{"id":9123,"date":"2007-03-07T14:58:00","date_gmt":"2007-03-07T14:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9123"},"modified":"2007-03-07T14:58:00","modified_gmt":"2007-03-07T14:58:00","slug":"a-alegria-do-servico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-alegria-do-servico\/","title":{"rendered":"A alegria do servi\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Cartas dos Leitores <!--more--> N\u00e3o sei se \u00e9 uma m\u00e1xima, ou uma inven\u00e7\u00e3o pessoal, o que vou dizer a seguir: \u201cquem n\u00e3o vive para servir, n\u00e3o serve para viver\u201d.<\/p>\n<p>Parece sacr\u00edlega a afirma\u00e7\u00e3o, se interpretada \u00e0 letra. De facto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma circunst\u00e2ncia que possa fazer depender a vida de um crit\u00e9rio meramente utilit\u00e1rio. A vida \u00e9 muito mais do que isso, porque assenta numa dignidade original que lhe confere ess\u00eancia transcendental. O valor da vida deriva do facto de cada pessoa ter sido criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a  de Deus. Tem, por isso mesmo, uma valora\u00e7\u00e3o \u00e9tica e n\u00e3o s\u00f3, pois se torna princ\u00edpio e medida de todas as formula\u00e7\u00f5es \u00e9ticas.<\/p>\n<p>Sendo, por\u00e9m, dom e tarefa, ela torna-nos cooperadores activos do plano criador de Deus. A forma como fomos criados e os termos utilizados pelo Criador nesse momento induzem-nos a pensar assim. Povoar a terra, crescer e multiplicar, s\u00e3o verbos fortes, transitivos, que significam e exigem dinamismo, ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto e com essa inten\u00e7\u00e3o que a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 feita. Servir nada tem a ver com servilismo ou executar tarefas menores, que a maioria das pessoas tem relut\u00e2ncia em fazer. Servir \u00e9 tamb\u00e9m um verbo muito rico, transitivo, embora s\u00f3 os \u201cpobres\u201d o saibam conjugar em todos os tempos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fala de \u00e2nimo leve em servir e servi\u00e7o, sem evocar e invocar uma palavra derivada: Servo!<\/p>\n<p>Servo foi Aquele que, sendo rico, se despojou de tudo; sendo poderoso (o mais poderoso de todos os reis), se fez d\u00e9bil; O que, podendo ter legi\u00f5es ao seu servi\u00e7o, preferiu servir a todos; O que por direito poderia ter nascido num pal\u00e1cio, mas veio ao mundo num est\u00e1bulo de animais; O que, podendo morrer medicado e assistido numa cama de hospital, tranquilizado com analg\u00e9sicos, morreu pregado numa cruz.<\/p>\n<p>Disse Ele um dia aos seus amigos, face \u00e0 apet\u00eancia que mostravam para ocupar os primeiros lugares: \u00abAquele que entre v\u00f3s quiser ser o primeiro, torne-se servo de todos\u00bb. O mais intrigante \u00e9 que ostentava sempre uma grande alegria e entusiasmo, sobretudo nos momentos em que punha os seus dons e capacidades ao servi\u00e7o daqueles que precisavam dele, e tantos foram!&#8230;<\/p>\n<p>Dizia Ele que fazia a vontade do Pai, sempre que agia assim! E que esse trabalho sem descanso constitu\u00eda a legitimidade da Sua vida e miss\u00e3o. Ele disse-o de uma maneira muito mais profunda: \u00abO meu alimento \u00e9 fazer a vontade do meu Pai\u00bb Nessa miss\u00e3o, encontrou coragem, discernimento e sentido para a Sua vida. A verdade, palavra t\u00e3o dif\u00edcil de praticar e p\u00f4r a nu nos dias de hoje, desenvolve-se nessa percep\u00e7\u00e3o e na consci\u00eancia que Ele tem do servi\u00e7o. \u00abSe nasci, se vim ao mundo, foi para dar testemunho da verdade\u00ab. No seu af\u00e3 de servir, nem sequer tinha tempo e lugar para \u201creclinar a cabe\u00e7a\u201d. O seu campo de ac\u00e7\u00e3o era o homem todo e todos os homens, judeus ou gentios: \u00abTenho pena desta gente que anda por a\u00ed como ovelhas sem pastor\u00bb.<\/p>\n<p>A palavra servi\u00e7o \u201cmercenarizou-se\u201d. Mais dia, menos dia, adquirir\u00e1 outro sentido bem diferente daquele que lhe deu o Servo dos servos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso redescobrir a natureza do servi\u00e7o, a verdade do servir, a alegria no servir!&#8230; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Jesus Cristo reorientou a \u00f3ptica do servi\u00e7o para a inten\u00e7\u00e3o com que Deus criou e ordenou o cosmos. Por causa do Homem e para o Homem se empenhou o Criador, associando a mais bela criatura ao Seu projecto. Rodeou o Homem de predicados: intelig\u00eancia, liberdade, poder&#8230; e deu-lhe uma miss\u00e3o que acompanha a hist\u00f3ria, abrindo-lhe os horizontes do servi\u00e7o ao dinamismo daqueles verbos a que atr\u00e1s referi (povoar a terra, crescer, multiplicar).<\/p>\n<p>O servi\u00e7o \u00e9 a forma, por excel\u00eancia, de objectivar a comunh\u00e3o, de promover a igual dignidade da pessoa humana, subjugando os bens materiais a esse des\u00edgnio, de acordo com o destino universal de todas as coisas criadas.<\/p>\n<p>Neste contexto, tanto os bens materiais como as capacidades pessoais s\u00e3o patrim\u00f3nio de todos e, por isso, cada um depende, para ser feliz e realizar-se, do empenhamento oblativo de cada um. Todos dependem do trabalho de cada um e cada um depende do trabalho de todos.<\/p>\n<p>O melhor modelo para entendermos o que antecede, encontramo-lo na comunh\u00e3o \u00edntima do mist\u00e9rio de Deus. Na d\u00e1diva total das tr\u00eas pessoas umas \u00e0s outras, na sua reciprocidade \u201cpericor\u00e9tica\u201d \u00e9 que se realiza a Unidade. A Trindade \u00e9 tanto mais percept\u00edvel e afirmativa quanto mais cada pessoa se distinguir dando-se, ou seja, servindo. Ao sair de si, para dar-se totalmente ao outro, a fim de que o outro seja, h\u00e1 um enriquecimento e um auto-conhecimento rec\u00edprocos que se traduz na comum uni\u00e3o (Comunh\u00e3o = Unidade). \u00c9 um dar-se enriquecedor, uma esp\u00e9cie de aniquilamento (kenose), que se compraze na alegria do servi\u00e7o; nesse ser para o outro, com o outro, no outro, por causa do outro&#8230;, cada pessoa encontra a sua raz\u00e3o de viver.<\/p>\n<p>Como estamos longe desta \u00f3ptica de servir!&#8230; Mas \u00e9 sempre bom n\u00e3o esquecer que a felicidade passar\u00e1 por a\u00ed, se quisermos aderir ao Reino dos C\u00e9us que Cristo veio inaugurar. Reino dos poetas e dos ut\u00f3picos? Mas onde \u00e9 que nos t\u00eam conduzido as nossas certezas? Onde param a alegria e a felicidade do mundo?<\/p>\n<p>Di\u00e1c. Ant\u00f3nio Po\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartas dos Leitores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-9123","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espaco-comum"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9123\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}