{"id":9485,"date":"2007-04-04T10:45:00","date_gmt":"2007-04-04T10:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9485"},"modified":"2007-04-04T10:45:00","modified_gmt":"2007-04-04T10:45:00","slug":"paroquia-espaco-de-celebracao-da-paixao-florida-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/paroquia-espaco-de-celebracao-da-paixao-florida-do-senhor\/","title":{"rendered":"Par\u00f3quia, espa\u00e7o de celebra\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o florida do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, sobretudo na par\u00f3quia, aproxima as pessoas, refor\u00e7a a comunidade e gera um sentir comum que facilmente se expressa em aten\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e em interven\u00e7\u00e3o social. Este sentir tem como refer\u00eancia a palavra lida ou o sacramento celebrado e a situa\u00e7\u00e3o vivida, tantas vezes sob a forma de d\u00e9fice humano. A interven\u00e7\u00e3o surge como a atitude mais adequada a este deficit, tendo em conta os recursos humanos e as possibilidades materiais dispon\u00edveis ou a conseguir. Gerir este acerto torna-se o rosto vis\u00edvel de uma ci\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 mera gest\u00e3o administrativa, mas pedagogia e pastor\u00edcia, impregnadas pelo Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>As celebra\u00e7\u00f5es paroquiais, durante muito tempo, deram a imagem de \u201cfabricar\u201d crist\u00e3os complexados em rela\u00e7\u00e3o aos problemas do mundo, centrados no culto individualista, preocupados apenas pelo destino eterno das almas, alienados dos prazeres da vida, estranhos perante as novidades que as ci\u00eancias positivas fomentavam em catadupa, passantes que, n\u00e3o sendo da terra, apresentavam um clar\u00e3o desfigurado do c\u00e9u. Em algumas partes, o seu exemplo despertava mais pena e compaix\u00e3o do que desejos de aproxima\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Apesar de tudo isso, foi a vida religiosa nas par\u00f3quias que proporcionou a for\u00e7a necess\u00e1ria ao povo humilde, que pacientemente testemunhou a f\u00e9, cuidou dos doentes e idosos, repartiu os bens com os mendigos \u201cdo Senhor\u201d (assim eram designados os pobres em bastantes aldeias), organizou associa\u00e7\u00f5es para se proteger em caso de inc\u00eandio ou de epidemia, manteve o cora\u00e7\u00e3o aberto \u00e0s grandes necessidades da Igreja, apesar da sobriedade dos parcos haveres. A lista das pessoas virtuosas, em todas as aldeias, pode fazer-se com facilidade.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia, nos seus esfor\u00e7os de renova\u00e7\u00e3o, beneficiou imenso da ac\u00e7\u00e3o evangelizadora dos movimentos apost\u00f3licos, que lhe abriram horizontes novos, imprimiram ao ambiente humano das suas celebra\u00e7\u00f5es um ritmo festivo, cheio de harmonia e beleza, e dotaram de not\u00e1vel dinamismo muitas das suas actividades.<\/p>\n<p>Aqueles horizontes s\u00e3o de servi\u00e7o pr\u00f3ximo e gratuito, de revigoramento da fraternidade, de sentido para o sofrimento e a cruz, de esperan\u00e7a paciente e activa, de afirma\u00e7\u00e3o positiva da vida, de certeza inabal\u00e1vel de um futuro feliz que, entretanto, se vai experienciando de forma limitada e germinal. Jesus Cristo \u00e9 o garante destes horizontes, a testemunha fiel destes valores, o guia seguro deste peregrinar, o mestre inconfund\u00edvel desta sabedoria, o m\u00e9dico sol\u00edcito da integralidade desta terapia. Jesus \u00e9 a marca de qualidade da vida crist\u00e3.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de servi\u00e7o, face a tantas formas doentias de ego\u00edsmos, brilha em atitudes e gestos como o lava-p\u00e9s. A partir deste \u201cgesto sacramental\u201d, a l\u00f3gica da coer\u00eancia convencional cede lugar \u00e0 sua alternativa: ser o maior \u00e9 doar-se por amor, \u00e9 entregar-se por dedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 aprender dos que s\u00e3o os \u00faltimos, os humildes e os mansos de cora\u00e7\u00e3o. Esta forma de proceder tem valor universal e definitivo. A testemunh\u00e1-lo, ao longo da hist\u00f3ria, ficam os crist\u00e3os, quais disc\u00edpulos fi\u00e9is aos ensinamentos de Jesus, com o seu estilo de vida e gestos de doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVistes o que vos fiz? Fazei-o v\u00f3s tamb\u00e9m\u201d \u2013 diz-lhes Jesus. E, desde ent\u00e3o, a mais bela hist\u00f3ria de amor d\u00e1 origem \u00e0s mais ousadas e desconcertantes interven\u00e7\u00f5es. Esta hist\u00f3ria tem a eucaristia como fonte e a humanidade ferida como benefici\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cQuando os partidos fizerem tanto pelos pobres como uma qualquer confer\u00eancia vicentina das nossas par\u00f3quias, reconhe\u00e7o-lhes legitimidade para falarem\u201d \u2013 afirma numa das sess\u00f5es da Assembleia da Rep\u00fablica um deputado bem conhecido pelo p\u00fablico portugu\u00eas. E o desafio est\u00e1 feito.<\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica mostra que o sentido do sofrimento est\u00e1 no amor generoso que \u00e9 mais forte do que a morte. Jesus Cristo assim o testemunha pelo seu exemplo e pela sua palavra. A partir dele, a alian\u00e7a entre o amor e o sofrimento iluminam o alcance da experi\u00eancia humana. S\u00f3 um apaixonado \u201clouco\u201d faria o que ele fez. O Triduo Pascal celebra, de forma eloquente, a sua entrega. A sepultura, que fecha as portas da vida ao morto eliminado ao cair da tarde de sexta, escancara-lhe a aurora feliz na manh\u00e3 da P\u00e1scoa da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia \u00e9 certamente o espa\u00e7o mais comum da celebra\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o florida do Senhor. Nela, pode o povo crist\u00e3o fazer a mem\u00f3ria dos factos e das pessoas \u2013 v\u00edtimas e algozes, cireneus e samaritanas. E o cortejo \u00e9 incont\u00e1vel!<\/p>\n<p>Pode tamb\u00e9m \u2013 ainda que timidamente \u2013 procurar a figura com a qual mais se identifica nesse processo paradigm\u00e1tico, entrar no seu contexto de vida e colher as li\u00e7\u00f5es decorrentes. E vem Pedro assustado e hesitante, que recupera a decis\u00e3o radical do primeiro seguimento; Jo\u00e3o fiel, que, persistente, testemunha o amor definitivo; Judas obcecado pelo bem dos pobres, que, afinal, pretende salvaguardar os seus interesses; Pilatos hip\u00f3crita \u201cinocente\u201d, que n\u00e3o v\u00ea outra verdade a n\u00e3o ser a de se manter no poder; Cireneu surpreendido nos caminhos da vida, que aceita carregar com a parte da cruz que tamb\u00e9m \u00e9 nossa; Ver\u00f3nica compadecida e corajosa, que \u201csalta\u201d do anonimato perante tantos espectadores e limpa o rosto do Justo desfigurado; Centuri\u00e3o atento aos sinais daquele agonizante, que confessa, em nome da autoridade pol\u00edtica, a justeza da causa de Jesus e a serenidade maravilhosa da sua morte; Madalena consumida pelo amor sofrido e inquieto, que \u00e9 surpreendida pela novidade e, cheia de incontida alegria, faz o an\u00fancio pascal ao ritmo do cora\u00e7\u00e3o; disc\u00edpulos de Ema\u00fas desiludidos pelo desfecho dos acontecimentos e cansados de esperan\u00e7as adiadas, que aceitam na viagem um peregrino desconhecido e, enquanto partilham desditas e frustra\u00e7\u00f5es, recebem informa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o aquecendo o cora\u00e7\u00e3o e propiciam o reconhecimento do Senhor e a urg\u00eancia de regressar \u00e0 cidade dos irm\u00e3os expectantes.<\/p>\n<p>De facto, a mem\u00f3ria\u00a0celebrativa da mensagem crist\u00e3, que a par\u00f3quia cont\u00ednua e exemplarmente oferece ao povo fiel, constitui a escola mais estruturante da pessoa humana e abre-lhe horizontes de vida feliz na companhia de modelos realizadores dos mais nobres ideais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, sobretudo na par\u00f3quia, aproxima as pessoas, refor\u00e7a a comunidade e gera um sentir comum que facilmente se expressa em aten\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e em interven\u00e7\u00e3o social. 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