{"id":9674,"date":"2007-05-09T14:43:00","date_gmt":"2007-05-09T14:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9674"},"modified":"2007-05-09T14:43:00","modified_gmt":"2007-05-09T14:43:00","slug":"o-meu-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-meu-silencio\/","title":{"rendered":"O meu sil\u00eancio&#8230; (*)"},"content":{"rendered":"<p>Se eu tivesse que escolher uma \u00e1rvore para significar a sublime pureza do sil\u00eancio, seria a oliveira, que, indiferente ao calor sufocante ou ao frio penetrante, sobrevive na austeridade do seu ser.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher uma cor para exprimir a decanta\u00e7\u00e3o do som feito sil\u00eancio, seria esse paradoxo do branco escuro, que nos acolhe na suavidade do branco e nos sossega na tristeza do escuro.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher um tempo para pintar a purifica\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, seria o Outono, com as suas sombras, a sua nostalgia e a despedida multicolor e compassiva das folhas.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher os momentos para o pleno usufruir do sil\u00eancio nas vinte e quatro horas de cada dia, seriam o enternecimento do adormecer e a suavidade ainda que instant\u00e2nea do acordar.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher um sentimento para compreender o \u00e1gape do sil\u00eancio, seria o amor maternal para com a crian\u00e7a que, nascida no ventre, se prepara para viver.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher um nome de mulher para significar o sil\u00eancio na ora\u00e7\u00e3o, seria Maria; e depois adormeceria envolto na sua tranquilidade.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher uma m\u00fasica para partilhar o som do sil\u00eancio, seriam os intervalos de respira\u00e7\u00e3o no meio da exalta\u00e7\u00e3o da abertura Egmont de Beethoven.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher um som para traduzir o sil\u00eancio do mist\u00e9rio da vida, seria o do choro de uma crian\u00e7a indefesa no meio da viol\u00eancia gratuita.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher um mineral que me transmitisse o c\u00f3digo gen\u00e9tico do sil\u00eancio, n\u00e3o seria o do sil\u00eancio de ouro, mas o sil\u00eancio agreste, tel\u00farico e puro do granito.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher uma idade da vida para exaltar o valor humano do sil\u00eancio, seria aquela em que o som omnipresente mais asfixiante se torna.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio da alegria, seriam t\u00e3o s\u00f3 as palavras n\u00e3o ditas num olhar de afecto serenamente radioso.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio da harmonia, seria o da reconcilia\u00e7\u00e3o do futuro com o da purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do passado, no cruzamento do ru\u00eddo da rotina.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio do desespero, seria o do cair das l\u00e1grimas depois de j\u00e1 n\u00e3o se terem na imensid\u00e3o do que foram. <\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio da verdade, seria apenas ela, a verdade filtrada pela mudez, a verdade dos inocentes.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio do medo, seria o do vulc\u00e3o da coragem de o poder ter.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio da saudade purificada pela dist\u00e2ncia da aus\u00eancia, seria o da solid\u00e3o da confiss\u00e3o suprema.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio de um sonho, seria o da serenidade de ele j\u00e1 n\u00e3o o ser. <\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio da esperan\u00e7a, seria sempre o da esperan\u00e7a do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o sil\u00eancio dos sil\u00eancios, seria o deserto como antec\u00e2mara da eternidade na quietude do tempo e na serenidade do encontro.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher uma palavra \u2013 s\u00f3 uma \u2013 para traduzir a plenitude do sil\u00eancio, seria adeus, que \u00e9 a forma sincopada de nos dedicarmos a Deus.<\/p>\n<p>Se eu tivesse que escolher o meu sil\u00eancio\u2026 <\/p>\n<p>*(Adaptado de texto que escrevi para um livro recentemente editado, \u201cUm minuto de sil\u00eancio\u201d, da editora \u201cGuerra e Paz\u201d)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se eu tivesse que escolher uma \u00e1rvore para significar a sublime pureza do sil\u00eancio, seria a oliveira, que, indiferente ao calor sufocante ou ao frio penetrante, sobrevive na austeridade do seu ser. 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