{"id":9174,"date":"2007-03-07T16:54:00","date_gmt":"2007-03-07T16:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9174"},"modified":"2007-03-07T16:54:00","modified_gmt":"2007-03-07T16:54:00","slug":"desafios-que-permanecem-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/desafios-que-permanecem-4\/","title":{"rendered":"Desafios que permanecem (4)"},"content":{"rendered":"<p>Para os leitores mais atentos, que t\u00eam acompanhado os desafios deixados nesta coluna ao longo dos \u00faltimos meses, deixei claro que se torna imposs\u00edvel concluir um balan\u00e7o de dois anos de miss\u00e3o ad-gentes sem que se fique com a sensa\u00e7\u00e3o do muito que ainda restou por fazer.<\/p>\n<p>Tentarei, de forma resumida, terminar estas recentes inquieta\u00e7\u00f5es, com refer\u00eancia a um tema no \u00e2mbito dos Direitos Humanos, que, certamente, vai ocupar as aten\u00e7\u00f5es dos militantes que ficaram no Maranh\u00e3o.  <\/p>\n<p>Por v\u00e1rias vezes, neste espa\u00e7o, deixei transparecer a minha atrac\u00e7\u00e3o pela cultura negra afro-brasileira. Dado j\u00e1 o ter feito em momentos anteriores, prefiro n\u00e3o alongar-me muito sobre este assunto. Por\u00e9m n\u00e3o posso concluir esta sequ\u00eancia de partilhas sem destacar os muitos desafios que se colocam \u00e0s comunidades quilombolas no nordeste brasileiro, em especial no Baixo Parna\u00edba maranhense.<\/p>\n<p>Lembro as comunidades quilombolas que tive possibilidade de visitar e\/ou acompanhar: Vila das Almas, \u00c1rvores Verdes, Santa Cruz, Rampa, Pequizeiro, ou toda a \u00e1rea do Bom Sucesso. Louvo todo o trabalho de cidadania e resgate da cultura negra levado a cabo, por exemplo, pela SMDH \u2013 Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, pelo CCN \u2013 Centro de Cultura Negra do Maranh\u00e3o, e, claro, no munic\u00edpio de Mata Roma, o apoio prestado pelas Mission\u00e1rias da Boa Nova. Contudo, antevejo grandes dificuldades no trabalho que tantos e tantas hoje realizam. A escravatura no Brasil j\u00e1 foi abolida h\u00e1 120 anos, mas, na pr\u00e1tica, a situa\u00e7\u00e3o dos afro-brasileiros permanece como uma das mais cr\u00edticas em termos de viola\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas aos seus direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Os descendentes de africanos, remanescentes dessas comunidades de resist\u00eancia que foram os quilombos, v\u00eaem-se hoje a bra\u00e7os com o forte poder pol\u00edtico das fam\u00edlias de fazendeiros e com o surgimento do novo latif\u00fandio que d\u00e1 pelo nome de agro-neg\u00f3cio. Tudo isto agravado pelo facto da maior parte das \u201cterras de preto\u201d, onde vivem os afro-descendentes, ainda n\u00e3o serem reconhecidas, legalmente, como comunidades quilombolas. A t\u00edtulo de exemplo posso citar a gleba quilombola do Bom Sucesso: das mais de cinquenta comunidades que fazem parte da \u00e1rea, o governo apenas reconhece oito! <\/p>\n<p>H\u00e1 imenso trabalho a fazer: \u00e9 necess\u00e1rio continuar o processo de reconhecimento das \u00e1reas quilombolas, implementar projectos de capacita\u00e7\u00e3o profissional dos jovens negros e estimular o surgimento de actividades s\u00f3cio-econ\u00f3micas sustent\u00e1veis. <\/p>\n<p>Desafortunadamente, aliada a tantos factores, h\u00e1 que contar, ainda, com a baixa auto-estima de alguns afro-descendentes. Paradigm\u00e1tico: as vezes em que estive no Bom Sucesso constatei que muitos quilombolas nem sequer tinham documentos civis como \u201cregistro de nascimento\u201d ou \u201ccarteira de identidade\u201d!<\/p>\n<p>O trabalho ter\u00e1 que passar, nesta medida, por uma consciencializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de cidadania que resgate a identidade \u00e9tnica cultural dos quilombos. Na verdade, trata-se de algo t\u00e3o urgente como as outras medidas s\u00f3cio-econ\u00f3micas.<\/p>\n<p>Em jeito de conclus\u00e3o, e como facilmente se deduz, resta acrescentar que s\u00f3 a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das popula\u00e7\u00f5es e a aprova\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas inclusivas para os sectores mais desfavorecidos da sociedade podem responder, de forma determinante, a estes desafios que, ao longo dos \u00faltimos meses, partilhei convosco. <\/p>\n<p>Como crist\u00e3o apenas reafirmo ter Esperan\u00e7a de que o futuro seja mais risonho para os homens, mulheres e crian\u00e7as do Maranh\u00e3o que aprendi a amar. <\/p>\n<p>Como militante das causas populares, resta-me estimular e apoiar, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia, as lutas di\u00e1rias que os companheiros e companheiras v\u00e3o travando naquele peda\u00e7o de ch\u00e3o no Nordeste Brasileiro.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para os leitores mais atentos, que t\u00eam acompanhado os desafios deixados nesta coluna ao longo dos \u00faltimos meses, deixei claro que se torna imposs\u00edvel concluir um balan\u00e7o de dois anos de miss\u00e3o ad-gentes sem que se fique com a sensa\u00e7\u00e3o do muito que ainda restou por fazer. 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