{"id":9248,"date":"2007-03-15T12:18:00","date_gmt":"2007-03-15T12:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9248"},"modified":"2007-03-15T12:18:00","modified_gmt":"2007-03-15T12:18:00","slug":"os-truques-da-vida-de-luis-de-matos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-truques-da-vida-de-luis-de-matos\/","title":{"rendered":"Os truques da vida de Lu\u00eds de Matos"},"content":{"rendered":"<p>Habituado a ser estrela \u00e0 frente do pano, o m\u00e1gico Lu\u00eds de Matos esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura e contou com simplicidade e bom humor como \u00e9 a sua vida longe dos holofotes: os seus princ\u00edpios e valores, a sua hist\u00f3ria. Quem o ouviu ficou encantado com as convic\u00e7\u00f5es deste conimbricense que trocou a carreira acad\u00e9mica de engenheiro agr\u00f3nomo pela de \u201cengenheiro\u201d de ilus\u00f5es, truques e magia. Porque se tratava de uma conversa, a certa altura teve de pedir que os presentes n\u00e3o batessem palmas. \u201cSen\u00e3o, eu penso que isto \u00e9 um espect\u00e1culo\u201d. Aqui fica uma s\u00edntese das suas palavras inspiradoras. J.P.F.<\/p>\n<p>O \u201ccromo\u201d e o homem<\/p>\n<p>Quando um actor \u201cveste a pele\u201d de outra pessoa, deixa a sua maneira de ser para representar outra. No meu caso, a percep\u00e7\u00e3o do Lu\u00eds de Matos \u201ccromo\u201d n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a do Lu\u00eds de Matos homem. Mas n\u00e3o \u00e9 completa. O \u201ccromo\u201d Lu\u00eds de Matos est\u00e1 contido no homem Lu\u00eds de Matos, mas o homem Lu\u00eds de Matos n\u00e3o est\u00e1 contigo no \u201ccromo\u201d.<\/p>\n<p>O que as pessoas v\u00eaem de mim \u00e9 a ponta do icebergue. Se eu fosse o s\u00edmbolo do CUFC, viam a ponta do tri\u00e2ngulo. Mas h\u00e1 uma base estruturada que sustenta tudo isso [refer\u00eancia \u00e0 empresa que fundou, a Lu\u00eds de Matos Produ\u00e7\u00f5es, que emprega doze pessoas \u2013 6 com forma\u00e7\u00e3o superior \u2013 e que trabalha com rigor e m\u00e9todo para conceber os espect\u00e1culos].<\/p>\n<p>O m\u00e1gico \u00e9 como o gladiador<\/p>\n<p>A grande diferen\u00e7a entre a vida de m\u00e1gico e as outras actividades \u00e9 que, na minha profiss\u00e3o, um erro p\u00f5e em causa todo o trabalho passado. Se o espect\u00e1culo for mau, a carreira acaba hoje. Tenho de estar constantemente numa demonstra\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias. Os m\u00e1gicos s\u00e3o como os gladiadores da Roma Antiga, que lutavam contra as feras. O que ganhavam por derrotar o le\u00e3o? Nada mais do que o direito a digladi\u00e1-lo no dia seguinte&#8230;, at\u00e9 que um dia o le\u00e3o os derrotava. Um erro significava \u00faltimo espect\u00e1culo.<\/p>\n<p>Alerta<\/p>\n<p>A magia n\u00e3o se faz em play-back \u2013 o que \u00e9 \u00f3ptimo! Obriga-nos a um estado de alerta permanente, a um anti-acomodamento.<\/p>\n<p>O meu melhor amigo era o espelho, n\u00e3o por narcisismo, mas porque fez de mim o meu primeiro cr\u00edtico, ao permitir-me antever a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder da vontade<\/p>\n<p>Ser m\u00e1gico \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil ou t\u00e3o dif\u00edcil como ser m\u00e9dico, astronauta ou outra profiss\u00e3o. N\u00e3o gosto das desculpas que apresentamos para a nossa incompet\u00eancia, do tipo \u201cse tivesse nascido \u00e0 quinta-feira\u201d ou \u201cse vivesse do lado de l\u00e1 da fronteira\u201d&#8230; S\u00e3o desculpas para a falta de vontade e de energia. Claro que somos consequ\u00eancia do que est\u00e1 \u00e0 nossa volta, mas temos influ\u00eancia no decurso da nossa vida. Podem considerar-me \u201cpo\u00e9tico\u201d, mas todos podemos ser aquilo que queremos, desde que de facto queiramos.<\/p>\n<p>Abrir portas<\/p>\n<p>Temos de abrir portas onde h\u00e1 portas. Ou ent\u00e3o, fazer portas onde h\u00e1 paredes, sejam de \u201cpladur\u201d ou de pedra. \u00c9 poss\u00edvel desenhar portas onde elas n\u00e3o existiam antes. \u00c9 poss\u00edvel ser muito honesto e ser o melhor no que fazemos. Mesmo que n\u00e3o consigamos, temos de desejar ser o melhor na nossa \u00e1rea. N\u00e3o acredito em subs\u00eddios nem em cunhas. O que sou, para o bem e para o mal, \u00e9 fruto de tr\u00eas coisas: esfor\u00e7o baseado em algum talento; muito trabalho; muita sorte.<\/p>\n<p>Insistir, insistir, insistir<\/p>\n<p>Desde os 13 anos que escrevi muitas cartas para a RTP. Poucas respostas obtive antes dos 17 ou 18 anos. Apresentei muitos projectos, at\u00e9 ver algum aprovado. Mas eu tinha a obriga\u00e7\u00e3o de tentar dar o meu melhor. Hoje, as pessoas contentam-se em ser \u201co melhor da sua aldeia\u201d. Esquecem-se que a aldeia hoje \u00e9 o mundo.<\/p>\n<p>O poder da magia<\/p>\n<p>A magia \u00e9 das poucas actividades que nos permitem ter instantaneamente um ascendente sobre o nosso pr\u00f3ximo. \u00c9 a mais antiga das artes (mas n\u00e3o das profiss\u00f5es). Cria poder e admira\u00e7\u00e3o \u2013 talvez seja por isso que algumas pessoas optam por esta actividade! Nunca tive jeito para o futebol, mas encontrei na magia o \u201colhem para mim!\u201d<\/p>\n<p>A magia \u00e9 algo que se pode fazer sozinho. E, ao contr\u00e1rio das outras artes, n\u00e3o requer do espectador nenhuma capacidade especial (para ler um poema ou ver um quadro de Picasso \u00e9 preciso ter conhecimentos). A magia n\u00e3o escolhe idade, condi\u00e7\u00e3o social ou capacidade de percep\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma arte universal. Chega a todas as pessoas. E. se o espect\u00e1culo for mesmo bom, transmite a cada pessoa a sensa\u00e7\u00e3o de que foi feito para ela.<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>de um truque<\/p>\n<p>Aos m\u00e1gicos, numa conversa informal, pede-se-lhes para fazerem desaparecer esta caneta ou esta garrafa de \u00e1gua. Eu n\u00e3o o fa\u00e7o, de modo a proteger a arte. As coisas devem acontecer na altura certa, n\u00e3o num contexto rid\u00edculo. N\u00e3o se diz a um escritor: \u201cEscreva a\u00ed um romance&#8230;\u201d [A seguir, Lu\u00eds de Matos concordou em, mesmo assim, ensinar o truque de mudar a cor do len\u00e7o, de branco para vermelho. Aparentando revel\u00e1-lo, gozou com os trejeitos dos aprendizes de ilusionistas, iludindo, afinal, os pr\u00f3prios presentes. \u00c9 que, sendo um truque de m\u00e3os, ningu\u00e9m esperava que o artista se engasgasse, para a seguir retirar da boca o len\u00e7o vermelho. A pretensa revela\u00e7\u00e3o mais aumentou o efeito da ilus\u00e3o.]<\/p>\n<p>Livro preferido<\/p>\n<p>O meu livro preferido \u00e9 \u201cO Principezinho\u201d [de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry]. Colecciono edi\u00e7\u00f5es em todas as l\u00ednguas. Ontem chegou-me um \u201caudio-book\u201d em espanhol. \u00c9 um \u201clivro esponja\u201d, um livro m\u00e1gico, porque cada passagem faz-nos recordar as nossas mais recentes viv\u00eancias. Aconselho a sua leitura de 5 em 5 ou de 10 em 10 anos.<\/p>\n<p>Farsantes<\/p>\n<p>Desmascaro m\u00e9diuns, videntes e astr\u00f3logos. Fazem neg\u00f3cio com a ignor\u00e2ncia e as dificuldades das pessoas. Recebo e respondo a cartas de gente que me pede ajuda por ter algu\u00e9m na fam\u00edlia que se submete a esses farsantes.<\/p>\n<p>Gra\u00e7a<\/p>\n<p>Aos 22 anos tive um acidente quase mortal. Perdi a minha imortalidade nessa altura. Seria doentio estar sempre a despedir-me das pessoas, mas, de facto, pode ser a \u00faltima vez que nos vemos. Damos de barato tantas coisas que esquecemos, o maravilhoso que representam. Devemos dar-lhes mais valor. Devemos ser dignos da sorte que temos.<\/p>\n<p>Lado espiritual<\/p>\n<p>Sou cat\u00f3lico, mas pouco praticante e cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. Coisas como o Pe Alexandre est\u00e1 aqui a fazer [refer\u00eancia ao respons\u00e1vel do CUFC e ao Forum::Universal, que mensalmente convida uma personalidade] s\u00e3o raras. Acredito em Deus, mas n\u00e3o procuro interlocutores. N\u00e3o aceito a supremacia espiritual que algumas igrejas det\u00eam sobre o parceiro, nem que encenem milagres para que os fi\u00e9is l\u00e1 deixem dinheiro.<\/p>\n<p>Gosto de entrar numa igreja, sentar-me e estar l\u00e1 um bocado. Penso que \u00e9 necess\u00e1ria uma aproxima\u00e7\u00e3o da f\u00e9 aos dias de hoje.<\/p>\n<p>Perfil do m\u00e1gico<\/p>\n<p>Nascido em Mo\u00e7ambique, em 1970, Lu\u00eds de Matos fixou-se com os pais em Avelar, na regi\u00e3o de Coimbra. Filho \u00fanico, aos 15 anos foi estudar para a cidade dos doutores, partilhando um apartamento com mais tr\u00eas rapazes &#8211; \u201cos irm\u00e3os que eu n\u00e3o tive\u201d, diz.<\/p>\n<p>A \u201cautonomia controlada\u201d que viveu com essa idade (porque aos fim de semana regressava \u00e0 \u201cpacata vila de Avelar\u201d) permitiu-lhe aprender o significado de \u201cpartilha\u201d, j\u00e1 que \u201cnem sequer sabia que existia essa palavra\u201d. Era bom aluno \u201cn\u00e3o por motiva\u00e7\u00e3o, mas por com\u00e9rcio\u201d. \u201cVendia notas boas aos meus pais, a troco de poder ir a congressos de magia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dois anos de lecciona\u00e7\u00e3o na Escola Superior Agr\u00e1ria de Coimbra, decide deixar a seguran\u00e7a de ao fim do m\u00eas ter o cheque seguro na sua conta banc\u00e1ria para passar a viver da magia. Tem tido muito sucesso, reconhecendo, contudo, que a vida de m\u00e1gico \u00e9 como a de gladiador da Roma Antiga: o primeiro erro \u00e9 tamb\u00e9m o \u00faltimo; \u00e9 a morte do artista. \u201cNo dia em que n\u00e3o tiver que fazer ou em que os meus espect\u00e1culos estejam vazios, \u00e9 poss\u00edvel que retome a carreira acad\u00e9mica. Mas essa \u00e9 uma rede que espero nunca utilizar\u201d, revelou.<\/p>\n<p>Actualmente, Lu\u00eds de Matos faz um programa de magia na televis\u00e3o da Galiza, em directo, nas noites de sexta-feira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Habituado a ser estrela \u00e0 frente do pano, o m\u00e1gico Lu\u00eds de Matos esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura e contou com simplicidade e bom humor como \u00e9 a sua vida longe dos holofotes: os seus princ\u00edpios e valores, a sua hist\u00f3ria. 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