{"id":9183,"date":"2007-03-22T10:49:00","date_gmt":"2007-03-22T10:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9183"},"modified":"2007-03-22T10:49:00","modified_gmt":"2007-03-22T10:49:00","slug":"registos-de-um-passado-com-d-antonio-francisco-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/registos-de-um-passado-com-d-antonio-francisco-dos-santos\/","title":{"rendered":"Registos de um passado com D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos"},"content":{"rendered":"<p>AD\u00c3O SEQUEIRA<\/p>\n<p>Testemunho de um antigo colega de D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, quando se completam dois anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal do Bispo de Aveiro (19 de Mar\u00e7o de 2005, na Catedral de Lamego)<\/p>\n<p>Outubro de 1959 \u2013 talvez dia 7 \u2013, paragem do autocarro nas Pias, junto \u00e0 ponte. Aqui come\u00e7a um di\u00e1logo, seguro, forte e profundo, de uma amizade est\u00e1vel num respeito m\u00fatuo baseado nos valores humanos e intelectuais, seguros pela f\u00e9 e em cuja mesa a l\u00f3gica e raz\u00e3o tinham o seu lugar tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Curtos anos, cerca de 8 (insignificantes na altura e hoje valiosos), nos separavam e separam no tempo. Foi na paragem do autocarro que o meu respeito nasceu. Do banco da frente, onde eu j\u00e1 viajava havia 10 minutos, vejo um jovem, pequeno de estatura, vestido de preto dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. Na cabe\u00e7a, uma gorra de igual cor sobressa\u00eda, sem ocultar uns olhos vivos de pequeno tamanho e longo alcance.<\/p>\n<p>Atenta, ao lado, uma mulher sorridente olhava e media todos os passos e gestos num enlevo terno e maternal de riqueza \u00fanica \u2013 D. Donzelina.<\/p>\n<p>Aqui come\u00e7a o meu di\u00e1logo com o jovem Francisco (nome herdado do pai Ernesto Francisco), que entre os amigos s\u00f3 passou a Ant\u00f3nio com a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal em 1972, e a D. Ant\u00f3nio Francisco com o Bispado em 2004.<\/p>\n<p>Tantos na paragem, e \u00e9 ele, decidido, sem medir o risco (como Pedro sobre a \u00e1guas) que se atravessa na estrada a fazer paragem, inocentemente receoso que o mesmo n\u00e3o parasse, ou j\u00e1 convictamente decidido a n\u00e3o perder o lugar no ve\u00edculo que, 50 minutos depois, o deixaria \u00e0s portas do Semin\u00e1rio de Resende, para onde se encaminhava.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea ele e n\u00e3o outro? Come\u00e7am a ver-se j\u00e1 tra\u00e7os marcantes para quem, atento, vislumbra os sinais que marcar\u00e3o o futuro e as suas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em Resende, nos estudos do Semin\u00e1rio, pequeno entre os pequenos, ou, sei l\u00e1, grande entre os mesmos, sobressai pela concentra\u00e7\u00e3o nos estudos, com preocupa\u00e7\u00e3o pelas notas finais, mas sem atritos com a vizinhan\u00e7a, ideias claras nas coisas simples, ced\u00eancia aparente nas discuss\u00f5es de corredor, humildade vis\u00edvel face ao ordenamento existente, sem deixar de, j\u00e1 no tempo, estar atento \u00e0s ideias e fintas mentais dos mais velhos e de olho esquivo entrar na curiosidade dos assuntos dos mais avan\u00e7ados ou dos professores mais complacentes na descida \u00e0 fala com os alunos. <\/p>\n<p>Passado prometedor<\/p>\n<p>Assim cresce no saber e evolui na perspic\u00e1cia, como os demais, na normalidade dos normais, sendo que, na semelhan\u00e7a ou igualdade, nada ou ningu\u00e9m \u00e9 igual a outrem.<\/p>\n<p>Hoje e nesta data \u00e9 f\u00e1cil adivinhar o futuro de h\u00e1 40 anos atr\u00e1s, porque ele \u00e9 vis\u00edvel e j\u00e1 \u00e9 passado; mas, naquela data, s\u00f3 sinais e boa intui\u00e7\u00e3o poderiam antecipar alguns voos de ave predestinada, at\u00e9 porque o futuro, como tal, n\u00e3o \u00e9 de previs\u00e3o seguramente f\u00e1cil, tais as curvas do destino e as voltas do fado.<\/p>\n<p>Sendo eu mais velho em idade (8 anos) e no curso (1 ano apenas), percorremos juntos parte de iniciativas, evolu\u00e7\u00f5es e projectos que deveras marcaram vidas, \u00e9pocas e pessoas: <\/p>\n<p>&#8211; s\u00e3o marcas vivas e vivos testemunhos o trabalho desenvolvido com os jovens de Cinf\u00e3es, ainda como seminaristas, n\u00f3s os dois, no tempo do Sr. Pe Ad\u00e3o Pinto Afonso; e, se eu era mais vis\u00edvel e falante pela idade e feitio, o Francisco esteve sempre presente e sem ele n\u00e3o se realizaram quaisquer encontros dos jovens naquela Vila, porque eu sentia o seu apoio intelectual e a serenidade da sua presen\u00e7a, apesar de ser o mais jovem entre todos os jovens daquele tempo nesses encontros;<\/p>\n<p>&#8211; e quando, como estudantes, constitu\u00edmos equipas de autoforma\u00e7\u00e3o, coincid\u00edamos no mesmo grupo de trabalho;                                                      <\/p>\n<p>&#8211; e quando analis\u00e1vamos temas ou estud\u00e1vamos a fundo o evoluir (fasc\u00edculo a fasc\u00edculo) dos documentos do Vaticano II, l\u00e1 est\u00e1vamos os dois no mesmo grupo, numa salutar inter-ajuda intelectual, vis\u00edvel, edificante e frut\u00edfera;<\/p>\n<p>&#8211; e quando, em 1968, por normal sucess\u00e3o, fui director do nosso jornal \u00abEstrela Polar\u00bb, foi ele um bra\u00e7o forte e esteio seguro nesse ano de trabalho raro, de qualidade esfor\u00e7ada, de satisfa\u00e7\u00f5es compensadoras, de recompensas morais acrescidas e tamb\u00e9m de inc\u00f3modos n\u00e3o previstos nem desejados;<\/p>\n<p>&#8211; e na hora de expor ao Semin\u00e1rio o nosso melhor pensamento e vis\u00e3o futura, ele l\u00e1 estava como co-redactor textual do pensamento dos te\u00f3logos dos cursos aderentes \u00e0 din\u00e2mica renovadora, num trabalho que enobrece ainda quem a ele se dedicou, apoiado nos fins nobres que buscavam;<\/p>\n<p>&#8211; e quando, por vontade de Deus e dos homens, o meu projecto de vida se alterou, em 28 de Dezembro de l968, deixando o Semin\u00e1rio j\u00e1 no fim da Teologia e entrando na comunidade dos Leigos, onde a Igreja \u201cna sua diversidade de minist\u00e9rio mas unidade de miss\u00e3o\u201d tem um vast\u00edssimo campo de ac\u00e7\u00e3o, passo a acompanhar \u201cde longe\u201d o evoluir e crescer  do jovem  que n\u00e3o mais parou de estudar, orar e aprofundar a ci\u00eancia de Deus e dos homens;<\/p>\n<p>&#8211; e quando, em 1984, se decidiu fundar a Associa\u00e7\u00e3o dos Antigos Alunos dos Semin\u00e1rios de Lamego, ASEL, numa vers\u00e3o correspondente \u00e0 \u00e9poca, l\u00e1 estava tamb\u00e9m o ent\u00e3o Pe Ant\u00f3nio como apoio duma iniciativa global de interesse e amplitude, situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o mais abandonou at\u00e9 ao presente mandato;<\/p>\n<p>-e quando sua M\u00e3e, por meses largos, se manteve em recupera\u00e7\u00e3o numa cl\u00ednica do Porto, veio ainda mais \u00e0 evid\u00eancia o seu afecto e dedica\u00e7\u00e3o filiais em desloca\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de 200 km de carinho, sem abandonar ou esquecer o seu m\u00fanus e dever sacerdotal na cidade e diocese de Lamego;<\/p>\n<p>&#8211; e quando, em 2004, vem de novo \u00e0 tona a ideia h\u00e1 muito latente de editar em Antologia os melhores textos do nosso jornal \u201cEstrela Polar\u201d, \u00e9 nomeado coordenador da mesma, sem vermos desfeita a quase pontual parceria de colabora\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que tanto desejavam\u201d<\/p>\n<p>Foram estas marcas de serenidade e bom senso, de persist\u00eancia e insist\u00eancia, de estudo e ora\u00e7\u00e3o, de sorriso e seriedade que marcaram o seu caminho sereno e seguro, a passos curtos e certos, de solidez est\u00e1vel: de Tendais ao Semin\u00e1rio, do Semin\u00e1rio \u00e0 Pesqueira, da Pesqueira a Cinf\u00e3es, de Cinf\u00e3es a Paris, de Paris ao Semin\u00e1rio de Lamego, do Semin\u00e1rio \u00e0 cidade e \u00e0 diocese, que o levaram ao mundo na sagra\u00e7\u00e3o episcopal. O bispo \u00e9 mission\u00e1rio do povo de Deus, com um esp\u00edrito sem fronteiras.<\/p>\n<p>Por aqui se v\u00ea que, nada se podendo prever sobre o futuro, n\u00e3o foi mist\u00e9rio antever um futuro com base no seu passado, quando esse passado estava ainda a ser presente. Guardei sempre mentalmente, at\u00e9 hoje, s\u00f3 para mim, a frase de D. Jacinto, quando, logo a seguir ao 21 de Dezembro de 2004, lado a lado com e mostrando D. Ant\u00f3nio, nos diz: \u201cAqui t\u00eam o que tanto desejavam\u201d. <\/p>\n<p>Em Aveiro<\/p>\n<p>E se, al\u00e9m das suas qualidades morais e de vida interior, me \u00e9 l\u00edcito aludir a mais algum pormenor human\u00edstico do D. Ant\u00f3nio, eu relevo a sua facilidade verbal: de express\u00e3o clara, de ideias seguras, de conte\u00fado qualificado e oportuno, de comunica\u00e7\u00e3o atraente, num verbo adequado, vivo, profundo, tranquilizador e apropriado, que s\u00e3o apan\u00e1gio seu, dote e patrim\u00f3nio intr\u00ednseco \u00e0 sua cultura e interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu, que poderia ser o primeiro a escrever e pronunciar-me sobre o facto, a pessoa e as fun\u00e7\u00f5es, esperei tempo demais, perdi a oportunidade de dizer o que queria e vi-me ultrapassado pelos que antes de mim o fizeram de modo t\u00e3o belo e oportuno, deixando-me sem conte\u00fado pr\u00f3prio e curricular, familiar ou de interven\u00e7\u00e3o, para devidamente falar sem repetir anteriores.<\/p>\n<p>E n\u00e3o desejando eu repetir ningu\u00e9m, fa\u00e7o minhas todas as boas an\u00e1lises e informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas nestes dois anos em tantos jornais, ficando eu somente como dono e titular deste pobre e n\u00e3o menos interiormente sentido mon\u00f3logo sobre o jovem, o Padre e o Bispo D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, que, para satisfa\u00e7\u00e3o dos seus amigos, para bem das pessoas e interesse da igreja, depois de Bispo de Meinedo e auxiliar de Braga desde 21 de Dezembro de 2004, \u00e9 hoje titular de Aveiro, Diocese que bem o merece e em cujos quatro antecessores tem elevado exemplo. De certo, os dignificar\u00e1 pela ac\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o, sabedoria e santidade, para bem dos crist\u00e3os, da Diocese e do mundo, na comunh\u00e3o dos santos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AD\u00c3O SEQUEIRA Testemunho de um antigo colega de D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, quando se completam dois anos de ordena\u00e7\u00e3o episcopal do Bispo de Aveiro (19 de Mar\u00e7o de 2005, na Catedral de Lamego) Outubro de 1959 \u2013 talvez dia 7 \u2013, paragem do autocarro nas Pias, junto \u00e0 ponte. 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