{"id":9857,"date":"2007-05-31T16:24:00","date_gmt":"2007-05-31T16:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9857"},"modified":"2007-05-31T16:24:00","modified_gmt":"2007-05-31T16:24:00","slug":"casar-ou-acasalar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/casar-ou-acasalar\/","title":{"rendered":"Casar ou acasalar?"},"content":{"rendered":"<p>Em cima da linha <!--more--> Um encontro, \u2026 depois de muitos anos. Os cumprimentos, a conversa e as inevit\u00e1veis, saud\u00e1veis e saudosas recorda\u00e7\u00f5es. Apesar da correria da vida, sempre se arranja um bocado de tempo para os amigos. No decorrer da conversa lembram-se os amigos, os companheiros. Toca a perguntar pelos outros\u2026 Fulano assim, sicrano assado, beltrano \u2026 Que \u00e9 feito dele? Acabou o curso? \u00c9 casado? \u2026 Inesperadamente a resposta, acompanhada de um sorriso algo malicioso, trouxe, n\u00e3o direi algo de novo, mas dito de uma maneira diferente: Vai-se casando. N\u00e3o ficou por aqui a nossa conversa, trouxemos \u00e0 mem\u00f3ria os velhos tempos, como se costuma dizer, e \u2026 a despedida.<\/p>\n<p>\u00c0 alegria do encontro segue-se o caminho para casa. Devo dizer que um dos locais onde me apraz mais a divaga\u00e7\u00e3o do pensamento \u00e9 o autom\u00f3vel. A m\u00fasica e as not\u00edcias que fui ouvindo n\u00e3o chegaram \u00e0 minha consci\u00eancia. Ia absorto comigo mesmo. Vai-se andando, vai-se estudando, vai-se vivendo, vai-se ficando mais velho. Parece que a vida vai acontecendo, parece que tudo vai correndo. D\u00e1 a impress\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 decis\u00f5es a tomar, n\u00e3o h\u00e1 caminhos a percorrer, n\u00e3o h\u00e1 projectos a realizar. E fui pensando a vida e fui pensando como n\u00f3s andamos no mundo assim como que \u2026 para ir andando. A superficialidade envolve-nos, a abordagem dos grandes problemas da vida \u00e9 meramente acidental, os grandes desafios que se nos deparam s\u00e3o abordados apenas pela rama. A triste imagem de uma leviandade sem medida, de uma vida sem objectivos definidos, de um caminhar sem ideais capazes de nos atirarem para a frente, correndo os riscos, contestando opini\u00f5es, remando contra a mar\u00e9. <\/p>\n<p>Que lugar para as decis\u00f5es assumidas e respons\u00e1veis? Que espa\u00e7o para as necess\u00e1rias tomadas de posi\u00e7\u00e3o perante as realidades que nos cercam? Que linha de rumo seguir?<\/p>\n<p>E entrei nesse mundo do vai-se casando\u2026 para me interrogar.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, creio que seria mais correcto trocar a palavra casando por acasalando. Depois, gostaria de aprofundar esta ideia: casar \u00e9 uma coisa, acasalar \u00e9 outra! Na verdade, sinto que hoje as pessoas est\u00e3o mais do lado do acasalamento do que do lado do casamento. Se olharmos com aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa volta, podemos mesmo ficar preocupados.<\/p>\n<p>Casar \u00e9 uma coisa, acasalar \u00e9 outra, indiscutivelmente. Acasalar \u00e9 ocasional, acidental, superficial. N\u00e3o h\u00e1 casamento somente porque se unem, sexualmente, o masculino e feminino. Isso \u00e9 acasalamento.<\/p>\n<p>Casar \u00e9 dar sentido a um projecto s\u00e9rio, alicer\u00e7ado e de longo alcance. Casar \u00e9 dar sentido ao amor vivido a dois na solidez do di\u00e1logo, da vida em comum, da felicidade que se pretende construir, embora conscientes das dificuldades que podem criar barreiras dif\u00edceis, mas sempre ultrapass\u00e1veis. Casar \u00e9 fazer com que o desgaste natural da vida n\u00e3o perturbe a consecu\u00e7\u00e3o dos objectivos e ideais desejados. Nada disto entra no acasalamento. A\u00ed tudo \u00e9 passageiro: desde os parceiros aos compromissos, desde as responsabilidades ao imediatismo dos prazeres. Tudo \u00e9 corporal, tudo \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o leviana, tudo \u00e9 sexo, tudo \u00e9 \u2026 prostitui\u00e7\u00e3o! \u00c9 o ser humano reduzido ao irracional.<\/p>\n<p>\u00c9 o casamento, constitui\u00e7\u00e3o est\u00e1vel da fam\u00edlia, num projecto s\u00e9rio de rela\u00e7\u00e3o, que humaniza a pessoa. Porque aqui entra tamb\u00e9m a alma: os sentimentos, as emo\u00e7\u00f5es, a partilha e o amor. O casamento \u00e9 um desafio a uma comunh\u00e3o total e permanente de vida, numa realiza\u00e7\u00e3o conseguida da sexualidade humana. Isto s\u00f3 pode ser entendido, se nos situarmos numa perspectiva de realiza\u00e7\u00e3o vocacional: \u00c9 um caminho, livremente escolhido e assumido, que nos envolve o corpo e a alma numa linha de verdadeira procura da felicidade. E essa felicidade \u00e9 poss\u00edvel, se nos sentirmos chamados a constru\u00ed-la para bem dos dois e dos filhos.<\/p>\n<p>Com princ\u00edpios religiosos ou sem eles, o casamento \u00e9 sempre um valor de elevada qualidade, porque envolve pessoas na rela\u00e7\u00e3o mais profunda da sua dignidade humana: o amor.<\/p>\n<p>H\u00e1, todavia, pessoas que nunca conseguir\u00e3o fazer as outras felizes, porque n\u00e3o t\u00eam voca\u00e7\u00e3o para construir um lar, para acolher os outros, e, inevitavelmente, v\u00e3o fazendo da vida um verdadeiro inferno, para si e para os outros. <\/p>\n<p>Quantas desilus\u00f5es, quantas separa\u00e7\u00f5es, quantas diverg\u00eancias resultam da falta de projectos de vida, de adiamentos cont\u00ednuos, e da falta de vontade de encontrar solu\u00e7\u00f5es est\u00e1veis! Quanto tempo perdido, quando, adultos, agimos com os crit\u00e9rios emocionais dos adolescentes. Dessa maneira, a pr\u00f3pria fidelidade matrimonial pode n\u00e3o passar de um simples acasalamento.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o casamento \u00e9 uma quest\u00e3o de voca\u00e7\u00e3o, seguida e conseguida at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. <\/p>\n<p>NOTA DE DIREC\u00c7\u00c3O:<\/p>\n<p>As cr\u00f3nicas anteriores do Pe Costa Leite encontram-se reunidas no livro \u201cUm outro olhar &#8211; 2\u201d, que pode ser adquirido na Livraria Santa Joana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cima da linha<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-9857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}