{"id":9545,"date":"2007-04-19T16:50:00","date_gmt":"2007-04-19T16:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9545"},"modified":"2007-04-19T16:50:00","modified_gmt":"2007-04-19T16:50:00","slug":"dia-14-marco-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/dia-14-marco-2007\/","title":{"rendered":"Dia 14 Mar\u00e7o 2007"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 assim, a vida programada se desprograma, sem darmos conta. \u00c9 aquele desabafo existencial: hoje, o primeiro dia do resto da tua vida. Nem uma m\u00fasica \u201cQuelqu\u2019un m\u2019a dit\u201d, ou \u201cTout Le Monde\u201d, ou ainda, \u201cLe ciel dans une chambre\u201d, de Carla Bruni, essa sereia nost\u00e1lgica, nos pode salvar da infelicidade de terminarmos os nossos queridos dias \u00fateis, zelosos e imprescind\u00edveis.<\/p>\n<p>Um click e nos passamos para outra dimens\u00e3o, sempre com o \u00f3nus do abandono do Corpo. N\u00e3o queria a coisa desse jeito, assim t\u00e3o abrupto. Mas os trav\u00f5es n\u00e3o obedeceram, e a\/o Ford-Ranger, f\u00e1lica e sofisticada, com seu ABS, o cinto de seguran\u00e7a apertado, os pneus novos depois do tempo previsto, a velocidade n\u00e3o t\u00e3o excessiva quanto moderada, s\u00e3o menos que nada. <\/p>\n<p>Conting\u00eancia e condi\u00e7\u00e3o humana ou sorte e destino? Hora marcada ou adiada? Juntemos \u00e1gua, muita \u00e1gua que \u00e9 Vida, chuva aben\u00e7oada, mas n\u00e3o por cima de um alcatr\u00e3o trai\u00e7oeiro\u2026 receita fatal. Cinco ou oito segundos, n\u00e3o muito mais que menos, e s\u00f3 tive tempo de pensar: \u201cVou acabar assim\u2026 sem mais!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o era um dia desses cheios e stressantes, como a maioria dos nossos dias p\u00f3s-modermos, dia-a-p\u00f3s-dia-a-p\u00f3s-dia, num tempo omnipresente, circular e fechado. Um dia sem amanh\u00e3, f\u00e9 reduzida ao ate\u00edsmo pr\u00e1tico. Serei a uni\u00e3o de Nietzsche e Madre Teresa. <\/p>\n<p>Ao caf\u00e9, a tentativa de dizer uma postura em equipa colegial e correspons\u00e1vel, n\u00e3o deu certo porque algu\u00e9m pede, sempre algu\u00e9m, \u201cos d\u00edzimos\u201d transformados em \u201ctrocos\u201d, incompreens\u00edvel. Sa\u00edda r\u00e1pida para um Bairro, \u201cNovo Castelo\u201d, pelo menos a bicicleta n\u00e3o ultrapassa a velocidade permitida. As visitas quaresmais foram excelentes, sem pressas, dando a conversa por terminada s\u00f3 no fim; sem diplomacia, pois os pobres n\u00e3o conhecem essa \u201csabotagem\u201d. <\/p>\n<p>Durante a tarde, talvez dez confiss\u00f5es que n\u00e3o foram for\u00e7adas e curam o nosso autismo. Bendita logoterapia, menos confiss\u00e3o, mais audi\u00e7\u00e3o, apenas isso, que \u00e9 f\u00e1cil, mas n\u00f3s complicamos o que \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Finalmente, cheguei a tempo-e-horas, para a missa costumeira, redentora e festiva. Porque s\u00f3 o costume da festa redime um quotidiano absurdo sem Deus. Exagero n\u00e3o, realismo sim. Vinha com a alma vermelha, verde ou azul. Creio que era amarela, sem pinta de sangue. Tinha sido apenas um Susto, disse meio gago, meio superfluente, \u00e0s Irm\u00e3s do minist\u00e9rio n\u00e3o-ordenado, mas efectivo e real. Era um Susto e grande, mas n\u00e3o o \u00faltimo, esse \u00e9 que \u00e9 perigoso. <\/p>\n<p>A experi\u00eancia humana \u00e9 intransfer\u00edvel! Mas podemos partilhar sem impor. \u00c9 a\u00ed que colocamos a categoria do Encontro, que nos faz gente, criaturas de afectos, respons\u00e1veis pelo Outro, sem demagogia. Na homilia da missa de 7\u00badia, e de todos os dias doloridos tocados pelas nossas mortes, falei com o micro em m\u00e3os quentes. Na mente, os tr\u00eas momentos: o que a Palavra diz (objectivo); o que a Palavra me diz (subjectivo); e o que a Palavra me leva a dizer a outros (inter-subjectivo). A un\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o falaram no meu Corpo assustado. <\/p>\n<p>Ontem, o pai, essa raiz forte, fez 65 anos; a av\u00f3 est\u00e1 em estado de agonia terminal, hoje, poderia ser o fim e a ruptura impens\u00e1vel com esse enraizamento cultural, que passa de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, para que se possa cumprir a Lei da Vida, a lei da natureza: o filho n\u00e3o morre antes da m\u00e3e\/pai! E Jesus, morreu gritando pelo seu\/nosso Pai. No ser\u00e3o, em fam\u00edlia do nosso sacerd\u00f3cio comum, celebramos a merecida reforma, com um brinde de White Horse &#8211; Fine Old. Agora, sim, posso rezar a recomenda\u00e7\u00e3o de santa Faustina Kowalska: \u201cJesus, eu confio em V\u00f3s!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o mandem na minha Consci\u00eancia, podem fazer a minha agenda, eu deixo! N\u00e3o mandem na minha Liberdade, podem exigir as minhas compet\u00eancias respons\u00e1veis, eu deixo! N\u00e3o mandem no meu Corpo, podem exigir o meu suor, mas o pre\u00e7o do meu trabalho gratuito, eu n\u00e3o deixo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 assim, a vida programada se desprograma, sem darmos conta. \u00c9 aquele desabafo existencial: hoje, o primeiro dia do resto da tua vida. 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