{"id":9971,"date":"2007-06-13T12:08:00","date_gmt":"2007-06-13T12:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=9971"},"modified":"2007-06-13T12:08:00","modified_gmt":"2007-06-13T12:08:00","slug":"mote-para-uma-telenovela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mote-para-uma-telenovela\/","title":{"rendered":"Mote para uma telenovela"},"content":{"rendered":"<p>Primeiro, a imagina\u00e7\u00e3o. Nem censura, nem repress\u00e3o, nem redu\u00e7\u00e3o de meios, nem diminui\u00e7\u00e3o de not\u00edcias. Apenas isto: libertar o povo da inquieta\u00e7\u00e3o desatinada dos telejornais. Caiu um avi\u00e3o com 400 pessoas na Patag\u00f3nia? N\u00e3o h\u00e1 necessidade de afligir potenciais viajantes com essa not\u00edcia. Um tornado arrasou 20 cidades? Que adianta a not\u00edcia? Explodiram 20 bombas e mataram 800 pessoas? O vereador roubou e fugiu? Mais uma crian\u00e7a raptada? O desemprego aumenta? Mas n\u00e3o h\u00e1 outras novidades?<\/p>\n<p>Para tranquilidade do povo, as televis\u00f5es fizeram um pacto: dar apenas boas not\u00edcias, agrad\u00e1veis, que o povo j\u00e1 tem muito com que se atribular. Assim, uma troca de hor\u00e1rio: \u00e0s 20 horas a telenovela em forma de not\u00edcias. Depois, em fic\u00e7\u00e3o, todos os dramalh\u00f5es da terra, que s\u00e3o verdade, mas n\u00e3o naquela hora. As pessoas divertir-se-iam com a viol\u00eancia da irrealidade e a irrealidade do bem e da paz. Longe da f\u00faria e da barbaridade das imagens acontecidas no dia, na hora, em directo.<\/p>\n<p>Que h\u00e1, neste todo, de mentira e verdade? Como ficam um cidad\u00e3o e uma sociedade navegando nestas \u00e1guas que ningu\u00e9m sabe analisar como l\u00edmpidas ou salobras?<\/p>\n<p>Vem a pergunta: o problema ser\u00e1 da tecnologia que tornou inevit\u00e1vel sabermos tudo sobre a hora ou mesmo antes de acontecer? E a r\u00e1dio, a televis\u00e3o, o telem\u00f3vel, a net e o correio electr\u00f3nico?<\/p>\n<p>De que falam as pessoas? Que factos e fantasias enchem as suas mentes, alimentam os seus mon\u00f3logos, di\u00e1logos, discuss\u00f5es, afirma\u00e7\u00e3o, recusa, instintos e nobreza? Falam bem do chefe, do colega, da sogra, do presidente? Em cada ser come\u00e7a esta complexidade. Na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com as suas agress\u00f5es, transgress\u00f5es, mentiras. Nos jovens que desafiam, em rotura, qualquer lei convencionada e sobretudo imposta. E por a\u00ed adiante, nos mecanismos do afecto, da sexualidade, da auto afirma\u00e7\u00e3o, da defesa como castelo do eu, da intriga, divertimento&#8230; ou nos simples desaires da aldeia\u2026<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o ser humano apenas um animal com vastas \u00e1reas de selva e curtas f\u00edmbrias de nobreza e transcend\u00eancia? Ser\u00e1 que o bem, o belo, a d\u00e1diva, a festa, a harmonia, n\u00e3o t\u00eam dimens\u00e3o e brilho suficientes para preencher o quadro da vida que todos n\u00f3s gostamos de desenhar na nossa exist\u00eancia?<\/p>\n<p>Uma pergunta mais: os agentes de comunica\u00e7\u00e3o sujeitos ao poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico como podem gerar outro tipo de media? E quem teria autoridade e capacidade de os controlar? O poder? Econ\u00f3mico, pol\u00edtico, popular an\u00f3nimo?<\/p>\n<p>Bom mote para uma telenovela n\u00e3o muito cor-de-rosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro, a imagina\u00e7\u00e3o. Nem censura, nem repress\u00e3o, nem redu\u00e7\u00e3o de meios, nem diminui\u00e7\u00e3o de not\u00edcias. Apenas isto: libertar o povo da inquieta\u00e7\u00e3o desatinada dos telejornais. Caiu um avi\u00e3o com 400 pessoas na Patag\u00f3nia? N\u00e3o h\u00e1 necessidade de afligir potenciais viajantes com essa not\u00edcia. Um tornado arrasou 20 cidades? 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