{"id":9636,"date":"2007-05-03T15:54:00","date_gmt":"2007-05-03T15:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9636"},"modified":"2007-05-03T15:54:00","modified_gmt":"2007-05-03T15:54:00","slug":"lancar-as-feras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/lancar-as-feras\/","title":{"rendered":"Lan\u00e7ar \u00e0s feras"},"content":{"rendered":"<p>Dentro de casa, com os amigos, a meia voz, com pre\u00e2mbulo harm\u00f3nico, diz-se quase tudo acerca de todos. At\u00e9 se pensa, por vezes, que \u00e9 leg\u00edtimo ou at\u00e9 pedag\u00f3gico destro\u00e7ar o vizinho. E h\u00e1 quem julgue que \u00e9 higi\u00e9nico e terap\u00eautico criticar, dizer mal, acrescentar uns p\u00f3s para tornar a narrativa interessante, come\u00e7ar por declarar que \u201c\u00e9 uma conversa aqui entre n\u00f3s\u201d. E a\u00ed vai o mundo duma ponta \u00e0 outra numa mordacidade venenosa onde ganha legitimidade a par\u00e1bola, a hip\u00e9rbole, a maledic\u00eancia pura, o esc\u00e1rnio, a humilha\u00e7\u00e3o, a mentira, a cal\u00fania. Tudo parece legitimado pela grossura das paredes e pela confian\u00e7a imensa que se deposita no interlocutor, que vai repetir o esquema parcial ou totalmente. E assim sucessivamente. Chegado ao estertor do maldizer, expira-se um al\u00edvio com ar de quem apenas, inocentemente, desabafou sem prejudicar ningu\u00e9m, nem colocar na pra\u00e7a p\u00fablica a mais pequena m\u00e1cula acerca de quem quer que seja.<\/p>\n<p>A tecnologia n\u00e3o alterou este estado de esp\u00edrito. Ampliou, amplificou, multiplicou, fez alastrar a superf\u00edcie do privado, espalhou, como vento rodopiante, as penas leves duma ave imagin\u00e1ria que era o bom nome de algu\u00e9m que, mesmo n\u00e3o sendo perfeito, nem por isso perdeu direito \u00e0 dignidade. Se se trata de personalidade em palco ou no pelourinho da aldeia, parece que a crueldade redobra, numa esp\u00e9cie de sadismo verbal. Explode a condena\u00e7\u00e3o, acende-se a fogueira, lan\u00e7a-se o r\u00e9probo, sem direito a honra, hist\u00f3ria, fam\u00edlia ou afecto. Como se fora um manequim descarnado e insens\u00edvel. Com culpa, meia culpa, ou culpa nenhuma.<\/p>\n<p>Tudo isto parece um jogo mas n\u00e3o \u00e9. Lan\u00e7ada no enri\u00e7o dos media, a crueldade multiplica-se por quantos exemplares se imprimem e por outros tantos ouvintes ou espectadores, ou inter-nautas do grande circo medi\u00e1tico. Porque \u2013 outra agravante \u2013 passa a ser puro objecto de divertimento. Como nos coliseus e anfiteatros, onde o ranger de dentes das feras a trucidar pessoas era apenas uma divers\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>\u00c9 um regresso ao paganismo. Onde aos crist\u00e3os se pergunta em que se distinguem dos outros nos ju\u00edzos cru\u00e9is que aplicam a inocentes ou culpados. Ou como deixam cair a t\u00fanica branca para se banquetearem com o sangue da dignidade dos outros. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentro de casa, com os amigos, a meia voz, com pre\u00e2mbulo harm\u00f3nico, diz-se quase tudo acerca de todos. At\u00e9 se pensa, por vezes, que \u00e9 leg\u00edtimo ou at\u00e9 pedag\u00f3gico destro\u00e7ar o vizinho. E h\u00e1 quem julgue que \u00e9 higi\u00e9nico e terap\u00eautico criticar, dizer mal, acrescentar uns p\u00f3s para tornar a narrativa interessante, come\u00e7ar por declarar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-9636","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9636"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9636\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}