{"id":986,"date":"2010-03-24T15:31:00","date_gmt":"2010-03-24T15:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=986"},"modified":"2010-03-24T15:31:00","modified_gmt":"2010-03-24T15:31:00","slug":"a-comunicacao-social-vive-um-periodo-fascinante-e-perverso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-comunicacao-social-vive-um-periodo-fascinante-e-perverso\/","title":{"rendered":"&#8220;A comunica\u00e7\u00e3o social vive um per\u00edodo fascinante e perverso&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Manuel Dinis Alves \u00e9 professor de Comunica\u00e7\u00e3o Social em Coimbra e Aveiro (no ISCIA) e respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o da APA (Administra\u00e7\u00e3o do Porto de Aveiro). Parte do trabalho que desenvolveu para doutoramento em Comunica\u00e7\u00e3o Social, conclu\u00eddo em 2005, acaba de ser publicado com o t\u00edtulo \u201cA informa\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o. Promo\u00e7\u00f5es, sil\u00eancios e desvirtua\u00e7\u00f5es na TV\u201d (ed. Mar da Palavra) \u2013 um livro importante para entendermos o que os telejornais nos transmitem. Entrevista conduzida por Jorge Pires <\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; O t\u00edtulo do seu livro \u00e9 \u201cA informa\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o\u201d. Em termos de princ\u00edpios e ideais, n\u00e3o devia ser precisamente o contr\u00e1rio?<\/p>\n<p>MANUEL DINIS ALVES &#8211; O antet\u00edtulo denuncia ao que venho: \u201cPromo\u00e7\u00f5es, sil\u00eancios e desvirtua\u00e7\u00f5es na TV\u201d. Refere-se ao facto de as esta\u00e7\u00f5es utilizarem os telejornais para promoverem produtos da casa ou do grupo a que pertencem e desvirtuarem a informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma den\u00fancia ao que se passa no jornalismo televisivo.<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 o resultado de uma longa investiga\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>A tese foi defendida em Abril de 2005, na Universidade de Coimbra. Analisei o circuito de alimenta\u00e7\u00e3o das not\u00edcias tendo por base os telejornais das generalistas SIC, RTP1 e TVI mais a RTP2. A tese chama-se \u201cA Agenda, montra de outras agendas. Mimetismos e determina\u00e7\u00e3o da agenda noticiosa televisiva\u201d. O que eu provo na tese \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do que o cidad\u00e3o pensa, o que passa na informa\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o \u00e9 determinado por agendas pr\u00e9vias dos jornais e das r\u00e1dios. A televis\u00e3o domina a actualidade, mas na pr\u00e1tica faz um jornalismo de anima\u00e7\u00e3o daquilo que j\u00e1 foi dado antes.<\/p>\n<p>Chega a conclus\u00f5es a partir de observa\u00e7\u00e3o \u201cno terreno\u201d.<\/p>\n<p>Durante cinco semanas estive a observar as redac\u00e7\u00f5es. Passei uma semana em cada redac\u00e7\u00e3o dos quatro canais mais uma na RTP-Porto. Foi uma esp\u00e9cie de tropa. Eu entrava com o primeiro jornalista e sa\u00eda com o \u00faltimo. Acompanhei todo o processo de produ\u00e7\u00e3o e lancei um inqu\u00e9rito de cerca de uma centena de perguntas aos trezentos profissionais. Tinha ainda sete gravadores de v\u00eddeo em casa, que gravaram quatro mil e tal telejornais para analisar.<\/p>\n<p>Um dos jornalistas televisivos disse-lhe que tudo \u00e9 infoentretenimento. \u00c9 mesmo?<\/p>\n<p>Ele tem a sua raz\u00e3o. Eles est\u00e3o a animar aquilo que foi dado pela manh\u00e3. Notei duas rotinas autom\u00e1ticas dos editores quando chegam \u00e0s redac\u00e7\u00f5es. Primeiro, v\u00eaem as audi\u00eancias: \u201cDemos porrada a\u2026\u201d; \u201co telejornal esteve bom, o que nos tramou foi\u2026\u201d Depois, consultam o clipping [recortes dos jornais da manh\u00e3] e decidem: \u201cUma equipa para isto, outra para aquilo\u201d\u2026 Que conclus\u00e3o tiro? Mais de um ter\u00e7o das not\u00edcias a que assistimos nos telejornais \u00e9 informa\u00e7\u00e3o requentada.<\/p>\n<p>Por outro lado, temos principalmente uma televis\u00e3o que se anuncia a si pr\u00f3pria atrav\u00e9s de promo\u00e7\u00f5es. As \u201cpromo news\u201d apareceram na agenda p\u00fablica a quando da abertura de telejornais com o \u201cBig Brother\u201d. Mas eu mostro que a TVI n\u00e3o \u00e9 a detentora do \u201cpecado original\u201d. Todas o fazem. A RTP sempre o fez, com o Festival da Can\u00e7\u00e3o, com a festa dos trabalhadores, ou a promo\u00e7\u00e3o de telenovelas como a \u201cA Lenda da Gar\u00e7a\u201d. O meu trabalho n\u00e3o se preocupa com a den\u00fancia de grandes casos \u2013 como o tratamento da trag\u00e9dia de Castelo de Paiva ou do assass\u00ednio de Fortaleza \u2013 mas com as coisas mais pequeninas que v\u00e3o fazendo a nossa cabe\u00e7a e das quais n\u00e3o nos damos conta.<\/p>\n<p>O seu livro aparece com uma cinta que diz \u201cComo eles nos enganam\u201d e, al\u00e9m de promo\u00e7\u00f5es, fala tamb\u00e9m de sil\u00eancios e desvirtua\u00e7\u00f5es. Quer dar exemplos?<\/p>\n<p>H\u00e1 a contamina\u00e7\u00e3o das not\u00edcias pela pu-blicidade da pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o, silenciam-se feitos das outras e desvirtua-se a informa\u00e7\u00e3o. Quando a RTP perdeu os direitos de transmiss\u00e3o da Volta a Portugal em Bicicleta, apesar de estar salvaguardado o direito de transmitir uns minutos, n\u00e3o deu uma \u00fanica not\u00edcia. Nem sequer o vencedor, no \u00faltimo dia. Estamos nos sil\u00eancios. S\u00e3o coisas conden\u00e1veis. Fala-se das derrapagens dos jornalistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que se publica, mas o sil\u00eancio \u00e9 terr\u00edvel. \u00c9 dif\u00edcil perceber, porque ningu\u00e9m est\u00e1 a ver os canais todos ao mesmo tempo. Mas acontece.<\/p>\n<p>Ora, no ano seguinte, a Volta regressa \u00e0 RTP. Ent\u00e3o, a SIC d\u00e1 muitas not\u00edcias da Volta. Pod\u00edamos pensar que se comportou melhor, que teve respeito pelos telespectadores, mas o que aconteceu foi que houve um esc\u00e2ndalo de \u201cdopping\u201d. A SIC apareceu para dar o negativo. Estamos nas desvirtua\u00e7\u00f5es. Outro caso. Quando a TVI avan\u00e7ou com transmiss\u00e3o de touradas, a SIC n\u00e3o dava nada sobre o assunto. Mas um dia ca\u00edram umas pedras no Campo Pequeno. Feriram um turista. A TVI n\u00e3o deu nada. Devia ter dado. A SIC l\u00e1 estava a fazer um directo. Outro exemplo. Em 1999, 15 ou 17 crian\u00e7as fogem de um lar no norte do pa\u00eds. Andaram a monte at\u00e9 \u00e0 noite. No dia seguinte, a RTP dizia que os jovens foram encontrados por uma equipa da RTP. Na SIC, dizia-se que foram encontrados pela GNR; na TVI, pela Judici\u00e1ria. E qual foi a verdade? Na realidade, foi uma equipa da RTP com um rep\u00f3rter do Jornal de Not\u00edcias, que tamb\u00e9m foi omitido pela RTP. Tratou-se de esconder os feitos da concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>As televis\u00f5es continuam ainda hoje a fazer sil\u00eancios e desvirtua\u00e7\u00f5es? As pr\u00e1ticas do per\u00edodo que estudou s\u00e3o extens\u00edveis \u00e0 actualidade?<\/p>\n<p>\u00c9 recorrente. Por honestidade cient\u00edfica, n\u00e3o posso dizer que isso acontece. N\u00e3o analisei. Mas tenho impress\u00f5es e at\u00e9 mais do que impress\u00f5es. Noto que at\u00e9 pode acontecer mais devido h\u00e1 concentra\u00e7\u00e3o dos grupos de comunica\u00e7\u00e3o social. Vemos muitos mimetismos entre o \u201cExpresso\u201d e a SIC. Ainda h\u00e1 dias, era manchete no \u201cExpresso\u201d a ida de procurador do caso Freeport a Inglaterra. A SIC Not\u00edcias citava o \u201cExpresso\u201d. Ora, logo de manh\u00e3, houve um desmentido da Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica. A SIC n\u00e3o deu nada. Estaria a desmentir-se e a desmentir um jornal do grupo.<\/p>\n<p>Olhando para os tempos actuais, assiste-se a um ambiente crispado e diz-se mesmo que h\u00e1 condicionamento na liberdade de informar. Concorda?<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o h\u00e1 serenidade para analisar o desempenho dos media enquanto tal. Ou se \u00e9 pr\u00f3-S\u00f3crates ou anti-S\u00f3crates, e em fun\u00e7\u00e3o disso desculpam-se todas as malfeitorias dos que s\u00e3o anti-S\u00f3crates e elogia-se o que \u00e9 feito contra o primeiro-ministro. E o inverso tamb\u00e9m \u00e9 verdade. Isto \u00e9 algo perverso. Enquanto investigador, acho este per\u00edodo fascinante. Enquanto cidad\u00e3o, acho-o preocupante. N\u00e3o tenho por h\u00e1bito ser apocal\u00edptico, mas estamos a viver um dos per\u00edodos mais negros da comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o creio que haja condicionamentos ou falta de liberdade. Se h\u00e1, tem de se provar e \u00e9 mat\u00e9ria para os tribunais.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio educar para os meios de comunica\u00e7\u00e3o social no ensino?<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental. \u00c9 not\u00e1vel o trabalho dos provedores do ouvinte e do telespectador ou projectos como o \u201cP\u00fablico na escola\u201d. Em Portugal somos todos treinadores de bancada quer do futebol quer dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Toda a gente sabe como devia ser, que not\u00edcias deviam sair. Na verdade, sabem pouco. \u00c9 preciso desconstruir os media, mostrar como as \u201cm\u00e1quinas\u201d funcionam. Mostrar que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por seres humanos, que h\u00e1 op\u00e7\u00f5es, selec\u00e7\u00e3o. A minha filha aos 8 ou 9 anos j\u00e1 sabia que sempre que o Marcelo Rebelo de Sousa come\u00e7ava com um grande elogio a algu\u00e9m a seguir dava uma cacetada fort\u00edssima. Por isso ela ficava sempre \u00e0s espera do \u201cmas\u201d que introduzia a cacetada.<\/p>\n<p>A leitura do seu livro leva o leitor a ser mais cr\u00edtico para a informa\u00e7\u00e3o televisiva. J\u00e1 teve ecos deste efeito?<\/p>\n<p>Sim. O maior elogio que me d\u00e3o \u00e9 dizerem-me que \u201cisto \u00e9 mesmo assim\u201d. No fundo, estou a chamar a aten\u00e7\u00e3o para coisas que as pessoas v\u00e3o percebendo. No livro fica um retrato exaustivo do que \u00e9 o jornalismo televisivo. \u00c9 preciso salvaguardar que o jornalista que d\u00e1 a cara \u00e9 o que menos culpa tem. As decis\u00f5es passam muito pelos editores e directores de informa\u00e7\u00e3o, que geralmente n\u00e3o aparece.<\/p>\n<p>Por outro lado, escrevo para as pessoas e n\u00e3o para os meus pares. N\u00e3o tenho o perfil do acad\u00e9mico t\u00edpico que foi professor aos 23 ou 24 anos. Nem sou como aquele jornalista brasileiro que chegava ao fim da escrita do artigo e dizia com orgulho: \u201cFixe! Deste ningu\u00e9m vai perceber nada\u201d. Escrevo a pensar nos meus alunos e nos cidad\u00e3os em geral.<\/p>\n<p>\u201cA informa\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o primeiro livro de uma s\u00e9rie de tr\u00eas que antecede a publica\u00e7\u00e3o da tese de doutoramento sobre como se forma a agenda noticiosa das televis\u00f5es. Os outros dois livros s\u00e3o \u201cEm directo do inferno. Terceiro mundo em not\u00edcias\u201d (j\u00e1 publicado) e \u201cDa m\u00e1quina enfatizada \u00e0 m\u00e1quina constrangida &#8211; Mal dita televis\u00e3o\u201d (em prepara\u00e7\u00e3o).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Dinis Alves \u00e9 professor de Comunica\u00e7\u00e3o Social em Coimbra e Aveiro (no ISCIA) e respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o da APA (Administra\u00e7\u00e3o do Porto de Aveiro). Parte do trabalho que desenvolveu para doutoramento em Comunica\u00e7\u00e3o Social, conclu\u00eddo em 2005, acaba de ser publicado com o t\u00edtulo \u201cA informa\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da esta\u00e7\u00e3o. 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