{"id":9856,"date":"2007-05-31T16:21:00","date_gmt":"2007-05-31T16:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9856"},"modified":"2007-05-31T16:21:00","modified_gmt":"2007-05-31T16:21:00","slug":"sempre-as-horas-do-tempo-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sempre-as-horas-do-tempo-pascal\/","title":{"rendered":"Sempre as Horas do Tempo Pascal"},"content":{"rendered":"<p>Estar morto espiritualmente \u00e9 terr\u00edvel: \u00e9 o fundo vazio do desejo, no seu lado avesso, a alma sem esperan\u00e7a. A certeza da Vida reside num tempo de vida unido, gr\u00e1vido e oferecido. Tempo unido, que \u00e9 coes\u00e3o interior, feita da \u201cvontade\u201d cumprida no vigor \u00e9tico. Tempo gr\u00e1vido, porque \u00e9 agraciado em Deus, fonte de todos os dons, experimentados e sonhados. E tempo oferecido, doado e sacrificado, na generosidade para os outros (os pequenos, os prostitu\u00eddos, os pobres). A\u00ed e s\u00f3 assim, seremos feitos dum Tempo Pascal unido, gr\u00e1vido e oferecido. Esta \u00e9 a minha desejada ressurrei\u00e7\u00e3o, pequena realiza\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, numa santidade comunit\u00e1ria. <\/p>\n<p>Numa circunst\u00e2ncia, reflexiva e existencial, viajando de avi\u00e3o (que eu seja todo transparente: Voo 1698\/Voo 1970, GOL, pre\u00e7o na concorr\u00eancia: 384,42R); no regresso de uma assembleia interna, a ida foi um \u201cpouquinho\u201d mais cara, (resumindo tudo, com \u201c3 T.T.T.\u201d = trabalho, turismo, terapia). Tempo \u201cgasto\u201d das 9h28 \u00e0s 15h44, partindo de Belo Horizonte (MG), ponte em Bras\u00edlia (DF), chegada em S. Lu\u00eds do Maranh\u00e3o (MA), tamb\u00e9m num sentido transcendental, em que o tempo livre, \u00e9 sempre o \u201caqui e agora\u201d do meu melhor tempo ocupado. <\/p>\n<p>Saboreei, durante essa viagem at\u00edpica, a leitura meditada da obra \u201cA intui\u00e7\u00e3o do instante\u201d, de Gaston Bachelard (1884-1962), dela permanece esta delimita\u00e7\u00e3o incisiva, do que preciso praticar. Um dos meus lemas actuais, cozido e cru, \u00e9: \u201cO que n\u00e3o est\u00e1 no hor\u00e1rio n\u00e3o existe!\u201d (inspirado por J.B.Lib\u00e2nio). Ficam dois excertos, densos, para encher as nossas horas de P\u00e1scoa di\u00e1ria:<\/p>\n<p>Excerto I. \u201c(\u2026) Sentimos ent\u00e3o um surdo sofrimento, quando sa\u00edmos em busca dos instantes perdidos. Lembramo-nos daquelas horas ricas que se marcam ao compasso dos mil sons dos sinos da P\u00e1scoa, desses sinos da ressurrei\u00e7\u00e3o cujas batidas n\u00e3o se contam, porque todas elas contam, porque cada qual tem um eco em nossa alma desperta. E essa lembran\u00e7a de alegria \u00e9 j\u00e1 um remorso, quando compararmos, a essas horas de vida total, as horas intelectualmente lentas porque relativamente pobres, as horas mortas porque vazias \u2013 vazias de des\u00edgnio, como dizia Carlyle do fundo de sua tristeza -, as horas hostis intermin\u00e1veis que d\u00e3o em nada.<\/p>\n<p>E sonhamos com a hora divina que daria tudo. N\u00e3o a hora plena, mas a hora completa. A hora em que todos os instantes do tempo seriam utilizados pela mat\u00e9ria, a hora em que todos os instantes realizados na mat\u00e9ria seriam utilizados pela vida, a hora em que todos os instantes vividos seriam sentidos, amados, pensados. A hora, por conseguinte, em que a relatividade da consci\u00eancia seria apagada, porque a consci\u00eancia seria a exacta medida do tempo completo.<\/p>\n<p>Finalmente, o tempo objectivo \u00e9 o tempo m\u00e1ximo; \u00e9 aquele que cont\u00e9m todos os instantes. Ele \u00e9 feito do conjunto denso dos actos do Criador\u201d1.<\/p>\n<p>Excerto II. \u201c(\u2026) No pr\u00f3prio amor, o singular \u00e9 sempre pequeno, permanece anormal e isolado: n\u00e3o pode tomar lugar no ritmo regular que constitui um h\u00e1bito sentimental. Pode-se colocar, em torno de suas lembran\u00e7as de amor, todo particular que se quiser, a sebe de pilriteiros ou o portal florido, a noite outonal ou a aurora de Maio. O cora\u00e7\u00e3o sincero \u00e9 sempre o mesmo. A cena pode mudar, mas o actor \u00e9 sempre o mesmo. A alegria de amar, em sua novidade essencial, pode surpreender e maravilhar. Mas, vivendo-a em sua profundidade, n\u00f3s a vivemos em sua simplicidade. Os caminhos da tristeza n\u00e3o s\u00e3o menos regulares. Quando um amor perdeu seu mist\u00e9rio perdendo seu futuro, quando o destino, fechando o livro abruptamente, p\u00f4s termo \u00e0 leitura, reconhecemos na recorda\u00e7\u00e3o, sob as varia\u00e7\u00f5es da saudade, o tema \u2013 t\u00e3o claro, t\u00e3o simples, t\u00e3o geral \u2013 do sofrimento humano. \u00c0 beira do t\u00famulo, Guyau dizia ainda um verso de fil\u00f3sofo: \u00abA felicidade mais doce \u00e9 aquela que se espera\u00bb. N\u00f3s mesmos lhe responderemos, evocando \u00abA felicidade mais pura, aquela que se perdeu\u00bb\u201d2.<\/p>\n<p>1 BACHELARD, Gaston, A intui\u00e7\u00e3o do instante, Verus Editora, Campinas, 2007, pp. 50-51.<\/p>\n<p>2 IDEM, o.c., pp.89-90.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estar morto espiritualmente \u00e9 terr\u00edvel: \u00e9 o fundo vazio do desejo, no seu lado avesso, a alma sem esperan\u00e7a. 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