{"id":9789,"date":"2007-05-16T16:15:00","date_gmt":"2007-05-16T16:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9789"},"modified":"2007-05-16T16:15:00","modified_gmt":"2007-05-16T16:15:00","slug":"os-velhos-reformados-das-marinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-velhos-reformados-das-marinhas\/","title":{"rendered":"Os velhos reformados das marinhas"},"content":{"rendered":"<p>De vez em quando, corto a manh\u00e3 e vou tomar caf\u00e9 ao Bairro de Santiago. Ali, na Rua de Espinho, onde tamb\u00e9m h\u00e1 flores a precisar da \u00e1gua da aten\u00e7\u00e3o e do amor. Preciso de ver aquela gente e ela tamb\u00e9m gosta de me ver. No caf\u00e9 onde entro, as ciganas logo cochicham, passam palavra e sorriem a dizer que me conhecem. Eu sa\u00fado, tamb\u00e9m sorrio, falo, saio desejando um bom dia. No caf\u00e9 do Bairro, toda a gente se conhece.<\/p>\n<p>Foi no Domingo e a cidade estava mais buli\u00e7osa. Era a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos finalistas e via-se gente com ar festivo por todo o lado. Tamb\u00e9m fui a Santiago. Ao meu caf\u00e9.<\/p>\n<p>Um homem, bem idoso pela apar\u00eancia, de bengala e boina larga, encostado \u00e0 parede, acolhia o sol lindo da manh\u00e3. Das poucas coisas que os pobres e os velhos podem gozar sem ter de pagar o que quer que seja, ou de pedir licen\u00e7a a quem quer que seja. Dirigi-me a ele e saudei-o com respeito e carinho. Respondeu-me sorridente, com palavras de quem me conhecia. E de facto conhecia. Deu para falar mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Os chinelos deixavam ver uns p\u00e9s feridos de sofrimento. Contou-me que foi do sal das marinhas, onde sempre trabalhara ao longo da vida. Pensei que andasse j\u00e1 pelos oitenta e disse-lho. Tinha setenta e tr\u00eas, e recordou-me logo que era mais novo do que eu, adiantando, com a certeza de quem n\u00e3o se enganava, a conta certa da minha idade. <\/p>\n<p>Este encontro inesperado de simplicidade, n\u00e3o conseguiu, por\u00e9m, esconder um mundo de preocupa\u00e7\u00f5es que se lhe liam nos olhos e espalhavam sombras no seu rosto. Sim, andava a tratar-se dos p\u00e9s, coisa grave e morosa, foi dizendo e, tamb\u00e9m, de uma bronquite cr\u00f3nica, que s\u00f3 aliviava com a bomba para ajudar a respirar. Meteu a m\u00e3o ao bolso e mostrou. Era mesmo assim.<\/p>\n<p>Morava ali no Bairro com a fam\u00edlia. E que tal era a pens\u00e3o de reforma? Indaguei eu. Depois de uma vida longa de trabalho duro, uma mis\u00e9ria de quarenta contos, respondeu. Casa, comida, roupa, rem\u00e9dios\u2026 J\u00e1 viu? Como \u00e9 isto poss\u00edvel? Ao ouvi-lo, j\u00e1 tinha feito a pergunta a mim mesmo. J\u00e1 me tinha visto e metido, como pude, na sua pele. Ele \u00e9 um de muitos, que se v\u00eaem por a\u00ed ao sol, quando h\u00e1 sol. Como \u00e9 isto poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Teve possibilidade de falar e desabafar. Ficou mais aliviado naquela manh\u00e3 de Domingo. N\u00e3o do peso do dia a dia, nem do beco sombrio para onde o empurrara uma vida de luta, depressa esquecida por quem dela beneficiou. O Estado d\u00e1-lhe agora, em jeito de patr\u00e3o generoso e por favor, uma esmola que n\u00e3o pode negar, umas pobres migalhas que n\u00e3o d\u00e3o para o p\u00e3o.<\/p>\n<p>Partilhamos ali um pouco do nosso tempo e do mais que a vida nos permitiu. Ele, verdade, preocupa\u00e7\u00f5es e dores. Eu, aten\u00e7\u00e3o, amor e respeito e um pouco do meu p\u00e3o. Ficamos ambos mais ricos, que nem s\u00f3 de dinheiro se enriquece a vida.<\/p>\n<p>Neste dia, fazia-se a recolha para o Banco Alimentar contra a Fome. A fome \u00e9 uma realidade. Fome de p\u00e3o, de justi\u00e7a, de respeito, de carinho, de reconhecimento, de uma migalha de aten\u00e7\u00e3o de quem passa e pode nem olhar quem est\u00e1.<\/p>\n<p>Os ber\u00e7os onde se nasce, n\u00e3o s\u00e3o de ouro, como \u00e0s vezes se diz, nem de madeira tosca, como tamb\u00e9m acontece. Nasce-se sempre num ber\u00e7o igual. O do colo da m\u00e3e, que acolhe com alegria o que trouxe escondido no seu ventre. Depois, h\u00e1 ber\u00e7os diferentes, at\u00e9 ao momento em que de novo tudo volta a ser igual, para ricos e pobres. <\/p>\n<p>Naquele Domingo, era ainda o Dia a M\u00e3e, a que nunca se esquece, a do amor igual.<\/p>\n<p>Os velhos s\u00e3o um trope\u00e7o a dificultar o caminho de quem s\u00f3 v\u00ea dinheiro. Dinheiro que os \u201cgrandes\u201d recebem aos milh\u00f5es e os \u201cpobres\u201d aos c\u00eantimos.<\/p>\n<p>A reforma das marinhas \u00e9 igual a tantas outras de gente que sempre trabalhou no duro. Nunca dar\u00e1 para viver com dignidade e conforto. Mas isso n\u00e3o incomoda os que est\u00e3o confortados. Os pobres n\u00e3o fazem greves. Podiam clamar por p\u00e3o e, mais ainda, por justi\u00e7a. Mas uma sociedade apressada n\u00e3o d\u00e1 pelos injusti\u00e7ados. Pobres dos pobres!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De vez em quando, corto a manh\u00e3 e vou tomar caf\u00e9 ao Bairro de Santiago. Ali, na Rua de Espinho, onde tamb\u00e9m h\u00e1 flores a precisar da \u00e1gua da aten\u00e7\u00e3o e do amor. Preciso de ver aquela gente e ela tamb\u00e9m gosta de me ver. 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