{"id":9121,"date":"2007-03-01T16:20:00","date_gmt":"2007-03-01T16:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9121"},"modified":"2007-03-01T16:20:00","modified_gmt":"2007-03-01T16:20:00","slug":"misticismo-uma-moda-ou-um-grito-de-sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/misticismo-uma-moda-ou-um-grito-de-sobrevivencia\/","title":{"rendered":"Misticismo, uma moda ou um grito de sobreviv\u00eancia?"},"content":{"rendered":"<p>O tempo \u00e9 de contrastes. Por um lado, viol\u00eancia, barulho, atordoamento e o navegar no vazio ou no superficial, que diverte e n\u00e3o exige nem pede nada. Por outro lado, grupos de jovens e de adultos, de todos os lugares e continentes, deslocam-se e encontram-se, ciclicamente, em lugares convidativos para rezar, para experimentar a eloqu\u00eancia do sil\u00eancio e olhar, serenamente, para dentro, j\u00e1 que por fora n\u00e3o h\u00e1 qualquer novidade que prenda ou interesse.<\/p>\n<p>Num clima de modernidade empobrecida, em que tudo se apresenta como passageiro e descart\u00e1vel, n\u00e3o falta gente a denunciar o vazio reinante e a procurar o essencial, o permanente, o que d\u00e1 seguran\u00e7a e sentido.<\/p>\n<p>N\u00e3o interessa dizer qual o grupo mais numeroso. No compulsar do cora\u00e7\u00e3o e no caminho de procura exigente da verdade e do bem, o n\u00famero n\u00e3o \u00e9 a melhor medida da realidade, nem o melhor crit\u00e9rio para aquilatar do seu valor. Nas democracias, o n\u00famero \u00e9 decisivo, mas, tamb\u00e9m, por isso, se sente a fraqueza de um sistema que, apesar de tudo, ainda \u00e9, no reconhecimento dos direitos e na possibilidade de participa\u00e7\u00e3o, o menos mau. Mas, no restante da vida, o n\u00famero pode marcar apenas o mundo dos interesses para aqueles que com ele sossegam, se contentam e beneficiam.<\/p>\n<p>O misticismo, como forma de interioriza\u00e7\u00e3o e de procura profunda da vida que circula nas ra\u00edzes do nosso ser, tem a express\u00e3o da total gratuidade quanto ao tempo, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e aos trabalhos realizados. <\/p>\n<p>Achei curioso, e n\u00e3o me escandalizei nem estranhei, ao ler palavras do realizador do filme \u201c O grande sil\u00eancio\u201d. Contava ele que, ao pedir autoriza\u00e7\u00e3o para filmar dentro do grande Convento da Cartuxa de Grenoble, o abade lhe disse que teria de esperar quinze anos para que tal lhe fosse permitido\u2026 Fora do clima da vida dos monges, esta resposta parece rid\u00edcula e pouco respeitadora. Assim n\u00e3o o entendeu o cineasta e a sua paciente e compreens\u00edvel espera fez que o tempo lhe fosse encurtado\u2026<\/p>\n<p>Estou cada vez mais convicto de que o misticismo, ou seja, o regresso ao espiritual e ao sagrado, nos tempos que correm, n\u00e3o \u00e9 uma moda, mas, antes, um grito profundo que muitos j\u00e1 n\u00e3o conseguem calar e para o qual procuram resposta que os situe numa vida consequente, com progressivo sentido e novos horizontes. <\/p>\n<p>O deserto tamb\u00e9m \u00e9 f\u00e9rtil, como o sil\u00eancio \u00e9 eloquente. Depende da atitude de quem, livremente, se mete pelo deserto, ou de quem se entrega, voluntariamente, ao sil\u00eancio. <\/p>\n<p>Em tempos idos, eram os padres e os religiosos que faziam dias de retiro espiritual em sil\u00eancio, deixando os trabalhos do dia a dia, para depois regressarem com mais coragem a enfrentar as exig\u00eancias que os mesmos n\u00e3o dispensam. Hoje, s\u00e3o jovens e adultos, homens e mulheres, casais e idosos, doentes e s\u00e3os, intelectuais e rurais, os que cortam com a vida normal por uns dias, para mergulharem na ora\u00e7\u00e3o e na reflex\u00e3o. Nenhuma aliena\u00e7\u00e3o. Essa poder\u00e1 acontecer na assist\u00eancia ao jogo desportivo, n\u00e3o na procura livre de um espa\u00e7o de respira\u00e7\u00e3o e alimento do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>A nostalgia de Deus, bem como a necessidade de confronto de uma vida desgastante com um ideal que a supera, s\u00e3o mais frequentes do que se pode imaginar. Quem acordou para que, a tempo, o possa verificar e agir em consequ\u00eancia, j\u00e1 exorcizou, por si, os t\u00e3o frequentes esgotamentos de que muitos se queixam. O esgotamento \u00e9 a nova epidemia de quem restringe a vida a quadros fechados e restritivos e deixou de olhar horizontes mais largos. Assim, tudo fica reduzido aos limites de uma vida empobrecida por dentro.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m procura o enriquecimento espiritual porque \u00e9 moda. Muitos o procuram para poderem, de novo, ser os condutores l\u00facidos de si pr\u00f3prios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo \u00e9 de contrastes. Por um lado, viol\u00eancia, barulho, atordoamento e o navegar no vazio ou no superficial, que diverte e n\u00e3o exige nem pede nada. 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