{"id":9263,"date":"2007-04-19T15:50:00","date_gmt":"2007-04-19T15:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9263"},"modified":"2007-04-19T15:50:00","modified_gmt":"2007-04-19T15:50:00","slug":"paroquia-comunidade-do-perdao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/paroquia-comunidade-do-perdao\/","title":{"rendered":"Par\u00f3quia, comunidade do perd\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O perd\u00e3o \u00e9 um dos frutos pascais mais saborosos, a par de tantos outros, que visam anunciar a nova cria\u00e7\u00e3o. Surge ligado \u00e0 paz, ao Esp\u00edrito Santo, \u00e0 miss\u00e3o, \u00e0 cura, \u00e0 transmiss\u00e3o da f\u00e9, \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do sacramento. Dado e recebido pessoalmente, tem sempre uma dimens\u00e3o englobante de toda a realidade humana: a terra que espera a liberta\u00e7\u00e3o do sangue das v\u00edtimas inocentes, a humanidade que anseia por se ver refeita de divis\u00f5es e contendas, a comunidade crist\u00e3 que sente o d\u00e9fice ou a fractura que o pecado provoca e acentua, a Igreja no seu conjunto que comporta, a par da santidade de que est\u00e1 revestida, a limita\u00e7\u00e3o e o falhan\u00e7o dos seus membros e, por consequ\u00eancia, dos seus grupos e movimentos.<\/p>\n<p>O centro da vida crist\u00e3 \u00e9 a gra\u00e7a, enquanto rela\u00e7\u00e3o integral com todas estas realidades, que mant\u00eam e potenciam uma profunda harmonia e coes\u00e3o entre si. Acentuar o pecado \u2013 como em tempos passados \u2013 \u00e9 desfocar a beleza e a grandiosidade dos horizontes a que estamos chamados. \u00c9 certo que a \u201cnossa porta\u201d est\u00e1 aberta a essa hip\u00f3tese e vibra facilmente com a tenta\u00e7\u00e3o inesperada e surpreendente. \u00c9 certo que o \u201cnosso ser\u201d traz consigo uma propens\u00e3o conatural para a sedu\u00e7\u00e3o e o encanto vistosamente apresentados no mito de Eva e Ad\u00e3o. \u00c9 certo que o ambiente social que predominantemente se respira no Ocidente est\u00e1, hoje, repassado de provoca\u00e7\u00f5es e insinua\u00e7\u00f5es, de incentivos e solicita\u00e7\u00f5es. Apesar de tudo isto, o ser humano nasce para a harmonia, vive a construir o equil\u00edbrio interior e social, amadurece a cultivar rela\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia integradora e tolerante, atinge a maturidade sempre que sabe promover a reconcilia\u00e7\u00e3o, aceitar e dar o perd\u00e3o.<\/p>\n<p>No seio materno, inicia-se o processo da cria\u00e7\u00e3o em que os ritmos se contrastam, alternam e tendem a articular: a distens\u00e3o e o sossego com a tens\u00e3o e o conflito, a autonomia e a afirma\u00e7\u00e3o pessoais com a aceita\u00e7\u00e3o das regras comuns e a inser\u00e7\u00e3o social, a converg\u00eancia com a sua contr\u00e1ria divergente, a evolu\u00e7\u00e3o progressiva com a estagna\u00e7\u00e3o prolongada ou definitiva. Este processo vai-se desenvolvendo e condiciona a identidade pessoal e a integra\u00e7\u00e3o grupal, alicerces de uma realiza\u00e7\u00e3o feliz.<\/p>\n<p>O perd\u00e3o surge nesta din\u00e2mica, ora suavizando a for\u00e7a dos p\u00f3los em oposi\u00e7\u00e3o, ora curando as feridas provocadas pelo choque e recriando uma situa\u00e7\u00e3o de nova harmonia. A nova cria\u00e7\u00e3o come\u00e7a a despontar, qual primavera de um tempo que avan\u00e7a para a sua plenitude. A humanidade desfruta, por antecipa\u00e7\u00e3o, da realidade futura de total reconcilia\u00e7\u00e3o. As v\u00edtimas, de qualquer esp\u00e9cie, sentem acalentado o sonho de lhes ver restitu\u00edda a raz\u00e3o que fora destro\u00e7ada pelos seus algozes. Os bens, marcados pelo dinamismo do Esp\u00edrito, reassumem a sua fun\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o ao dispor de todos os humanos. A harmonia universal, que se vai prefigurando com estes passos germinais, n\u00e3o visa restaurar a situa\u00e7\u00e3o antiga, mas desvendar o horizonte novo definitivo, procurando que tudo seja instaurado em Cristo Jesus.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia \u00e9, por excel\u00eancia, a comunidade do perd\u00e3o no meio da sociedade. Tudo nela e por ela pretende ser dom de Deus que se faz doa\u00e7\u00e3o nas atitudes e gestos das pessoas e suas organiza\u00e7\u00f5es. Se esta doa\u00e7\u00e3o \u00e9 recusada ou desvirtuada surge o pecado multicolor. Nesta circunst\u00e2ncia, o dom n\u00e3o se esgota, mas como que refor\u00e7a e assume a intensidade do perd\u00e3o, da \u201cperdoa\u00e7\u00e3o\u201d em excesso para o que era devido, do amor gratuito e exuberante que se pretendeu negar ou adulterar. A oferta renovada supera em muito a situa\u00e7\u00e3o alterada e convida \u00e0 alegria, ao encontro, \u00e0 festa, como se espelha t\u00e3o bem na narra\u00e7\u00e3o de Lucas sobre as par\u00e1bolas da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os, conscientes deste risco e desta maravilha, est\u00e3o mandatados para serem mensageiros e arautos da for\u00e7a transformadora do perd\u00e3o, sobretudo na vida p\u00fablica, em qualquer uma das suas dimens\u00f5es: na fam\u00edlia para se manter fiel ao amor generoso e criativo, atento e compreensivo; na escola para cultivar com esmero pedag\u00f3gico a qualidade do ensino\/aprendizagem; na autarquia para constituir verdadeiramente a sede do governo local a bem do povo, sobretudo de quem realmente est\u00e1 empobrecido e desamparado; na empresa para saber empreender com acerto a harmonia entre as for\u00e7as e os interesses presentes e as exig\u00eancias do bem colectivo; na cultura para fazer com que algo valioso surja de novo e compreender o que vai ocorrendo, procurando fomentar a sua integra\u00e7\u00e3o articulada com a heran\u00e7a que nos foi legada; na religi\u00e3o para purificar a consci\u00eancia e perfilar a imagem do ser humano, tendo presente os tra\u00e7os do rosto de Deus Pai apresentados magistralmente por Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Revigorados por esta \u201cmais valia\u201d, podem os crist\u00e3os sentir-se solid\u00e1rios com todos os outros cidad\u00e3os que lutam pela preven\u00e7\u00e3o de conflitos injustos ou pela sua sana\u00e7\u00e3o, que fazem parte das comiss\u00f5es de verdade e de reconcilia\u00e7\u00e3o, que se disp\u00f5em a desempenhar a miss\u00e3o de jurados e legados da paz, que exercem a fun\u00e7\u00e3o de mediadores, que encontram maneira espont\u00e2nea de ser prest\u00e1veis, de aconselhar, de se \u201cp\u00f4r a caminho\u201d para ajudar a serenar \u00e2nimos exaltados e conflituosos. Esta mais valia deve estar igualmente presente em todas as pessoas amantes da conc\u00f3rdia, do di\u00e1logo e da paz. \u201c\u00c9 a falar que a gente se entende\u201d \u2013 diz o refr\u00e3o popular carregado de sabedoria. E a experi\u00eancia comprova-o abundantemente. E n\u00e3o se pode esquecer a responsabilidade dos que exercem profiss\u00f5es especialmente ligadas a esta \u00e1rea: agentes judici\u00e1rios, policiais, publicit\u00e1rios, televisivos e navegantes da Net.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia, apesar da\u00a0simplicidade de recursos realiza indiscutivelmente um papel de pulm\u00e3o \u201coxigenante\u201d do ambiente, tantas vezes, polu\u00eddo da Igreja, uma fun\u00e7\u00e3o mediadora numa sociedade estruturalmente tensa e conflitiva, uma inst\u00e2ncia de reconcilia\u00e7\u00e3o entre contendores rivais chamados a serem amigos e cooperantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O perd\u00e3o \u00e9 um dos frutos pascais mais saborosos, a par de tantos outros, que visam anunciar a nova cria\u00e7\u00e3o. Surge ligado \u00e0 paz, ao Esp\u00edrito Santo, \u00e0 miss\u00e3o, \u00e0 cura, \u00e0 transmiss\u00e3o da f\u00e9, \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do sacramento. 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