
Na audiência-geral desta quarta-feira o Papa Francisco continuou a refletir sobre a oraçã do Pai Nosso e lembrou os crentes que o “pão é umd ádiva para ser partilha”. Francisco convidou os presentes a perceberem que a oração que Jesus ensinou não é exclusiva dos “ascetas” mas “parte da realidade e da necessidade” do humano. Para o Papa “só a Eucaristia é capaz de saciar a fome do infinito e o desejo de Deus que anima todos os homens, mesmo na busca do pão quotidiano”.
Leia, na íntegra, a catequese do Papa Francisco.
Catequese sobre o “Pai Nosso”: 11. Dá-nos o pão de cada dia
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje vamos analisar a segunda parte do “Pai Nosso”, aquela em que apresentamos nossas necessidades a Deus. Esta segunda parte começa com uma palavra que cheira a vida quotidiana: o pão.
A oração de Jesus começa com um pedido convincente, que é muito semelhante ao pedido de um mendigo: “dá-nos o pão de cada dia!” Esta oração vem de uma evidência que muitas vezes esquecemos, o mesmo é dizer que não somos criaturas autossuficientes e que precisamos de alimentar-nos todos os dias.
As Escrituras mostram-nos que para tantos o encontro com Jesus foi realizado a partir de uma pergunta. Jesus não pede invocações refinadas, pelo contrário, toda a existência humana, com os seus problemas mais concretos e quotidianos, pode converter-se em oração. Nos Evangelhos encontramos uma multidão de mendigos que imploram por libertação e salvação. Quem pede pão, quem pede a cura; alguns a purificação, outros a visões; ou que alguém que pede um familiar querido viva de novo…Jesus nunca passa indiferente ao lado destes pedidos e destas dores.
Portanto, Jesus ensina-nos a pedir ao Pai o pão de cada dia. E ensina-nos a fazer isto juntamente com tantos homens e mulheres para quem esta oração é um grito – frequentemente mantido dentro – que acompanha a ansiedade quotidiana. Quantas mães e pais, ainda hoje, vão dormir com o tormento de não ter pão suficiente amanhã para os filhos! Imaginamos esta oração recitada não na segurança de um apartamento confortável, mas na precariedade de uma sala em que nos adaptamos, onde não há o suficiente para viver. As palavras de Jesus adquirem nova força. A oração cristã começa neste nível. Não é um exercício para ascetas; parte da realidade, do coração e da carne das pessoas que vivem em necessidade, ou que compartilham a condição daqueles que não têm o necessário para viver. Nem mesmo os maiores místicos cristãos podem desconsiderar a simplicidade desta questão. “Pai, que haja o pão necessário para nós e para todos”. E “pão” serve também para água, remédio, casa, trabalho … Pedir o que é necessário para viver.
O pão que o cristão pede em oração não é “meu”, mas o “nosso” pão. É isto que Jesus quer. Ensina-nos a pedir não só para nós mesmos, mas para toda a fraternidade do mundo. Se não orarmos deste modo, o “Pai Nosso” deixa de ser uma oração cristã. Se Deus é nosso Pai, como podemos apresentar-nos perante Ele sem darmos as mãos? Todos nós. E se o pão que Ele nos dá o roubámos aos outros, como podemos dizer-nos seus filhos? Esta oração contém uma atitude de empatia, uma atitude de solidariedade. Na minha fome, sinto a fome das multidões, e então orarei a Deus até que o pedido deles seja concedido. Assim, Jesus educa a sua comunidade, a sua Igreja, para trazer as necessidades de todos a Deus: “Todos nós somos seus filhos, Pai, tende piedade de nós!” E agora far-nos-á bem parar um pouco e pensar nas crianças famintas. Pensemos nas crianças que estão em países em guerra: as crianças famintas do Iémen, as crianças famintas na Síria, as crianças famintas em muitos países onde não há pão, no Sudão do sul. Pensemos nestas crianças e pensemos nelas juntas, e digamos em voz alta a oração: “Pai, dá-nos hoje o pão de cada dia”. Todos juntos.
O pão que pedimos ao Senhor em oração é o mesmo que um dia nos acusará. Seremos censurados pelo pouco hábito de o repartir com aqueles que nos são próximos, o pouco hábito de compartilhá-lo. Foi um pão dado para a humanidade e, em vez disso, foi comido apenas por alguém: o amor não pode suportar isto. O nosso amor não pode suportá-lo; nem o amor de Deus pode suportar este egoísmo de não compartilhar o pão.
Era uma vez uma grande multidão diante de Jesus; eram pessoas que estavam com fome. Jesus perguntou se alguém tinha alguma coisa e apenas uma criança foi encontrada disposta a compartilhar o seu suprimento: cinco pães e dois peixes. Jesus multiplicou esse gesto generoso (v. Jo 6, 9). Aquela criança tinha entendido a lição do “Pai Nosso”: que a comida não é propriedade privada – vamos colocar isto em mente: a comida não é propriedade privada – mas providência a ser compartilhada, com a graça de Deus.
O verdadeiro milagre realizado por Jesus naquele dia não é tanto o da multiplicação – que é verdade – mas a partilha: tu dás o que tens e eu realizo o milagre. Ele mesmo, multiplicando o pão oferecido, antecipou a oferta de si mesmo no pão eucarístico. De facto, só a Eucaristia é capaz de saciar a fome do infinito e o desejo de Deus que anima todos os homens, mesmo na busca do pão quotidiano.
Tradução Educris a partir do original em italiano
28.03.2019




