{"id":9177,"date":"2007-03-07T17:01:00","date_gmt":"2007-03-07T17:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9177"},"modified":"2007-03-07T17:01:00","modified_gmt":"2007-03-07T17:01:00","slug":"modernidade-e-conservadorismo-direitas-e-esquerdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/modernidade-e-conservadorismo-direitas-e-esquerdas\/","title":{"rendered":"Modernidade e conservadorismo, direitas e esquerdas"},"content":{"rendered":"<p>Um dos direitos assumidos pelo laicismo no campo da pol\u00edtica \u00e9 ter tornado esta uma inst\u00e2ncia sem apelo, com o direito de se assumir como a mais l\u00facida classificadora da realidade social. F\u00e1-lo \u00e0 revelia da sua miss\u00e3o de um servi\u00e7o a todos, construindo muros que dificultam a comunica\u00e7\u00e3o entre eles e abrindo valas que tornam dif\u00edcil uma express\u00e3o livre de pluralismo e de uma leg\u00edtima diversidade de crit\u00e9rios e valores.<\/p>\n<p>Desta fren\u00e9tica actividade classificativa surgiu a nomenclatura de direitas e de esquerdas, acantonando-se pessoas e institui\u00e7\u00f5es nestes redutos arbitr\u00e1rios. Dada a matr\u00edcula original do laicismo, a Igreja foi arrumada nas direitas, tamb\u00e9m apodadas de conservadoras. Progressivo, aberto, moderno t\u00eam lugar cativo no palco das esquerdas.<\/p>\n<p>Foi, assim, sintom\u00e1tica a reac\u00e7\u00e3o euf\u00f3rica do primeiro-ministro, na noite em que se contaram os votos do referendo, ao proclamar que \u201cPortugal opta entre a modernidade e o conservadorismo\u201d. A apoiar as palavras do chefe, surgiram declara\u00e7\u00f5es em catadupa: a Igreja foi a grande derrotada, a sua influ\u00eancia no povo portugu\u00eas tinha terminado, o norte conservador votara \u201cn\u00e3o\u201d e o sul progressista votara \u201csim\u201d\u2026 Algumas destas afirma\u00e7\u00f5es, por descabidas, tiveram que se engolir logo no dia seguinte. N\u00e3o faltaram comentadores de renome, serenos e l\u00facidos, a mostrar como emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o sempre raz\u00f5es. Ningu\u00e9m da Igreja se defendera. Desta, s\u00f3 algu\u00e9m insofrido n\u00e3o consegue conter-se e as afirma\u00e7\u00f5es feitas n\u00e3o justificavam nem coment\u00e1rios, nem resposta.<\/p>\n<p>A Igreja, com maior sabedoria do tempo e mais reflex\u00e3o com conte\u00fado, nunca alinhou e ainda menos usou a classifica\u00e7\u00e3o de direitas e esquerdas, t\u00edpicas dos partidos pol\u00edticos, que, \u00e0 falta de ideias que os identifiquem, v\u00e3o-se arrumando em espa\u00e7os an\u00f3dinos. Cores n\u00e3o traduzem valores, e at\u00e9 se descoloram quando os espa\u00e7os conquistados n\u00e3o s\u00e3o respeitados e a identifica\u00e7\u00e3o de cada um se torna tarefa inconsistente, d\u00fabia e atrevida.<\/p>\n<p>Se esquerda quer dizer abertura ao social e n\u00e3o s\u00f3, vemos em partidos, ditos de esquerda, atitudes e posi\u00e7\u00f5es reaccion\u00e1rias, que pararam no tempo, e j\u00e1 s\u00f3 sustentadas por mentes encarquilhadas. Se esquerda quer dizer ajuda s\u00e9ria a pessoas em dificuldade, esta ajuda aparece mais vezes de circunst\u00e2ncia e de favor e a cobrar cr\u00e9ditos, que gesto de motivada e bem explicada solidariedade. Se por esquerda se entende abertura a caminhos novos, por onde se pode caminhar agora e no futuro, n\u00e3o faltam, vindos dessas bandas, atalhos mal amanhados, a servir para o cortejo festivo de not\u00e1veis, que nunca mais voltar\u00e3o a passar por a\u00ed, porque a lama disfar\u00e7ada num dia, continua l\u00e1, e gente importante e instalada em interesses n\u00e3o suja, de bom grado, os p\u00e9s na lama.<\/p>\n<p>Nada mais inconsistente que a classifica\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de direitas e esquerdas, de modernos e conservadores. A Igreja, porque \u00e9 para todos e, apesar dos limites e falhas dos seus membros, ontem e hoje, sabe naquilo que acredita e o que defende, n\u00e3o se dobra a conveni\u00eancias pagas com emo\u00e7\u00f5es nem a amea\u00e7as, nem teme os ep\u00edtetos que lhe atiram para cima, destitu\u00eddos de cola e que depressa caem envergonhados.<\/p>\n<p>Quem quiser servir a comunidade e n\u00e3o os seus interesses pessoais, partid\u00e1rios e de grupo, tem de respeitar, acolher, integrar no conjunto, pessoas, valores, formas de participa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. Tem de se esclarecer culturalmente. De contr\u00e1rio, faz apenas de pirot\u00e9cnico de fogo de vista, em arraial nocturno e concorrido. Os atrasos de que padecemos t\u00eam, na sua causa, muitos culpados, por ac\u00e7\u00e3o e omiss\u00e3o. Porque n\u00e3o \u00e9 nem ser\u00e1 de direita ou de esquerda, a Igreja n\u00e3o se furta aos ju\u00edzos da hist\u00f3ria. Nem sempre soube aproveitar o terreno aberto, tendo \u00e0 m\u00e3o boa semente. Mas reconhece-o, di-lo e procura caminhos de convers\u00e3o. Coisa que os pol\u00edticos, mormente os do poder, sempre com raz\u00e3o, impolutos e infal\u00edveis, jamais andar\u00e3o por caminhos de pecadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos direitos assumidos pelo laicismo no campo da pol\u00edtica \u00e9 ter tornado esta uma inst\u00e2ncia sem apelo, com o direito de se assumir como a mais l\u00facida classificadora da realidade social. 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