{"id":9494,"date":"2007-04-04T11:28:00","date_gmt":"2007-04-04T11:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9494"},"modified":"2007-04-04T11:28:00","modified_gmt":"2007-04-04T11:28:00","slug":"o-velho-sepulcro-de-jesus-e-o-novo-evangelho-segundo-judas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-velho-sepulcro-de-jesus-e-o-novo-evangelho-segundo-judas\/","title":{"rendered":"O velho sepulcro de Jesus e o novo &#8220;Evangelho Segundo Judas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7a a tonar-se h\u00e1bito. Pela Quaresma, surgem novidades sobre Jesus Cristo, de grande potencial econ\u00f3mico. No ano passado, foi o evangelho de Judas, o papiro com 1700 anos, promovido pela National Geographic. Este ano, s\u00e3o duas: o suposto t\u00famulo de Jesus, promovido pelo realizador de \u201cTitanic\u201d, e o novo \u201cEvangelho Segundo Judas\u201d, do escritor ingl\u00eas Jeffrey Archer. H\u00e1 alguma coisa que se aproveite nestas incurs\u00f5es sobre a figura de Jesus?<\/p>\n<p>O t\u00famulo<\/p>\n<p>\u201cThe lost tomb of Jesus\u201d (\u201cO sepulcro perdido de Jesus\u201d), document\u00e1rio (e livro) realizado por Simcha Jacobovici (canadiano de origem judaica) e produzido por James Cameron, o realizador de \u201cTitanic\u201d, foi exibido no Discovery Channel, no final de Fevereiro e in\u00edcio de Mar\u00e7o, como revelando \u201ca descoberta arqueol\u00f3gica do mil\u00e9nio\u201d. O document\u00e1rio defendia, nem mais nem menos, que tinha sido encontrado o verdadeiro sepulcro de Jesus (filho de Jos\u00e9), onde estariam tamb\u00e9m restos mortais de Maria Madalena, de um filho de ambos (Jud\u00e1) e da restante fam\u00edlia, afirmando que, se Jesus foi sepultado e est\u00e3o l\u00e1 os seus ossos, a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria mais do que uma inven\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos. Logo, e \u00e9 f\u00e1cil concluir, como S. Paulo j\u00e1 o fez, \u00e9 v\u00e3 a f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui claramente duas quest\u00f5es interessantes: uma arqueol\u00f3gica, outra teol\u00f3gica. A arqueol\u00f3gica pode formular-se deste modo: h\u00e1 alguma credibilidade neste suposto t\u00famulo de Jesus (e seus familiares), com ossos e tudo? A teol\u00f3gica: encontrar os ossos de Jesus p\u00f5e em causa a ressurrei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A ambas responde-se: N\u00e3o.<\/p>\n<p>Factos e especula\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>H\u00e1, na verdade, um dado de facto que serviu de ponto de partida para o document\u00e1rio. Na regi\u00e3o de Talpiot, Jerusal\u00e9m, nos in\u00edcios da d\u00e9cada de 1980, foram encontrados dez oss\u00e1rios do I s\u00e9culo da era crist\u00e3. O historiador israelita Rahmani descreve-os em \u201cUm cat\u00e1logo de oss\u00e1rios judaicos\u201d e afirma que cinco deles tinham nomes como Jesus, Maria, Mateus, Jos\u00e9. Trata-se de nomes muito comuns. Nos cerca de mil oss\u00e1rios conhecidos dessa \u00e9poca, em Jerusal\u00e9m, 25% dos nomes femininos s\u00e3o \u201cMaria\u201d (ou variantes), o nome masculino mais comum \u00e9 \u201cJos\u00e9\u201d, o de Jesus aparece oito dezenas de vezes e h\u00e1 v\u00e1rios \u201cJesus, filho de Jos\u00e9\u201d. Da\u00ed que nenhum historiador credenciado (e conv\u00e9m sublinhar que quem mais disseca esta \u00e1rea s\u00e3o os investigadores israelitas \u2013 e n\u00e3o os cat\u00f3licos) tivesse afirmado que encontrou o \u201cverdadeiro t\u00famulo de Jesus\u201d, coisa que, decerto, lhe traria grandes proveitos.<\/p>\n<p>Mas quem vive do espect\u00e1culo tem outros interesses, como reconhece o te\u00f3logo e bispo Bruno Forte: \u201cPorqu\u00ea, ent\u00e3o tanto barulho? Porque Hollywood quis lan\u00e7\u00e1-lo. Dado o \u00eaxito de opera\u00e7\u00f5es como \u2018O C\u00f3digo da Vinci\u2019, tentou-se provocar \u00eaxito an\u00e1logo, tratando da aut\u00eantica quest\u00e3o que entra em jogo, ou seja, se Jesus verdadeiramente ressuscitou\u201d.<\/p>\n<p>Jesus burgu\u00eas?<\/p>\n<p>J\u00e1 depois da exibi\u00e7\u00e3o, um dos cientistas que deram a cara no document\u00e1rio veio dizer que \u201cn\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para ligar este oss\u00e1rio a Maria Madalena ou a qualquer outra pessoa na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, extrab\u00edblica ou eclesial\u201d (P\u00fablico, 19-03-07). Stephen Pfann afirma que o document\u00e1rio compromete-se com \u201cdisparates\u201d, ao interpretar a inscri\u00e7\u00e3o tumular como \u201cMaria, a mestra\u201d(uma refer\u00eancia a Maria Madalena), quando l\u00e1 est\u00e1 \u201cMaria e Marta\u201d, tendo este \u201ce Marta\u201d sido acrescentado por outra m\u00e3o, noutro estilo, em \u00e9poca posterior.<\/p>\n<p>Xavier Picaza, te\u00f3logo espanhol, comentou no seu blogue, com ironia, que, a ser verdade esta hip\u00f3tese, \u201cJesus teria feito parte de uma fam\u00edlia burguesa, enterrado num t\u00famulo nobre, tamb\u00e9m burgu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Sepulcro vazio<\/p>\n<p>Quest\u00e3o bem diferente e j\u00e1 h\u00e1 muito debatida nas escolas teol\u00f3gicas \u00e9: Encontrar (hipoteticamente) os ossos de Jesus p\u00f5e em causa a ressurrei\u00e7\u00e3o? Ou, noutra formula\u00e7\u00e3o: O t\u00famulo vazio de que fala o Novo Testamento \u00e9 prova da ressurrei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Vejamos o que diz outro te\u00f3logo espanhol, Jos\u00e9-Ram\u00f3n Busto:<\/p>\n<p>\u201cJesus n\u00e3o veviveu, mas ressuscitou (&#8230;). O t\u00famulo vazio \u00e9 desnecess\u00e1rio e insuficiente para a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. \u2018Desnecess\u00e1rio\u2019 quer dizer que Jesus pode ressuscitar sem que o corpo nada tenha a ver com a ressurrei\u00e7\u00e3o. O corpo, enquanto \u00e9 um conjunto de \u00e1tomos de hidrog\u00e9nio, de carbono, de oxig\u00e9nio, etc., \u00e9 desnecess\u00e1rio para a ressurrei\u00e7\u00e3o. Na vida de Deus n\u00e3o h\u00e1 oxig\u00e9nio nem carbono. O f\u00edsico do corpo n\u00e3o tem necessariamente a ver com a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. O que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja necess\u00e1ria na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, como tamb\u00e9m na nossa, a incorpora\u00e7\u00e3o na vida de Deus da nossa dimens\u00e3o corporal. Mas ent\u00e3o, como diz Paulo, o nosso corpo ser\u00e1 um corpo espiritual (e Cor 15,44). O facto hist\u00f3rico do t\u00famulo vazio n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 desnecess\u00e1rio mas tamb\u00e9m \u00e9, al\u00e9m disso, insuficiente, como os pr\u00f3prios evangelhos d\u00e3o a entender\u201d (\u201cInicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Cristologia\u201d, Gr\u00e1fica de Coimbra).<\/p>\n<p>\u201cPor que \u00e9 que os meios de comunica\u00e7\u00e3o t\u00eam tanto interesse em ter Jesus como seu alvo? Evidentemente, porque Jesus, no fundo da cultura do Ocidente e n\u00e3o s\u00f3 do Ocidente, constitui um ponto de refer\u00eancia decisivo e importante que tudo o que o afecta nos afecta.\u201d<\/p>\n<p>Bruno Forte (Ag\u00eancia Zenit)<\/p>\n<p>\u201cCreio que Jesus \u00e9 o Filho de Deus que ressuscitou dos mortos. (\u2026) O cristianismo n\u00e3o \u00e9 culto de sepulcros nem de rel\u00edquias materiais de mortos. Se encontr\u00e1ssemos um dia os restos do seu corpo (alguns ossos), isso n\u00e3o iria de modo algum contra a f\u00e9 crist\u00e3. [A ressurrei\u00e7\u00e3o] transborda os limites do tempo e da corporalidade antiga. O novo tempo e espa\u00e7o da pessoa constituem a novidade principal da P\u00e1scoa crist\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>Xavier Pikaza (http:\/\/blogs. periodistadigital.com\/xpikaza.php\/<\/p>\n<p>O filho de Judas quer saber o que aconteceu ao seu pai<\/p>\n<p>Car\u00e1cter bem diverso nos seus objectivos tem este \u201cEvangelho Segundo Judas\u201d (ed. Europa-Am\u00e9rica), escrito por Jerffrey Archer, autor ingl\u00eas de best-sellers e tamb\u00e9m pol\u00edtico conservador, que chegou a estar preso por perj\u00fario e obstru\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Archer \u201cveste a pele\u201d de Benjamin Iscariotes, um suposto filho de Judas, e escreve um evangelho, com cap\u00edtulos e vers\u00edculos como os evangelhos can\u00f3nicos, \u201cpara que todos possam conhecer a verdade sobre Judas Iscariotes, e o papel que ele teve na vida e na tr\u00e1gica morte de Jesus de Nazar\u00e9\u201d (cap. 1, vers. 1). A obra apenas contradiz o evangelho de S. Mateus e os Actos dos Ap\u00f3stolos no que diz respeito \u00e0 figura de Judas, suas inten\u00e7\u00f5es e sua morte. Sem revelar o enredo, muito menos a forma de morte, diga-se somente que, depois da trai\u00e7\u00e3o, Judas torna-se membro da comunidade de Qumran, a \u201cseita\u201d que vivia no deserto, longe do juda\u00edsmo oficial, \u00e0 espera do Messias.<\/p>\n<p>Este \u201cEvangelho\u201d foi escrito com a ajuda de Francis J. Moloney, padre salesiano, por indica\u00e7\u00e3o do cardeal em\u00e9rito de Mil\u00e3o, Carlo Maria Martini. Archer \u2013 diz-se na entrada da obra \u2013 preocupou-se em escrever uma hist\u00f3ria para o p\u00fablico do s\u00e9c. XXI, e Moloney assegurou que o texto pudesse parecer cr\u00edvel a um leitor, crist\u00e3o ou judeu, do s\u00e9culo I.<\/p>\n<p>Estamos, como \u00e9 f\u00e1cil de supor, perante uma obra de fic\u00e7\u00e3o, embora com verosimilhan\u00e7a hist\u00f3rica. O gloss\u00e1rio final \u00e9 \u00fatil para conhecer melhor o ambiente dos evangelhos can\u00f3nicos. H\u00e1, \u00e9 certo, uma reabilita\u00e7\u00e3o da figura de Judas, mas tal n\u00e3o \u00e9 feito \u00e0 custa do essencial do cristianismo. L\u00ea-se o livro e concorda-se com o que o padre salesiano afirmou: \u201c\u00c9 um modo de aproximar as pessoas da B\u00edblia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7a a tonar-se h\u00e1bito. Pela Quaresma, surgem novidades sobre Jesus Cristo, de grande potencial econ\u00f3mico. No ano passado, foi o evangelho de Judas, o papiro com 1700 anos, promovido pela National Geographic. 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