a modernidade. Sem inten\u00e7\u00e3o de magoar ou humilhar, perguntei-lhe, por minha vez, o que \u00e9 que ele entendia por modernidade, porque, sabendo-o eu, perceberia talvez a que prop\u00f3sito vinha a sua interven\u00e7\u00e3o. Assim nos pod\u00edamos entender e tornar poss\u00edvel, entre n\u00f3s, um di\u00e1logo v\u00e1lido. Retorquiu-me, incomodado, que o entrevistador era ele e n\u00e3o tinha que me dar nem explica\u00e7\u00f5es, nem respostas. Conclu\u00ed que o bom do homem, com aquele inc\u00f3modo e arrog\u00e2ncia, n\u00e3o sabia nem fazia a m\u00ednima ideia do que dizia, quando falava de modernidade. Apenas trazia consigo, bem forte, o preconceito de que a Igreja era contra\u2026<\/p>\n<p>Tenho, agora, a mesma sensa\u00e7\u00e3o, quando ou\u00e7o perorar, com entusiasmo, ministros e seus ajudantes, deputados e analistas, jornalistas e pol\u00edticos de primeira linha, e at\u00e9 professores e cidad\u00e3os que se presumem de eruditos. Sempre todos em grande conson\u00e2ncia. A torto e a direito, falam sobre assuntos diversos, n\u00e3o esquecendo, porque d\u00e1 estatuto, de se referirem \u00e0 modernidade e suas exig\u00eancias. Muitos a traduzem por um laicismo ser\u00f4dio, que quer atirar a Igreja para a sacristia, acordar velhas lutas e tirar-lhe qualquer influ\u00eancia na vida das pessoas e da sociedade. Alguns v\u00e3o mais longe, porque nunca deram o salto no tempo de modo a purificar as tens\u00f5es, fazendo perdurar as divis\u00f5es de pensar e de agir, como se o mundo tivesse parado ou se reduzisse para sempre a dois blocos incomunic\u00e1veis, sempre dispostos a denegrir-se e a atacar-se mutuamente, na esperan\u00e7a de que algum deles morra ou desista primeiro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria diz-nos que a afirma\u00e7\u00e3o de um pensamento aut\u00f3nomo, quer religioso quer pol\u00edtico, que est\u00e1 na origem da modernidade, nasceu como oposi\u00e7\u00e3o a uma Igreja, demasiadamente influente nos povos da Europa, com falhas nos processos de rela\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00f5es que extravasavam o sagrado. Embora o diagn\u00f3stico tivesse alguma objectividade, o movimento n\u00e3o foi facilmente aceite pela gente da Igreja, por raz\u00f5es que a hist\u00f3ria explica. As reac\u00e7\u00f5es iam provocando novas tens\u00f5es num mundo \u00e1vido de autonomia. E, como a dogmatismos inc\u00f3modos se iam contrapondo outros que o n\u00e3o eram menos, a serenidade, para reflectir sobre os caminhos andados e projectar os futuros, n\u00e3o foi muita. <\/p>\n<p>Deste modo, a Igreja foi sendo considerada empecilho do mundo novo que come\u00e7ava a nascer, com outros crit\u00e9rios e projectos. Esta ideia foi vingando. O poder pol\u00edtico que surgia na Europa, por vezes com novas alian\u00e7as religiosas contr\u00e1rias ao catolicismo, foi carregando, as cores, o pensamento filos\u00f3fico que gerara a primeira ideia e a alimentava; estas deram suporte a movimentos pol\u00edticos diversos que, impacientes ou com outros ventos no bojo, optaram pela persegui\u00e7\u00e3o e pela decis\u00e3o de exterm\u00ednio da Igreja e da sua anterior influ\u00eancia hist\u00f3rica. Vit\u00f3rias passageiras, porque, n\u00e3o obstante as falhas ineg\u00e1veis, n\u00e3o se apagam s\u00e9culos de cultura, de promo\u00e7\u00e3o social e de desenvolvimento variado. Mas foram ficando marcas, acumulando-se preconceitos e sonhados, irreversivelmente, novos projectos de sociedade.   <\/p>\n<p>Jo\u00e3o XXIII, por terras onde andara antes de eleito, vivera experi\u00eancias diversas de tens\u00f5es, pol\u00edticas e religiosas. Secundando gestos importantes de antecessores, toma a decis\u00e3o prof\u00e9tica de um conc\u00edlio que ajude a Igreja a converter-se ao Evangelho das origens e a tentar a reconcilia\u00e7\u00e3o com o mundo, dado que \u00e9 sua voca\u00e7\u00e3o servi-lo. Abrem-se, ent\u00e3o, caminhos novos de reconhecimento da leg\u00edtima secularidade, da vantagem do di\u00e1logo aberto da Igreja com as realidades terrestres. A modernidade traz consigo um apoio \u00e0 personaliza\u00e7\u00e3o, um direito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e ao pluralismo. N\u00e3o permite, por\u00e9m, sem perigo de perdas graves, o apagamento da hist\u00f3ria, a subvers\u00e3o dos valores, da \u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es, a protec\u00e7\u00e3o social de uns, em detrimento de outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos recebi, a seu pedido, um jornalista de um jornal di\u00e1rio. Come\u00e7ou por uma pergunta, para mim sem p\u00e9s nem cabe\u00e7a. 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