{"id":9079,"date":"2007-03-01T14:50:00","date_gmt":"2007-03-01T14:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9079"},"modified":"2007-03-01T14:50:00","modified_gmt":"2007-03-01T14:50:00","slug":"persistencia-e-futuro-da-paroquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/persistencia-e-futuro-da-paroquia\/","title":{"rendered":"Persist\u00eancia e futuro da par\u00f3quia"},"content":{"rendered":"<p>A institui\u00e7\u00e3o paroquial tem de aprender da sua hist\u00f3ria a saber renovar-se a tempo e assimilar, sem ingenuidades ou falsos preconceitos, os valores seculares condizentes com o Evangelho que ela tantas vezes comporta, apregoa e aprecia.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia da par\u00f3quia ao longo da hist\u00f3ria d\u00e1 azo a diversas leituras, por vezes cruzadas e antag\u00f3nicas, das quais importa destacar duas: a de quem aprecia os valores tradicionais e a de quem, aberto aos ares da modernidade, prefere real\u00e7ar os dados novos que emergem, de forma contrastante com o passado, e provocam um modo de pensar e viver orientados por outras refer\u00eancias culturais.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil de substituir<\/p>\n<p>Parece ser consensual que as tentativas de substitui\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia por outra organiza\u00e7\u00e3o eclesial t\u00eam sido infrut\u00edferas, mesmo quando se trata de fraternidades apost\u00f3licas ou de comunidades crist\u00e3s de base, fruto de caminhadas b\u00edblicas, de catecumenados de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3, de movimentos de busca e interven\u00e7\u00e3o. A refer\u00eancia a um horizonte mais amplo \u2013 em que se articulem na unidade as leg\u00edtimas diversidades, expressando e gerando a comunh\u00e3o \u2013, vem criar exig\u00eancias organizativas que, \u201ccom nome ou sem ele\u201d, passam pela par\u00f3quia, enquanto comunidade institu\u00edda no seio da Igreja diocesana.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o faz-nos ver com mais aten\u00e7\u00e3o e rigor a institui\u00e7\u00e3o paroquial, detectar a sua rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente, captar a m\u00fatua interfer\u00eancia de ambos, compreender o alcance de certas an\u00e1lises nem sempre isentas de preconceitos, discernir crit\u00e9rios e perspectivas que prevalecem em algumas leituras mais divulgadas.<\/p>\n<p>Vivendo a reciprocidade com um meio conservador e fechado, mantendo a tradi\u00e7\u00e3o e a ordem como valores mais destacados, cultivando a rela\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a e da honra como forma de controle social, prezando a uniformidade p\u00fablica como regra de comportamento \u00e9tico normal, apostando na fam\u00edlia como meio mais comum de transmiss\u00e3o de costumes inspirados na religi\u00e3o e, por vezes, como espa\u00e7o mais natural para a educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9, que imagem de si mesma podia projectar a par\u00f3quia sen\u00e3o a de uma institui\u00e7\u00e3o que se identifica com a popula\u00e7\u00e3o civil que simultaneamente \u00e9 crist\u00e3? A origem sem\u00e2ntica das palavras aponta nesse sentido. Freguesia \u00e9 o conjunto dos filhos da Igreja. Par\u00f3quia \u00e9 o aglomerado de pessoas, mais ou menos relacionadas, peregrinas, que demandam um futuro diferente, uma terra e p\u00e1tria comuns.<\/p>\n<p>Nova cultura, nova configura\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A par\u00f3quia tradicional configura-se num quadro de valores que formaram her\u00f3is e santos, homens e mulheres de nobres sentimentos e grandes capacidades, gente humilde de sabedoria provada na vida e resistente \u00e0 intemp\u00e9rie a que estava sujeita, jovens que sonham e realizam ideais de not\u00e1vel grandeza e generosidade. Correspondeu a uma \u00e9poca hist\u00f3rica, que parece ter passado definitivamente. <\/p>\n<p>As vozes da modernidade foram cavando os alicerces em que a cultura paroquial assentava. A hist\u00f3ria voou r\u00e1pida e, agora, o ambiente em que surgiram as contesta\u00e7\u00f5es mais fortes \u00e9 frequentemente esquecido e adulterado; tamb\u00e9m a honestidade de sentimentos e a honradez de palavra que constituem a \u201catitude de fundo\u201d de quem ousa dissentir s\u00e3o preteridas e, em sua vez, surgem adulteradas afirma\u00e7\u00f5es de disc\u00f3rdia e avolumados actos de hostilidade. E s\u00e3o estes, predominantemente, os paradigmas difundidos com exageros descontextualizados.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II, num gesto prof\u00e9tico sem precedentes, assume a atitude p\u00fablica de pedir perd\u00e3o \u00e0 humanidade pelas tropelias e pecados que a Igreja havia cometido. F\u00ea-lo, n\u00e3o como espect\u00e1culo, mas como fruto de uma nova rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia humana universal, sobretudo aquela que foi mais ferida nas \u201cnoites sombrias\u201d do pensamento \u00fanico imposto. Infelizmente, ningu\u00e9m mais teve coragem de imitar tal nobreza de sentimentos e assumir os erros dos respons\u00e1veis que governaram povos dizimados, os desvios das ci\u00eancias que cometeram atrocidades nas investiga\u00e7\u00f5es, a destrui\u00e7\u00e3o da natureza de tantos que se afirmaram seus \u201csenhores\u201d.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia \u00e9 o povo que vive este cruzar de influ\u00eancias e molda o seu modo de ser e estar na sociedade civil. Esta, progressivamente, vai ganhando consist\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o e poder de afirma\u00e7\u00e3o. E muito lhe falta andar, pois \u00e9 ainda reduzida a sua consci\u00eancia c\u00edvica, notoriamente d\u00e9bil o seu tecido associativo, claramente deficiente a cota de valores m\u00ednimos consensuais, ostensivamente manipulada por meios que filtram a informa\u00e7\u00e3o por processos sofisticados ou nem tanto.<\/p>\n<p>Liberta de fun\u00e7\u00f5es passadas<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es que sobrecarregam a institui\u00e7\u00e3o paroquial facilita-lhe a concentra\u00e7\u00e3o no fundamental da sua miss\u00e3o. O poder pol\u00edtico exigiu o controle da popula\u00e7\u00e3o pelo registo dos nascimentos e dos \u00f3bitos, conseguiu chamar a si a legisla\u00e7\u00e3o sobre o casamento e a escola, assenhoreou-se de bens pertencentes a organiza\u00e7\u00f5es religiosas, pretendeu erigir como sua tarefa exclusiva o bem estar da na\u00e7\u00e3o, decretando a separa\u00e7\u00e3o ostensiva da Igreja e movendo a persegui\u00e7\u00e3o a quem destoasse do novo pensamento \u00fanico. E prossegue com a sua pretens\u00e3o mais global: moldar o cidad\u00e3o e formatar a sociedade no quadro do novo pensamento \u00fanico, materialista, agn\u00f3stico e laicista.  <\/p>\n<p>A par\u00f3quia est\u00e1 mais livre para ser Igreja local no meio do povo, para ir ao encontro das pessoas e sintonizar com as suas situa\u00e7\u00f5es, para abrir horizontes \u00e0 festa e ao divertimento humano, para acompanhar os migrantes de toda a esp\u00e9cie, para \u201cdar a m\u00e3o\u201d aos feridos da vida, para estar na sociedade de forma interventiva com a sabedoria do Crucificado e a paix\u00e3o do Ressuscitado. <\/p>\n<p>A hegemonia da cultura predominante, e com tend\u00eancias para se acentuar, exige necessariamente que a institui\u00e7\u00e3o paroquial aprenda da sua hist\u00f3ria a saber renovar-se a tempo e assimile, sem ingenuidades ou falsos preconceitos, os valores seculares condizentes com o Evangelho que ela tantas vezes comporta, apregoa e aprecia. Exige, igualmente, a ousadia de propor, sem medo e com acerto, a novidade contrastante de Jesus Cristo, o \u201cmodelo\u201d humano mais qualificado para ser pessoa e conviver em sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A institui\u00e7\u00e3o paroquial tem de aprender da sua hist\u00f3ria a saber renovar-se a tempo e assimilar, sem ingenuidades ou falsos preconceitos, os valores seculares condizentes com o Evangelho que ela tantas vezes comporta, apregoa e aprecia. 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