{"id":915,"date":"2010-03-17T15:58:00","date_gmt":"2010-03-17T15:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=915"},"modified":"2010-03-17T15:58:00","modified_gmt":"2010-03-17T15:58:00","slug":"na-missao-a-espiritualidade-esta-mais-proxima-da-accao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/na-missao-a-espiritualidade-esta-mais-proxima-da-accao\/","title":{"rendered":"&#8220;Na miss\u00e3o, a espiritualidade est\u00e1 mais pr\u00f3xima da ac\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>S\u00f3nia Pinho, 26 anos, concluiu em Fevereiro passado uma experi\u00eancia mission\u00e1ria de um ano e um m\u00eas no Brasil, em plena Amaz\u00f3nia. Para esta jovem de Lombome\u00e3o, Vagos, ligada \u00e0 ong Orbis &#8211; Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, a miss\u00e3o significou uma nova vis\u00e3o da Igreja e novas atitudes perante a vida. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Foi f\u00e1cil deixar a Amaz\u00f3nia e regressar a Portugal?<\/p>\n<p>S\u00d3NIA PINHO \u2013 Para come\u00e7ar, houve uma diferen\u00e7a de 33 graus de temperatura. Sa\u00ed de Manaus, estavam 37\u00ba. Aterrei em Lisboa, estavam 4\u00ba. A parte boa de regressar \u00e9 rever fam\u00edlia e amigos, mas n\u00e3o foi muito f\u00e1cil o regresso, ap\u00f3s um ano e um m\u00eas de miss\u00e3o. As prioridades mudam, a forma de ver a vida muda. Chego e sinto-me um pouco perdida, porque as pessoas est\u00e3o na mesma. Ningu\u00e9m tem culpa. \u00c9 assim mesmo. Eu \u00e9 que vivi outra forma de estar. A fase de readapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Quer dizer que veio modificada? Em qu\u00ea?<\/p>\n<p>Amadureci muito. Tive a felicidade de ir para uma miss\u00e3o com mission\u00e1rios que estavam l\u00e1 h\u00e1 pouco tempo, tr\u00eas ou quatro meses. Participei na renova\u00e7\u00e3o daquela \u00e1rea. Aprendi a reagir em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, aprendi a ser assertiva, a lutar por coisas que aqui damos como garantidas, como sejam a forma\u00e7\u00e3o e a escola. As preocupa\u00e7\u00f5es, l\u00e1, s\u00e3o outras.<\/p>\n<p>Disse que a readapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Debate-se com d\u00favidas sobre o seu futuro profissional, por exemplo?<\/p>\n<p>Sim. Tenho necessidade de perceber o que vai ser o meu futuro. A miss\u00e3o transforma muito as pessoas. Agora tenho v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es pela frente, como voltar a trabalhar numa empresa e ter um sal\u00e1rio seguro ao fim de m\u00eas ou fazer algo na \u00e1rea da coopera\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento.<\/p>\n<p>O que fazia antes da ida para o Brasil, em Janeiro de 2009?<\/p>\n<p>Era gestora de exporta\u00e7\u00e3o numa empresa de Vagos. Sou licenciada em L\u00ednguas e Rela\u00e7\u00f5es Empresariais. A minha grande d\u00favida agora \u00e9: voltar para a \u00e1rea empresarial ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Como era a sua vida di\u00e1ria no Brasil?<\/p>\n<p>Manicor\u00e9 \u00e9 uma cidade de 25 mil pessoas, na margem do rio Madeira, a 400 km de Manaus, com acesso por barco e avi\u00e3o. De Manaus a Manicor\u00e9, a viagem pode demorar tr\u00eas dias (barco normal) ou 13 horas (barco expresso). Manicor\u00e9 tem uma zona mais rica na margem do rio, zonas ocupadas por pessoas que v\u00eam de fora e duas urbaniza\u00e7\u00f5es em constru\u00e7\u00e3o. Depois, h\u00e1 mais vinte mil pessoas espalhadas por meia centena de comunidades nas margens do rio, em clareiras. T\u00ednhamos trabalho na cidade e nessas comunidades. A mais distante a que eu fui ficava a oito horas de \u201cvoadeira\u201d \u2013 um barco r\u00e1pido, tipo canoa de alum\u00ednio, mas com motor. Eu s\u00f3 fui a 15 comunidades. \u00c0s vezes t\u00ednhamos de viajar de noite, com uma lanterna e uma lona a tapar as coisas da chuva\u2026<\/p>\n<p>As viagens tinham risco?<\/p>\n<p>Sim, algum. O Madeira tem zonas de \u00e1guas r\u00e1pidas e tem jacar\u00e9s. Uma vez fomos contra a margem. Mas nunca estivemos em perigo.<\/p>\n<p>Qual foi o seu trabalho?<\/p>\n<p>Eu estava com os mission\u00e1rios salesianos. Eles t\u00eam duas grandes \u00e1reas de actua\u00e7\u00e3o: a par\u00f3quia e o centro juvenil, que \u00e9 um centro de forma\u00e7\u00e3o profissional. Os jovens s\u00f3 t\u00eam aulas de manh\u00e3 ou de tarde e passam a outra parte do tempo no centro juvenil, onde aprendem carpintaria, serralharia, pintura, serigrafia. Evita-se assim problemas como a droga e a prostitui\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o muito frequentes. Neste centro, implementei um sistema de qualidade. Os instrutores sabem da sua arte, mas n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica. Dei forma\u00e7\u00e3o aos instrutores, fui uma esp\u00e9cie de fiscal da qualidade. O centro \u00e9 auto-sustent\u00e1vel, isto \u00e9, vive dos trabalhos que faz e vende. Ora, para isso, \u00e9 preciso que tudo seja feito com qualidade e aten\u00e7\u00e3o ao cliente. \u00c0 noite, \u00e0s segundas, quartas e sextas, t\u00ednhamos o orat\u00f3rio juvenil.<\/p>\n<p>Um orat\u00f3rio salesiano n\u00e3o \u00e9, ao contr\u00e1rio do que o nome d\u00e1 a entender, um espa\u00e7o de ora\u00e7\u00e3o mas sim de conv\u00edvio\u2026<\/p>\n<p>Sim. \u00c9 um centro onde se brinca, joga, convive. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 sempre uma pausa de ora\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, que tanto pode ser de 30 como de dois minutos, consoante o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Um dos seus trabalhos foi a forma\u00e7\u00e3o de l\u00edderes juvenis\u2026<\/p>\n<p>Durante um m\u00eas, tivemos 500 jovens em competi\u00e7\u00e3o ou \u201cgincana\u201d \u2013 como eles dizem. Os jovens formavam grupos de 20 elementos e competiam em provas de futebol e atletismo, mas tamb\u00e9m visitavam a pris\u00e3o e participavam em palestras escolares contra a droga. O objectivo era encontrar novos l\u00edderes juvenis e aproximar os jovens da Igreja. Algumas provas eram engra\u00e7adas. Por exemplo, precis\u00e1vamos de tijolos para fazer um muro em Andara\u00ed e para a capela do Bairro  Presidente Lula. Ent\u00e3o, uma das provas consistiu em arranjar tijolos. O mesmo fizemos em rela\u00e7\u00e3o a plantas medicinais\u2026 As equipas vencedoras ganharam viagens a Manaus, para visitar as rel\u00edquias de D. Bosco [fundador dos salesianos], que estavam na capital da Amaz\u00f3nia. No final, tivemos 40 a 50 novos l\u00edderes. Um grupo muito activo e coeso.<\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 miss\u00e3o, o P.e Bira [mission\u00e1rio salesiano, director da miss\u00e3o, foi entrevistado por este jornal na edi\u00e7\u00e3o de 28 de Janeiro de 2009] perguntou-me: \u201cOnde preferes trabalhar?\u201d Eu disse: \u201cCentro juvenil\u201d. E ele: \u201cN\u00e3o. Tu vais fazer de tudo\u201d. E assim foi: trabalhei com jovens, adultos, na ac\u00e7\u00e3o social, na constitui\u00e7\u00e3o de comunidades\u2026<\/p>\n<p>Como era esse trabalho de forma\u00e7\u00e3o de comunidades?<\/p>\n<p>Enquanto l\u00e1 estive, consolidou-se comunidade de Andara\u00ed, que passou a chamar-se N.\u00aa Sr.\u00aa de Guadalupe, com cursos de forma\u00e7\u00e3o para adultos e col\u00f3nia de f\u00e9rias para crian\u00e7as, e iniciou-se outra no Bairro Presidente Lula, ambas na cidade. Este bairro n\u00e3o tinha electricidade nem estradas. Come\u00e7ou do zero. Cri\u00e1mos l\u00e1 um orat\u00f3rio. Lev\u00e1mos um gerador, l\u00e2mpadas, umas colunas, m\u00fasicas e come\u00e7amos a chamar as pessoas, \u00e0 noite. Aos poucos, come\u00e7aram a vir a crian\u00e7as com as suas lanternas. A seguir vieram os pais. Depois, os pais come\u00e7aram a trabalhar juntos. Nasce assim a comunidade. <\/p>\n<p>Em Manicor\u00e9, h\u00e1 30 igrejas evang\u00e9licas. \u00c9 muito f\u00e1cil uma pessoa passar dos cat\u00f3licos para os evang\u00e9licos ou o contr\u00e1rio. Por isso, \u00e9 importante o trabalho de criar comunidade, ter novos espa\u00e7os, dar op\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o e promover a ac\u00e7\u00e3o social. A igreja trabalha em todas as frentes.<\/p>\n<p>Custou a adaptar-se \u00e0 realidade brasileira?<\/p>\n<p>O brasileiro da regi\u00e3o onde estive \u00e9 muito diferente. N\u00e3o est\u00e1 de bra\u00e7os abertos e cantar, como \u00e0s vezes o imaginamos. Acolhe bem, mas tens de ser conquistado. Quando cheguei, as pessoas n\u00e3o me entendiam. Perguntavam: \u201cEm que l\u00edngua \u00e9 que ela est\u00e1 a falar?\u201d At\u00e9 que comecei a falar mais devagar e com as vogais mais abertas. Primeiro foi for\u00e7ado, depois at\u00e9 fiquei com um bocadinho de sotaque.<\/p>\n<p>Aprendeu com a Igreja brasileira?<\/p>\n<p>Aprendi muito com os mission\u00e1rios, o P.e Pira, brasileiro, o P.e V\u00edtor, espanhol, e o irm\u00e3o Ant\u00f3nio, italiano, e com as comunidades. A ac\u00e7\u00e3o da Igreja, na miss\u00e3o, \u00e9 mais incisiva, mais actuante, mais atenta. Trabalhei com muitas pessoas e aprendi a conjugar esfor\u00e7os, enfrentar situa\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o mudou a sua vis\u00e3o de Igreja?<\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Aqui [em Portugal], fa\u00e7o parte da par\u00f3quia, dou catequese, estou no grupo de jovens\u2026 Sou participante activa. Mas l\u00e1 eu morava na casa paroquial. A participa\u00e7\u00e3o na vida eclesial foi muito mais forte. Mas n\u00e3o s\u00f3 por isso. Na miss\u00e3o, a mensagem de Jesus \u00e9 mais incisiva. Temos mais consci\u00eancia de que Jesus n\u00e3o ficou dentro do templo. Andava pela rua, mexia com as estruturas, promovia os exclu\u00eddos. Isso nota-se muito mais em Manicor\u00e9. Era vis\u00edvel. O enfoque estava em promover as pessoas, ajudar a crescer. A espiritualidade est\u00e1 muito pr\u00f3xima da ac\u00e7\u00e3o social. Por exemplo, quem criou o F\u00f3rum da Cidadania, para promover a justi\u00e7a, foi a igreja. O padre estava \u00e0 frente, embora depois, por bom senso, se retirasse para dar lugar a um leigo. O cristianismo \u00e9 mais consequente. Por isso \u00e9 que h\u00e1 muitos mission\u00e1rios assassinados nas miss\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3nia Pinho, 26 anos, concluiu em Fevereiro passado uma experi\u00eancia mission\u00e1ria de um ano e um m\u00eas no Brasil, em plena Amaz\u00f3nia. Para esta jovem de Lombome\u00e3o, Vagos, ligada \u00e0 ong Orbis &#8211; Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, a miss\u00e3o significou uma nova vis\u00e3o da Igreja e novas atitudes perante a vida. Entrevista conduzida por Jorge Pires [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-915","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/915","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=915"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/915\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}